Cultura

A casa agora é sua

Depois de permanecer fechada por onze anos, a residência onde moraram Jorge Amado e Zélia Gattai é aberta pela primeira vez ao público, restaurada e transformada em museu. A convite de VEJA SALVADOR, Paloma Jorge Amado, filha do casal de escritores, retorna ao casarão em que viveu durante a adolescência e, emocionada, descortina um passeio repleto de histórias memoráveis

Paloma Jorge Amado, na entrada do imóvel onde viveu com os pais dos 13 aos 20 anos: “Foi a casa de minha vida inteira” (Fotos: Ligia Skowronski)

Paloma Jorge Amado, na entrada do imóvel onde viveu com os pais dos 13 aos 20 anos: “Foi a casa de minha vida inteira” (Fotos: Ligia Skowronski)

11.dez.2014 15:17:34 | por Luis Fernando Lisboa

“Logo, logo vai se formar um tapete rosa no chão, coberto de flores de jambeiro”, observa Paloma Jorge Amado enquanto caminha pelo jardim da casa número 33, na Rua Alagoinhas, bairro do Rio Vermelho. A árvore frutífera, que geralmente floresce no início do ano, está plantada no amplo quintal onde Paloma, ainda adolescente, costumava colher pitangas na companhia dos pais, os escritores Jorge Amado (1912-2001) e Zélia Gattai (1916-2008). Ao longo dos 37 anos em que viveu ali, o casal ícone da literatura brasileira transformou o endereço numa espécie de meca artística e intelectual do século XX. “Às vezes eu fico constrangida em falar sobre figuras como (o filósofo Jean-Paul) Sartre e (o escritor Pablo) Neruda, porque muita gente pode pensar que sou metida a besta. Mas essas eram pessoas do nosso cotidiano”, recorda-se.

Berço de histórias preciosas, o lugar esteve guardado a sete chaves por mais de uma década, desde que Zélia trancou suas portas em 2003, dois anos após a morte do marido — ela faleceu cinco anos depois, em outro endereço. Para a tristeza de Paloma, a mãe partiu sem ver consolidado um de seus desejos: transformar o casarão da família em um museu aberto ao público. O sonho se concretizou, enfim, no último dia 14 de novembro. Completamente restaurados, os cômodos recobraram o vigor de outrora pelas mãos do arquiteto e cenógrafo Gringo Cardia, que assina a curadoria do projeto, orçado em 6 milhões de reais.

 

A sala principal, onde a família costumava fazer as refeições: a curadoria do museu foi fiel ao manter cada objeto em seu lugar de origem

 

O visitante percorre mais de 2 000 metros quadrados, divididos em quinze salas repletas de obras de arte, como um azulejo pintado pelo espanhol Pablo Picasso, móveis, fotografias e outros objetos pessoais de Amado e Zélia. Projetados nas paredes brancas, depoimentos gravados em vídeo por personalidades como Caetano Veloso, Paulinho da Viola e Sônia Braga ajudam a guiar o passeio. Nada se compara, entretanto, à experiência de “correr a casa” em companhia de quem cresceu nela. “As pessoas chegavam aqui e mamãe perguntava: ‘Chá, café ou correr a casa?’”, diz Paloma, sorrindo. Ela conta que a família começou a procurar um lugar para se instalar em Salvador em 1962: “Eu estava em ano letivo no Rio de Janeiro, onde morávamos naquela época, mas vinha para cá frequentemente visitar alguns imóveis”. Um deles, a propósito, rendeu um desfecho interessante. Jorge Amado já se encontrava no cartório assinando o contrato de compra quando a proprietária o viu. “Ela tratou logo de dobrar o preço. Papai ficou indignado e desistiu do negócio”, explica a filha — ironicamente, o tal endereço é o mesmo onde hoje está instalado o Teatro Jorge Amado, na Pituba. Escolhida a dedo, a casa do Rio Vermelho foi comprada pelo escritor com o dinheiro da venda dos direitos autorais de seu livro Gabriela, Cravo e Canela (1958) para a MGM. “Viemos morar aqui em 1964, mas as reformas só terminaram em 1966”, conta Paloma, que chegou à nova residência aos 13 anos e morou por mais sete, até o dia de seu casamento: “Minha saída não muda o fato de que esta foi a casa de minha vida inteira”, diz a também escritora, de 63 anos. Entre salas e quartos, ela viu circular pelos corredores figuras ilustres dos mais diferentes ramos artísticos — da escritora francesa Simone de Beauvoir ao cineasta e roteirista polaco-francês Roman Polanski. Essa lista de nomes que faz o leitor erguer as sobrancelhas soava natural para Paloma e seu irmão, João Jorge Amado. “Não havia diferença no tratamento das pessoas que frequentavam a nossa casa. Você veria o maestro Tom Jobim tocando ao lado do mestre de capoeira Camafeu de Oxóssi, ambos sendo recebidos sem distinção por meus pais”, comenta a filha. Ela lembra que os convidados, vez ou outra, deixavam marcas indeléveis em sua estadia. Foi assim quando Jorge Amado se queixou das vigas que sustentavam o imóvel a Carybé. O ceramista argentino decidiu talhar o desenho de uma pomba no topo de todas elas.

 

Em uma das salas estão expostas as indefectíveis camisas coloridas e os chapéus de Jorge Amado: objetos pessoais pontuam todos os ambientes do museu

 

A varanda coberta, junto ao bar, era o lugar preferido da dupla para recepcionar os convidados que preenchiam a casa nas chamadas domingueiras. Uma mesa enorme acomodava as comidas do dia: “Se papai chegasse da Europa com queijo francês, ele era servido. Acarajé sempre estava a mão. Comia-se muito por aqui, e minha mãe era excelente cozinheira”. Paloma explica que por muito tempo Jorge Amado recebeu direitos autorais nos países comunistas da época em moeda não conversível. Na União Soviética, por exemplo, os pagamentos eram feitos em rublo, e todo o montante precisava ser gasto dentro dos limites geográficos daquele país. Em 1967, numa dessas viagens, o escritor trouxe enormes porções de caviar e decidiu fazer um petit-comité. “Colocamos a iguaria sobre o beiju torradinho. Se você visse a felicidade do papai, os amigos todos ao redor dele. Dá uma saudade horrível”, diz ela, com os olhos marejados diante do horizonte verde da varanda.

A conversa segue intimista, agora no quarto em que Paloma reserva histórias para lá de poéticas. No fundo do cômodo onde ela dormia, havia um armário de quatro portas, no qual escreveu poesias de Vinicius de Moraes. Quando ele visitou a família, Zélia entregou que a filha havia decalcado dois sonetos dele no guarda-roupa. “Vinicius quis ver e autografou tudo para mim. Fiquei em deleite”, lembra. No museu, o quarto foi transformado em dois ambientes: um dedicado à trajetória comunista de seu pai e outro que expõe cartas e cartões trocados entre Amado, Zélia e amigos, como Carlos Drummond de Andrade e Oscar Niemeyer.

 

 

Correspondências trocadas entre Jorge Amado e amigos, como o poeta Carlos Drummond de Andrade. À esquerda, uma edição francesa de Gabriela, Cravo e Canela (1958). Com o dinheiro da venda dos direitos da obra para a MGM, o escritor baiano comprou a casa do Rio Vermelho Embaixo, a máquina de escrever exposta no museu, de onde saíram vários romances de Jorge Amado, a exemplo de Tieta do Agreste (1977).

 

Mesmo sob a direção da anfitriã, é fácil se perder pelos cômodos do casarão. Paloma conta que, para reproduzir os ambientes com fidelidade, a equipe de Gringo Cardia baseou- se no livro Rua Alagoinhas, 33, Rio Vermelho, escrito por ela em 1999 e ilustrado com fotografias. “Cada coisa está onde sempre esteve”, afirma. Segundo ela, a sala também continua exatamente como antes. Agora batizada com o nome de A Bahia de Jorge Amado, exibe imagens de moradores comuns de Salvador ao som de Dorival Caymmi. Esse era o espaço no qual a família se reunia para as refeições. O escritor ainda colocava ali a sua máquina de escrever e controlava quase tudo: quem entrava e saía e até o telefone que tocava. “Ele não conseguia se fechar num escritório”, diz Paloma. Os lugares para escrever variavam de acordo com a fase do livro: “Quando estava no começo, era na sala. Se estivesse mais adiantado, precisava se concentrar em um cômodo tranquilo”.

Sua mãe, por outro lado, gostava de se trancar no laboratório de fotografia. Por isso, o espaço foi escolhido pela curadoria para abrigar as câmeras da escritora. Em uma de suas viagens, Zélia descobriu os panos fotográficos, tecidos que permitiam a revelação de imagens. “Os netos já tinham nascido e ela decidiu clicálos e fazer bonecos com o rosto deles”, conta. O museu reproduziu o trabalho da matriarca com a árvore genealógica da família Amado.

 

O jardim do casarão, ponto alto da visita: sob a terra da frondosa mangueira estão enterradas as cinzas de Amado e Zélia

 

Entre todos os cantos da grande casa do Rio Vermelho, o jardim é onde Amado e Zélia se encontram de um jeito especial. Não à toa, Paloma começa e encerra o passeio por ele, em meio a um turbilhão de emoções. Ali ela viu o pai e o jardineiro Zuca exterminar as formigas que insistiam em prejudicar o terreno. Nesse mesmo quintal, viu também uma fogueira ser acesa para queimar panfletos progressistas durante os anos de chumbo. A mais tenra lembrança, porém, está guardada debaixo da grande mangueira, onde as cinzas de Jorge Amado e Zélia Gattai foram devidamente misturadas à terra e aos encantos do lugar. “Eles estão presentes sempre. Ainda posso ouvir os dois conversando por aqui.”

 

TEMPERO DE FAMÍLIA

Paloma Jorge Amado lembra que, quando jovem, ganhou de seu pai um livro com as receitas preferidas do Comissário Maigret, personagem da série policialesca do escritor belga Georges Simenon. Encantada com o presente, entendeu que poderia fazer o mesmo com a obra de seu pai. Paloma releu todos os títulos em ordem cronológica e extraiu tudo o que os personagens disseram ou pensaram sobre comida. Após um período de seis anos de pesquisa, veio o livro A Comida Baiana de Jorge Amado ou O Livro de Cozinha de Pedro Archanjo com as Merendas de Dona Flor. Publicado em 1994, o título acaba de ganhar uma edição pela editora Panelinha (312 páginas, R$ 99,90). No museu, o espaço Os Amados Sabores de Jorge apresenta ao visitante alguns dos quitutes baianos levados à mesa da família, entre eles o pitu com ovos escalfados e a frigideira de peixe, incluídos no livro de Paloma. Para quem quer comida de verdade (não a cenográfica exposta no museu), a Feira Merendas de Dona Flor é uma grata surpresa. No último sábado do mês (16h), o evento ocorre no Largo do Pelourinho com barracas de comidas típicas, que marcaram os romances de Jorge Amado. Provam-se as delícias ao som de chorinho tocado ao vivo.

 

Casa do Rio Vermelho — Jorge Amado e Zélia Gattai. Rua Alagoinhas, 33, Rio Vermelho. 10h/17h (sex. a dom.). A partir do dia 26: ter. a dom. Ingresso: R$ 20,00.