ARTE

Galeria a céu aberto

Os traços coloridos que ilustram esta reportagem estão espalhados pela cidade, e não é preciso pagar nada para vê-los. Eles expõem sonhos, críticas e o talento de toda uma geração de grafiteiros

O grafite de Peacetu ocupa o muro da Subestação da Coelba, próximo à Faculdade São Camilo. Além da inspiração na natureza, chama atenção sua habilidade para criar uma discreta ilusão de volume. Rua Visconde de Itaborahy (altura do número 996), Amaralina. (Foto: Arquivo pessoal)

O grafite de Peacetu ocupa o muro da Subestação da Coelba, próximo à Faculdade São Camilo. Além da inspiração na natureza, chama atenção sua habilidade para criar uma discreta ilusão de volume. Rua Visconde de Itaborahy (altura do número 996), Amaralina. (Foto: Arquivo pessoal)

09.dez.2014 18:31:58 | por João Barreto

Boa parte do colorido da capital baiana se deve a um grupo de artistas, cada vez maior, que extrapolou os limites das galerias, abraçou o grafite e passou a espalhar suas obras por muros, viadutos e arcos da cidade. Além de tintas, a arte de rua carrega mensagens implícitas ou explícitas, que muitas vezes estão ligadas à história de quem vive ao seu redor. Nos últimos anos, entre os responsáveis por transformar Salvador em uma galeria a céu aberto encontram- se Bigod Silva, Prisk Marcos e Julio Costa.

 

Os enredos das religiões de matriz africana e as referências da cultura popular brasileira são o ponto de partida das obras de Tarcio Vasconcelos, que prefere as cores discretas. Sesc Aquidabã, Avenida Presidente Castelo Branco, 336, Nazaré.

 

Braço do Nova10ordem, o trio conferiu novos ares ao cotidiano dos moradores do Unhão, na Avenida do Contorno, ao instalar por ali, em 2012, o Musas — Museu de Street Art de Salvador. E as mudanças vão muito além do mural grafitado em mutirão e do colorido das casas da Gamboa de Baixo, facilmente avistados por quem vai ao Museu de Arte Moderna da Bahia (MAM) ou às oficinas, exibições de filmes e atividades recreativas promovidas pelo coletivo em datas comemorativas. O objetivo do projeto é despertar a autoestima dos moradores e também envolvê-los em um processo colaborativo para a melhoria do local em que vivem. No mês de novembro, em protesto pela falta de incentivos públicos ou privados à arte de rua, os artistas decidiram pintar a sede do Musas na cor cinza, mas as intervenções continuam a se multiplicar por aí. “Após dois anos na comunidade do Unhão, percebemos que as atividades podiam ser dinamizadas para espaços próximos, bairros vizinhos, sempre mantendo o papel do grupo”, explica Julio Costa. Assim, as ações — e, claro, os grafites — também chegaram à Ladeira da Preguiça, Massaranduba, Praia Grande e Chácara Santo Antônio. Em novembro, o projeto extrapolou a capital e alcançou o município de Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo Baiano, onde os grafiteiros se juntaram à comunidade para fundar o Centro Cultural Quilombo de São Braz.

 

As figuras de cores vibrantes e psicodélicas marcam o trabalho de Eder Muniz. Um mural titânico do artista, de 20 metros de comprimento por 6 de altura, pode ser visto também no Brooklyn, em Nova York, reduto de grafiteiros desde 1970. Largo 2 de Julho, centro.

 

Bigod Silva, Prisk Marcos e Julio Costa, o trio à frente do Musas, são expoentes da criativa cena de arte de rua baiana, que ganhou forças na década de 90. Na mesma época, nascia outro coletivo, o Turbilhão Urbano. Então alunos do Colégio Central, os artistas Limpo Rocha, Peacetu e Sisma passaram a conquistar muros e viadutos de Salvador com seus traços sofisticados e cores harmônicas. Naqueles tempos, os irmãos da dupla OSGEMEOS, atualmente entre os mais festejados grafiteiros do país, eram uma das referências desses jovens, que trilharam o caminho do grafite engajado. Sisma segue com suas tintas em Salvador e é ainda tatuador, enquanto Peacetu e Limpo Rocha se mudaram para a Europa — há murais de Rocha, por exemplo, em locais públicos na Dinamarca, na França e na Suécia.

 

Elementos oníricos, que evocam uma atmosfera surreal, despontam nos painéis de Samuca Santos. Rua das Gaivotas (altura do número 454), Imbuí.

 

A geração de grafiteiros pós-Turbilhão Urbano é tão prolífica quanto diversificada. Dela fazem parte Denissena, que retrata a identidade dos brasileiros em coloridos painéis, e Core e SuperAfro, ambos dedicados exclusivamente à tipografia. “Tenho muita influência dos quadrinhos, das embalagens de doce, dos desenhos animados e, principalmente, dos grafites dos anos 70 e 80”, diz Core. Há que registrar também as figuras surreais, multicoloridas e muitas vezes etéreas dos murais de Eder Muniz e de Samuca Santos, que vibram por Salvador, e os deuses e outros aspectos das religiões de origem africana, presentes na produção de Leevintesete e de Tarcio Vasconcelos. “Grafite é arte de guerrilha acessível a todos, é transgressão e rua, que vai além do óbvio estético”, afirma Vasconcelos, radicado em São Paulo.

 

Leevintesete leva a bandeira pela tolerância religiosa ao pintar os aspectos e elementos das narrativas do candomblé. Há murais de sua autoria em diversas cidades nordestinas. Rua Siqueira Campos, 57, Barbalho. | As onomatopeias das HQs inspiraram a obra de Core, localizada sob a passarela que dá acesso ao Cosme de Farias. Avenida Mario Leal Ferreira (sentido Lapa), Bonoco.

 

Um interessante registro da arte dos grafiteiros pelas ruas de Salvador está no recém-lançado Graffiti Salvador (Editora Pinaúna), um livro com 300 imagens e depoimentos, fruto de uma parceria da antropóloga Bárbara Falcón e da fotógrafa Carol Garcia com o Fundo de Cultura do Estado da Bahia, que o financiou. A obra não se encontra à venda — em vez disso, 80% da tiragem de 1 000 exemplares será destinada a escolas e bibliotecas, para consulta.