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Home » Revista » Edição nº 891 » Os Cariocas do Ano
19/11/2008Especial
Os Cariocas do Ano
Alguns deles não nasceram no Rio, mas por seu
amor e dedicação à cidade se tornaram cariocas
exemplares. Ao longo do ano, estes catorze personagens se destacaram em várias áreas de
atuação: teatro, negócios, música, moda, saúde...
Por isso, foram escolhidos por Veja Rio os Cariocas
do Ano 2008. Conheça os eleitos
Veja também
Galeria de imagens
Fernando Lemos
1- Claudio Botelho; 2- Charles Möeller; 3- Daniella Martins; 4- Sergio Britto; 5- Mart’nália; 6- Roberto Guedes; 7- Rui Campos; 8- Maurício Nóbrega; 9- Alexandre Accioly; 10- Fabi; 11- Cildo Meireles; 12- Grazielli Massafera; 13- Roberto Medronho; 14- Leda dos Reis Castilho
Esportista
FabiA líbero carioca ajudou, e como, a seleção
feminina de vôlei a ganhar o inédito ouro
Fernando Lemos
Assim que retornou de Pequim, em agosto, a líbero Fabi fez questão de deixar uma marca indelével da maior glória de sua vida. Tatuou no pé esquerdo os cinco anéis olímpicos e no direito uma frase estimulante que lera numa bandeira no alojamento dos atletas: Pain is temporary, pride is forever (A dor é temporária, o orgulho é para sempre) – ela tem dez tatuagens ao todo. Ficará para a eternidade o feito da seleção de vôlei, que se tornou a primeira equipe feminina do Brasil a faturar uma medalha de ouro nos Jogos. "Por termos conseguido quebrar alguns rótulos, o significado dessa conquista é único", diz. De cima de seu 1,69 metro, essa baixinha assumidamente "folgada" chama atenção em meio a suas colegas alguns palmos mais altas. E não só pelo tamanhinho. Fabi foi eleita a melhor jogadora de sua posição na Olimpíada. Uma função, diga-se, afeita a quem gosta de sofrer: a líbero se limita a amaciar as pancadas adversárias no fundo da quadra, sem poder jamais subir à rede para revidar o ataque. Fabiana Alvim de Oliveira nasceu no Rio há 28 anos. É filha de um motorista e de uma manicure, ambos aposentados. Em setembro, ela se mudou de Copacabana para Ipanema, onde mora com a cadela da raça labrador Malu a duas quadras da praia, seu destino freqüente quando não está a serviço da seleção ou de seu clube, o Rio de Janeiro. Obcecada por treinamento, nem na areia ela descansa: costuma bater bola na rede em frente à Rua Garcia d’Ávila. "Eu me orgulho de poder viver do vôlei."
Artista plástico
Cildo MeirelesPrêmios conquistados na Espanha e nos Estados Unidos e
retrospectiva na Tate Modern, de Londres, marcaram o ano
Fernando Lemos
O ano tem sido especial para o artista plástico carioca Cildo Meireles. Em fevereiro, quando completou 60 anos, recebeu de presente o prêmio Velázquez de las Artes Plásticas, concedido pelo Ministério da Cultura da Espanha e entregue pelo rei Juan Carlos I em cerimônia no Museu do Prado, em Madri, realizada quatro meses após o anúncio. Mal recobrou o fôlego pelo inédito reconhecimento a um artista não-hispânico com essa honraria, ele soube da conquista do Ordway 2008, premiação bienal do New Museum of Contemporary Art de Nova York. "Foram duas surpresas, já que fui indicado sem saber", conta. Não foram realizações isoladas no exterior. Meireles está com uma retrospectiva das quatro décadas de sua carreira na Tate Modern, de Londres, que em 2009 circulará por Barcelona, Texas, Los Angeles e Toronto. O acervo inclui obras de pequenos formatos e instalações de grandes dimensões, como Babel, totem de 5 metros repleto de aparelhos radiofônicos. No Rio, oito de suas criações podem ser vistas na coletiva MAM 60 Anos – Arte Brasileira 1963-1978. Achou pouco? Também neste ano ele ganhou reedição da retrospectiva Algum Desenho (1963-2008), no Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba. Com tantos afazeres dentro e fora do país, Meireles pouco pára em seu ateliê, com 12 metros de pé-direito, em Botafogo. "Venho mais para ver meus filhos, que moram aqui", diz.
Diretores teatrais
Charles Möeller e Claudio BotelhoEles terminam 2008 com três musicais de sucesso em cartaz
e já têm quatro espetáculos programados para 2009
Fernando Lemos
Uma espiada na coluna de espetáculos revela: a dupla Charles Möeller e Claudio Botelho brilhou na temporada carioca de 2008 com três musicais, todos ainda em cartaz. Neste ano, o destaque da parceria iniciada há onze anos foi A Noviça Rebelde, superprodução de 9,8 milhões de reais que inaugurou em maio o teatro Oi Casa Grande. Sucesso de público, o musical sobre a família austríaca Von Trapp havia sido visto por 80 000 pessoas até a semana passada. Também teve a aprovação dos críticos. "Pela expressiva contribuição dada ao gênero musical no cenário carioca", os dois parceiros concorrem ao Prêmio Shell na categoria especial, uma das cinco indicações da montagem. Outra bem-sucedida iniciativa dos autores teve como base um dos grupos-símbolo do rock. Beatles num Céu de Diamantes, calcado nas canções da banda mais famosa do planeta, estreou em janeiro no Espaço Sesc, trocou de palco, e segue até fevereiro no Teatro do Leblon, com mais de 60 000 espectadores no borderô. A terceira atração em cartaz é 7 – O Musical que, após uma bem-sucedida temporada em 2007, retornou aos palcos dois meses atrás. Para o próximo ano, a expectativa é pela estréia de Avenida Q, prevista para São Paulo, com direção da dupla. Por aqui, estrelam a ficha técnica de Gloriosa, com Marília Pêra, além de outros dois espetáculos: O Despertar da Primavera, em julho, e Gipsy, sonho antigo dos parceiros, programado para outubro. "O mais importante é que entramos em 2009 com a temporada definida", diz Botelho.
Profissional da moda
Daniella MartinsCriadora de vestidos charmosos e exclusivos, a estilista agora
vende suas criações para países da Europa e do Oriente Médio
Fernando Lemos
O olhar doce e o sorriso envergonhado são marcas registradas da estilista Daniella Martins – quase tão fortes quanto os belíssimos vestidos, com bordados delicados e tingimentos sutis, que saem de seu ateliê no Jardim Botânico. "Mais fácil fazer uma roupa dessas do que posar para uma foto", diz, exibindo um de seus trabalhos enquanto briga com a própria timidez para encarar a câmera. Ela gosta mesmo é de estar à frente da produção, atenta a aplicações, nervuras, recortes, uma infinidade de detalhes que tornam suas peças únicas. "Sempre adorei costurar e me divirto quando vou a lojas de aviamentos", conta. "Eu me realizo transformando um tecido plano em algo cheio de texturas diferentes." O que era uma distração na vida de Daniella começou a virar profissão há cerca de nove anos, quando decidiu vender para amigas as bolsas com bordados delicados que fazia para si. No boca-a-boca, seu trabalho se espalhou. A pequena produção de acessórios cresceu e há seis anos a estilista resolveu confeccionar também camisas e casacos. Agora o forte são os vestidos. "Gosto da idéia da mulher que sai de casa de manhã pronta para tudo", afirma. "Basta trocar a sandália rasteira por um salto alto e ir para a noite." Aumentar demais a produção não faz parte de seus planos – já recusou convites para participar de semanas de moda para não perder o foco de sua criação quase artesanal. "Minha roupa é difícil de ser executada, faço no máximo cinco peças de cada", explica. Mais um trunfo da estilista: numa cidade onde não é raro encontrar, numa festa ou evento social, duas pessoas com trajes iguais, usar uma de suas criações faz o risco baixar a praticamente zero. Em seu ateliê são produzidas cerca de 300 peças por mês, com preço entre 600 e 2 500 reais. Desde fevereiro, elas estão à venda também na pequena sala em um prédio comercial no Leblon. O ano de 2008 marcou o início da comercialização para sete países: França, Inglaterra, Alemanha, Egito, Kuwait, Rússia e Arábia Saudita. O segredo do sucesso, no entender da criadora: "Minha roupa não é sexy, mas tem uma sensualidade sutil".
Empresário/Empreendedor
Alexandre AcciolyDepois de fazer fortuna com telemarketing, restaurantes
e casas noturnas, ele investe na boa forma dos cariocas
Ismar Ingber
O empresário Alexandre Accioly, 46 anos, é daqueles que estabelecem metas e não sossegam enquanto não as cumprem. Garoto ainda, dividindo um quarto-e-sala com a mãe, a irmã e a sobrinha, decidiu que ficaria rico. Ficou. Sonhava em comemorar seus 40 anos com uma festa que entrasse para a história da cidade. Conseguiu. Cismou que traria a banda de rock U2 para tocar no Brasil. Trouxe. De origem simples, ligou-se a sobrenomes de peso no Rio e em São Paulo: é sócio de Rogério Fasano, do herdeiro do grupo Pão de Açúcar João Paulo Diniz, e tem um filho, Antonio, que faz parte do clã Monteiro de Carvalho. No início de 2008 resolveu criar a maior rede de academias de ginástica do país e está chegando lá. A rede A!BodyTech, projeto iniciado em 2005 com quatro academias na cidade, é hoje um colosso com vinte estabelecimentos – onze deles no Rio – e 30 000 alunos espalhados em seis estados. Em julho deu o primeiro passo para atingir o objetivo que traçou: comprou a rede Fórmula, de São Paulo, por um valor estimado em 40 milhões de reais. A ação faz parte de uma estratégia que pretende levar Accioly e seus sócios – João Paulo Diniz e o ex-banqueiro Luiz Urquiza entre eles – a ter, em cinco anos, noventa academias e 200 000 alunos em todo o país e a lançar ações da rede na bolsa de valores em 2011. "Academias são associadas a bem-estar e qualidade de vida", diz o empresário. "E quem não quer isso?" A próxima meta está sendo traçada: arrumar tempo para voltar a malhar.
Atriz
Grazielli MassaferaA bela que veio do interior do Paraná venceu seu forte sotaque
e o preconceito de colegas de profissão e se tornou uma estrela
Ernani D’Almeida
Parece coisa de novela. Em menos de quatro anos, a vida da ex-babá, manicure e balconista Grazielli Massafera, de 26 anos, sofreu uma reviravolta. Do tipo que a gente só costuma ver na televisão. A filha de ex-bóias-frias, vinda de Jacarezinho, uma cidade com apenas 39 000 moradores no interior do Paraná, ficou em terceiro lugar no concurso Miss Brasil 2004, experimentou a fama-relâmpago com o programa Big Brother Brasil e neste ano foi alçada à condição de protagonista na novela das 6 da Rede Globo. "As pessoas falam que tenho de deixar de ser humilde e parar de ficar dizendo de onde vim, mas essa é a minha história", afirma. "Quando saí do BBB não sonhava que pudesse fazer novela, muito menos um papel tão importante." Com beleza, carisma e espontaneidade incontestáveis, Grazi estreou no horário nobre em Páginas da Vida. Logo depois foi escalada para Desejo Proibido. Modelo, ex-BBB, sem um tico de experiência, não faltou gente olhando torto para a novata nos estúdios. "Respondo com estudo e dedicação." Na pele de Lívia, a estrela de Negócio da China, uma típica carioca, seu maior desafio foi domar o sotaque carregado de erres. "Quando soube que o meu par, o Fábio Assunção, se chamaria Heitooorr (o sotaque escapa), vi que teria mesmo muito trabalho", brinca. Desde o fim de sua participação no BBB, a bela de 1,73 metro e 57 quilos já fez 219 capas de revista, virou queridinha do mercado publicitário e comprou uma casa no Recreio dos Bandeirantes. Sorte na vida profissional, sorte também no amor. Há mais de um ano, namora o ator Cauã Reymond. "O que eu espero para o futuro? Aconteceu tanta coisa em tão pouco tempo que, se continuar assim, está maravilhoso."
Arquiteto
Maurício NóbregaDo Rio a Paris, passando por São Paulo e Trancoso, ele cria
ambientes aconchegantes, com a cara da cidade onde nasceu
Fernando Lemos
O negócio dele não é fazer casas-vitrine. As residências que projeta ou decora têm alma, estilo e, de quebra, a cara do Rio. Aos 49 anos, 25 de profissão, o arquiteto carioca Maurício Nóbrega vive um ano especial. O apartamento decorado por ele na Casa Cor 2008, de 80 metros quadrados, considerado o mais bonito da mostra, foi o primeiro a ser vendido – pelo preço recorde de
9 000 reais o metro quadrado. Conhecido por seus projetos ao mesmo tempo despojados e chiques, Nóbrega cuidou da repaginação dos lounges do Shopping Leblon, inaugurou um escritório na Rua Dias Ferreira, no Leblon, e abriu filial em São Paulo. No momento, toca mais de cinqüenta obras. "Não faço uma casa para ver, mas para viver", explica. "O ambiente precisa ter a cara do cliente, ser um pouso de verdade." Seus projetos têm toques coloridos, madeira e mescla de materiais como fibras, acrílicos, objetos clássicos, peças modernas e lembranças de família. "Essa mistura combina com o Rio", diz o carioca, filho de um arquiteto, casado há 25 anos com a psicóloga Cecília e pai de Maria Isabel, 18, e Maria Clara, 21, estudante de arquitetura. Elementos díspares se tornam harmoniosos nas mãos de Nóbrega, que toca projetos no Rio, em Angra, Petrópolis, Macaé, Trancoso, São Paulo e Paris. Assina ainda o visual do restaurante Carlota, no Leblon, e do bar Saturnino, no Jardim Botânico, e o novo projeto da pousada Capim Limão, em Itaipava. Não raro, visita de bicicleta suas obras na Zona Sul. "Já ouvi pessoas dizendo que passo as manhãs pedalando porque estou cheio da grana; outras, porque estou sem trabalho", acha graça. "Não ligo. Trabalho e curto a cidade."
Cientista
Leda dos Reis CastilhoWorkaholic assumida, ela coordena pesquisas que podem
ajudar a salvar a vida de milhares de brasileiros
Fernando Lemos
Pelos corredores da UFRJ não é difícil confundi-la com uma aluna. O ar de menina da pesquisadora carioca Leda dos Reis Castilho, 34 anos, contrasta com a dimensão de sua trajetória acadêmica e científica. Professora do Programa de Engenharia Química da Coppe, onde ingressou como uma das mais jovens docentes, aos 28 anos, está à frente do projeto que vai pôr o Brasil na lista dos produtores de biofármacos (medicamentos à base de células animais usados no tratamento de hemofilia, câncer e aids). Por ano, o país gasta 1,5 bilhão de reais com a importação desses produtos, entre eles os três em desenvolvimento no Laboratório de Engenharia de Cultivos Celulares, coordenado por Leda. "Se tudo der certo, em dez anos os medicamentos estarão disponíveis", diz ela, que em 2008 entrou para a Academia Brasileira de Ciências. Novamente, entre os mais jovens afiliados. A cientista se formou em engenharia química na UFRJ, fez mestrado ali, doutorado na Alemanha, escreveu três livros, tem mais de vinte artigos em publicações internacionais e cinqüenta participações em congressos. É workaholic assumida. "Não me lembro do último fim de semana em que não trabalhei." Moradora do Leblon, passa em média doze horas na Ilha do Fundão, onde ficam os laboratórios. Participa também da pesquisa que obteve a primeira linhagem nacional de células-tronco embrionárias humanas. O feito, anunciado há dois meses, abre caminho para o desenvolvimento de terapias regenerativas para doenças cardíacas, cânceres e outras. Leda fala sete idiomas – entre eles russo – e ainda encontra tempo para participar de um projeto da Fiocruz que busca uma nova vacina contra a febre amarela. Tenta manter a rotina de pedalar pela orla, mas não tem conseguido. "Minha bicicleta está reclamando."
Cantora
Mart’náliaO samba cheio de suingue da filha de Martinho da Vila
lota casas de show no Rio, em Montreux, em Nova York...
Fernando Lemos
No fim dos anos 70, ela era a menina tímida que fazia backing vocal nos discos do pai, Martinho da Vila. Quase vinte anos depois, a cantora e compositora nascida em Vila Isabel se livrou da sombra do sambista, autor de sucessos como Disritmia, e criou sua própria carreira. A coroação veio em agosto deste ano, com o lançamento do ótimo Madrugada, seu sétimo disco-solo. Afilhada musical de Caetano Veloso, ela lotou o Vivo Rio com quase 2 000 fãs que só arredaram pé da casa de espetáculos depois que a cantora reapareceu em cena mais uma vez, já com as luzes acesas e a cortina do palco fechada. Mart’nália também cumpriu em 2008 sua maior agenda de shows internacionais, com passagem por salões nobres, como o do Festival de Montreux, na Suíça, e o suntuoso Lincoln Center, em Nova York. Para completar, emplacou uma versão sapeca de Don’t Worry, Be Happy, de Bobby McFerrin, na abertura da novela Três Irmãs. O caminho para o topo começou nos pagodes da antiga casa no bairro de Pilares, Zona Norte carioca. "Cresci com Clara Nunes na minha sala", gaba-se. Antes de acompanhar o pai nos estúdios e ao vivo, teve aulas de violão com Almir Chediak e – pasmem – de piano clássico. Chegou a fazer vestibular para comunicação social. "Reza a lenda que eu passei na repescagem da Estácio", emenda com o humor peculiar. Mas seu destino musical já estava traçado. A estréia foi em 1987, com um LP que passou em brancas nuvens. Aos pouquinhos, foi ampliando seu espaço e seu público, até lançar o bem-sucedido Madrugada. Agora, não há apresentação de Mart’nália na cidade que não tenha lotação esgotada com dias de antecedência. Sem dúvida, ela é a cara do Rio.
Agitadores culturais
Rui Campos e Roberto GuedesEles criaram uma rede de livrarias que se tornaram
ponto de encontro dos amantes da boa leitura
Fernando Lemos
São 1 850 metros quadrados repletos de prateleiras que guardam mais de 100 000 títulos de literatura, filosofia, ciências jurídicas, arte, revistas, guias de viagem... A sexta loja da rede Livraria da Travessa, aberta no BarraShopping no início de setembro, amplia o conceito dos sócios Rui Campos e Roberto Guedes de como deve ser um espaço para a difusão de cultura. Em um amplo salão se espalham sofás confortáveis e mesões coletivos onde é possível passar horas folheando livros; em outro canto da loja, um bem montado auditório abriga a filial da Casa do Saber, com seus cursos e palestras; mais adiante, um charmoso bistrô da grife Copa Café serve lanches e refeições leves. "As livrarias assumiram funções que antes cabiam às bibliotecas", afirma Rui Campos. A Travessa surgiu em 1991 numa discreta rua de pedestres do Centro, com 110 metros quadrados – tamanho do auditório montado na nova unidade da Barra, a maior da rede. Dezesseis anos depois, freqüentar suas filiais se transformou em um programa tipicamente carioca. A agenda é intensa. Nos dez primeiros meses do ano, as seis lojas abrigaram 263 eventos, de noites de autógrafo com autores como o rabino Nilton Bonder e a cantora Adriana Calcanhotto a animadas palestras sobre Machado de Assis feitas pelo economista Gustavo Franco e pelo bibliófilo José Mindlin. Campos e Guedes se desdobram para participar da maior parte das atividades. "Há quem jure que nós conseguimos estar em mais de um lugar ao mesmo tempo", diverte-se Guedes.
Defensor da cidade
Roberto MedronhoEstudioso do Aedes aegypti, o epidemiologista se dedica
a ajudar os cariocas a combater o mosquito da dengue
Fernando Lemos
Ele é o inimigo número 1 do Aedes aegypti, o mosquito da dengue, doença que estuda desde 1986. Em março passado, enquanto as autoridades da saúde relutavam em admitir a gravidade do quadro, o epidemiologista Roberto Medronho, professor do departamento de medicina preventiva da UFRJ, batia o pé e dizia que havia uma epidemia na cidade. O mês fechou com alarmantes 46 704 casos, o equivalente a uma notificação por minuto. "A demora em assumir a seriedade da situação fez com que tudo piorasse", afirma Medronho, atualmente membro de uma comissão criada pela Secretaria Estadual de Saúde para combater a doença. Ele formou-se em medicina na própria UFRJ, em 1982, e fez residência em pediatria. "Era idealista e queria contribuir para diminuir os índices de mortalidade infantil", conta. Nos hospitais, viu que as crianças adoeciam por falta de vacinação ou de condições de saneamento básico. Decidiu, então, especializar-se em medicina preventiva social e fez mestrado e doutorado em saúde pública. Sua tese de mestrado analisava a geografia da dengue na cidade. Hoje está envolvido em treze projetos de pesquisa do Instituto de Estudos em Saúde Pública da UFRJ. "O Rio sofre ao mesmo tempo de moléstias do subdesenvolvimento, como a dengue, e de males do desenvolvimento, como doenças cardíacas e diabetes", afirma. Morador da Lagoa, casado com a também epidemiologista Claudia Escosteguy, pai de três filhos adolescentes (a mais velha, Adriana, de 18 anos, teve dengue branda neste ano), orgulha-se de ser um carioca típico: vai ao Maracanã, adora Carnaval e samba. Fundador do bloco Simpatia é Quase Amor, é compositor, parceiro de Noca da Portela. Na adolescência, pensou em se tornar músico profissional, para desespero do pai. Desistiu, e a cidade ganhou um defensor.
Prêmio especial
Sérgio BrittoEm paz com o tempo, o ator, aos 85 anos, fascina
público e crítica com peça de Samuel Beckett
Depois de participar de marcantes capítulos da dramaturgia nacional, Sérgio Britto permanece incansável aos 85 anos. Sossegar, ou qualquer variante desse verbo, não faz parte do vocabulário do ator, que mora numa casa em Santa Teresa, bairro comparado por ele ao Montmartre parisiense. Britto voltou aos palcos com A Última Gravação de Krapp/ Ato sem Palavras 1, que reúne duas peças curtas de Samuel Beckett. E, como de hábito, encantou a audiência e os críticos. Ele fez a aposta certa ao chamar Isabel Cavalcanti, uma diretora pouco conhecida, mas especialista no autor irlandês. "Eu me apaixonei e convidei-a num repente", diz. Para o próximo ano, nada de desacelerar. Britto planeja uma parceria com Fernanda Montenegro no espetáculo Fernanda e Sérgio Visitam Simone e Sartre, com texto assinado pela dupla de legendas do teatro brasileiro. "Não sabemos como vai ser, mas será. A idéia é andar com a peça pelo Rio, circulando por escolas", revela o artista, em total harmonia com seu tempo. "Há uma máxima que diz: antes de ficar velho, fique sábio. Acho que sábio eu estou. Ainda bem, porque velho e burro não dá. Sou feliz aos 85."
A festa dos cariocas
Eleitos de Veja Rio são homenageados no Copacabana Palace
Fotos Kadu di Calafiori
A celebração: o Golden Room (à esq.) recebeu 400 convidados para a cerimônia apresentada por Fernanda Torres e que teve, entre os homenageados, o empresário Alexandre Accioly (abaixo, com um de seus sócios, Luís André Calainho). Ao final, todos receberam um exemplar especial de Veja Rio, com seis contos de Machado de Assis (no detalhe)
Bom humor, risos, emoção e algumas revelações marcaram a cerimônia de entrega do prêmio Cariocas do Ano, na terça-feira passada, no Golden Room do Copacabana Palace. A festa, que teve como mestre-de-cerimônias a atriz e cronista de Veja Rio Fernanda Torres, começou com uma homenagem a Machado de Assis. "Se existisse o prêmio Cariocas do Ano há 120 anos, ele com certeza seria um dos vencedores", disse Fernanda. Ao ser chamada ao palco para receber o prêmio, a sambista Mart’nália foi saudada pelo público com pedidos para que cantasse. Não se fez de rogada. Acompanhada pelas palmas da platéia, cantou trechos de Cabide, composição de Ana Carolina gravada por ela. Pouco depois, os convidados se emocionaram com o discurso da cientista Leda dos Reis Castilho, pesquisadora da Coppe/UFRJ. "Estudei em escolas e em universidade públicas", afirmou. "E fico feliz em poder retribuir à sociedade, com meu trabalho, o investimento feito em mim." No palco para entregar o prêmio de esportista do ano à líbero Fabi, da seleção feminina de vôlei, a atriz Flávia Alessandra brincou: "Sou só 2 centímetros mais baixa do que ela, quem sabe não consigo uma vaga?". Foi a deixa para Fabi confessar: "Eu minto. Não tenho 1,69 metro, mas 1,68". O gracejo ecoou entre outros premiados. "Como esse é o assunto da noite, tenho 1,69 metro", afirmou Claudio Botelho, personalidade da área de teatro ao lado do parceiro Charles Möeller. "Meço 1,75 metro, mas já fui mais alto. Com a idade, a gente diminui", encerrou Sérgio Britto, homenageado especial da noite, ovacionado de pé pelos convidados. Antes dele, Grazi Massafera, num elegante vestido Marc Jacobs e sapatos Manolo Blahnik, atriz de 2008, havia arrancado gargalhadas com seu agradecimento. "Ganhei concurso de miss de tudo lá no Sul. Se soubesse que teria tanta sorte no Rio, teria vindo antes", brincou. "Agora vou tirar a maior onda de carioca."
Os eleitos: Grazi (à esq.), num vestido Marc Jacobs, recebeu o prêmio do técnico de vôlei Bernardinho; Mart’nália (acima, centro) cantou; Fabi e Flávia Alessandra (acima, à dir.) fizeram confissões sobre a altura delas; Sérgio Britto (abaixo, à esq.) foi aplaudido de pé; e Leda Castilho (abaixo, com Glória Maria) emocionou com agradecimento ao ensino público