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15 de Outubro de 2008Perfil
Casados no papel
Bia e Pedro Corrêa do Lago editam livros
que reconstroem a memória visual do
país e causam controvérsiasLivia de Almeida
Selmy Yassuda
O casal no estúdio da casa no Leblon: juntos eles fazem a pesquisa, mas para evitar brigas se separam na hora de escrever Era um badalado evento de moda, realizado em Paris há quatro anos. Depois de muitas flûtes de champanhe e canapés, o bibliófilo e colecionador Pedro Corrêa do Lago viu-se à mesa de jantar ao lado do dono de uma tradicional grife parisiense. Conversa vai, conversa vem, o assunto passou a girar em torno de arte brasileira e o empresário francês acabou mencionando que possuía duas aquarelas de Jean-Baptiste Debret. Dias depois, ao serem convidados a visitá-lo, Corrêa do Lago e a mulher, Beatriz, constataram que as duas aquarelas assinadas, somadas ao esboço de um índio botocudo que pertencia a um marchand carioca, completavam um quebra-cabeça. Confirmava-se assim a autoria de um óleo de uma cena rural cuja atribuição era desconhecida. "Até então, os óleos conhecidos de Debret no Brasil retratavam apenas a pompa da corte", conta ele. A obra foi incluída no livro Debret e o Brasil: Obra Completa, assinado pelo historiador da arte e jornalista Júlio Bandeira (da Fundação Castro Maya) e por Corrêa do Lago, com 708 páginas e 1 300 imagens. Lançado no início do ano pela Editora Capivara, do próprio casal, trouxe à luz seis novos óleos de Debret.
A busca da imagem perdida e a publicação de livros foi um desdobramento natural da relação entre Pedro, que se formou em economia, e a psicanalista Bia, iniciada há quase vinte anos e formalizada em 1994. "Eu não conseguia entender como alguém podia guardar aquelas maravilhas", conta Bia. "Para mim, que não tenho gene de colecionador, o importante era divulgar o conteúdo." Ele, que sem dúvida tem o tal gene, vê a questão de outra forma: "Colecionar, na minha opinião, atende a duas paixões: a descoberta e a posse de uma peça especial". A coleção que montou com quase 5 000 fotografias do século XIX faz parte do acervo do Instituto Moreira Salles. Foi vendida à instituição em dois lotes: o primeiro, com cerca de 2 500 imagens, em 1995; o segundo, em 2002, com mais 2 464 fotos, mas ele não fala em valores. Parar de colecionar, Corrêa do Lago não parou. "Agora entendi que, no livro, é possível formar uma coleção perfeita." Desde 2001, quando a Capivara foi fundada, publicaram-se 22 títulos – o mais recente, De Engenho a Jardim: Memórias Históricas do Jardim Botânico, de Claudia Braga Gaspar e Carlos Eduardo Barata, chega às livrarias nesta semana.
O prazer da descoberta tem sido desfrutado regularmente, com a ajuda de uma eficiente rede de contatos. Foi no sótão da casa de uma integrante da família imperial brasileira, na Europa, que aconteceu o episódio mais recente. Durante uma visita social do casal, que queria presenteá-la com outro livro da Capivara, Fotografia Brasileira no Século XIX, o assunto veio à baila. Vencida certa relutância, a nobre permitiu que o casal examinasse o tesouro que guardava. "Os olhinhos do Pedro chegaram a se revirar dentro das órbitas", diverte-se Bia. Sob camadas e mais camadas de fotos recentes, estavam álbuns e envelopes com a coleção pessoal da Princesa Isabel, 1 200 imagens, até então desconhecidas, de mestres dos primórdios da fotografia no país como Victor Frond, Revert Klumb, Augusto Stahl, George Leuzinger e Marc Ferrez. Virou livro, é claro. "É como se eles tivessem encontrado trinta novos Portinaris", acredita dom João de Orleans e Bragança, bisneto da princesa, fotógrafo e amigo do casal. "Eles trabalharam rápido e na moita. Fiquei sabendo no dia do lançamento."
A polêmica deve-se ao foco de alguns dos projetos da Capivara. Entre os livros há os chamados catálogos raisonnés, que procuram reunir em um só volume toda a obra conhecida de um determinado artista. "Existem duas formas de fazer um raisonné", resume Corrêa do Lago. "Uma é a certa, mostrando todas as obras conhecidas e identificando as de autenticidade duvidosa; a outra é a covarde." A forma "covarde" seria só colocar as autênticas. Esta disposição vem rendendo mal-estar com diretores de museu e colecionadores. O primeiro aconteceu com a publicação de Aleijadinho e Sua Oficina, de 2002, assinado por técnicos respeitados do Iphan – Myrian Andrade Ribeiro, Olinto Rodrigues dos Santos e Antonio Fernando Batista dos Santos. "Só aceitei fazer o livro porque era com a Bia, que é muito inteligente e humana, e mesmo assim depois de um longo processo de convencimento", diz Myrian. "É complicado trabalhar com Aleijadinho, o último catálogo tinha sido feito há mais de quarenta anos." O livro chegou a ficar um ano fora das livrarias devido a um processo movido pelo colecionador paulista Renato Whitaker – a autoria de algumas das obras de sua coleção era posta sob dúvida.
Frans Post (1612-1680) – Obra Completa, de 2006, mereceu críticas entusiasmadas, mas pôs na berlinda o Museu Nacional de Belas Artes, que teria um óleo do pintor holandês de autenticidade duvidosa. A diretora do museu, Mônica Xexéo, recusa-se a falar sobre o assunto. Neste ano, Debret pôs em cheque a autoria de 87 obras atribuídas ao francês, entre elas 42 do acervo dos museus Castro Maya (Chácara do Céu e do Açude). "Não concordo com os critérios adotados, apesar de gostar muito de Pedro e Bia", declara Vera Alencar, diretora da Fundação Castro Maya. E mais não diz. "É claro que este tipo de trabalho atrai inimizades", afirma o colecionador e bibliófilo paulista José Mindlin, que conhece o editor desde os tempos em que este mantinha uma livraria (sebo chique, digamos) em São Paulo. "Mas é um trabalho muito importante que precisava ser feito."
A carreira de editor de Corrêa do Lago sofreu um hiato de três anos. Ele passava uma temporada em Paris quando foi convidado para assumir a presidência da Fundação Biblioteca Nacional, em 2002. Entrou cheio de gás, como sempre, querendo transformar a biblioteca em um espaço cultural agitado, "um playground cultural", segundo suas palavras na época. Colecionou mais desafetos, entre os quais ele enumera o ex-presidente da fundação e ex-ministro da Educação Eduardo Portella, enfrentou três meses de greve, o misterioso furto de 150 peças do acervo e um processo de improbidade administrativa, que ainda tramita na 11ª Vara de Justiça Federal. Renunciou em 2005. "Não gosto de admitir, mas fui ingênuo", diz. "Entrei de peito aberto achando que podia fazer alguma coisa mesmo sem ter articulação política." É um capítulo que ele sonha em deixar definitivamente para trás. Enquanto ocupou o cargo, a Capivara hibernou por não poder enquadrar seus projetos na generosa lei de incentivos que viabiliza com dinheiro público, pois se trata de renúncia fiscal, livros luxuosos e caríssimos que se pagam e dão lucro mesmo que não vendam um único exemplar.
O livro sobre Frans Post – um importante e cuidadoso trabalho que se tornou possível pela mesma lei – saiu apenas em 2006, mas foi em torno dele que o casal construiu a editora. "Tínhamos em comum o encantamento com a obra do primeiro artista europeu a retratar as Américas", diz Bia. A capivarinha que serve de logotipo para a editora foi retirada de uma tela de Post que pertence ao Louvre. No levantamento das obras, Bia chegou a ir a um castelo no interior da Inglaterra, onde o herdeiro acreditava ter na parede uma paisagem do Taiti. Era uma cena de Pernambuco retratada por Post. Foi na hora de escrever o livro que os dois descobriram que, juntos, não seria nada fácil. "Só faltou a gente se matar", diz Bia. Decidiram trabalhar em lugares separados. Ela fica na casa do Leblon, onde moram com dois filhos do primeiro casamento dela; ele, em uma casa na Gávea, em que guarda o que Bia chama de "suas tralhas" – livros, documentos, fotos. Ocupam-se de projetos diferentes. A Coleção Princesa Isabel foi uma das raras exceções a essa regra. "Você está vendo como eu sou. Ela precisa de espaço", reconhece Pedro. Outra área só de Bia é a televisão, onde há sete anos apresenta o programa Umas Palavras, no canal Futura, com interessantes entrevistas com personalidades da música e da literatura.
As diferenças entre os dois são evidentes a olho nu. Pedro é grande, 1,92 metro, corpulento, bom de conversa, vaidosíssimo, teatral, daquelas pessoas que viajam em suas paixões. "Trabalhar com ele é como trabalhar com um furacão. Ele é de uma energia inesgotável", diz o historiador Júlio Bandeira, seu parceiro em Debret e amigo desde os tempos em que Pedro se destacava como um dos "grandões" do pátio do Colégio Souza Leão, no Humaitá. Bia, 1,65 metro, pé-no-chão, faz observações que demonstram seu senso de humor. "Ela me faz rir o dia inteiro." Ele é neto e filho de diplomata – seu avô foi o político gaúcho e chanceler Oswaldo Aranha – e passou parte da infância no exterior. Ela é filha do escritor Rubem Fonseca e viveu a vida inteira no Rio, principalmente no Leblon. Juntos, polêmicas à parte, fazem alguns dos melhores livros publicados recentemente sobre a arte brasileira no século XIX.
ERA UMA VEZ UM JARDIM DAS MARAVILHAS
Fotos Divulgação
O Jardim Botânico em três momentos: na gravura de Rugendas (no alto), que mostra o plantio de chá pelos chineses em 1835; a aléia das palmeiras imperiais vista por August Stahl em 1865 (à dir.); e na panorâmica clicada por Marc Ferrez em 1885 (acima). As imagens vêm de coleções particulares, reunidas no livro que reconstitui a história do antigo horto real e do bairro que se desenvolveu à sua volta
ÁLBUM DE FAMÍLIA
Fotos Divulgação
A Coleção Princesa Isabel (R$ 190,00, 423 págs.) revela imagens inéditas: dom Pedro II ainda vigoroso, por Luiz Terragno Filho; e a princesa Isabel adolescente (à dir. acima), de Klumb, e no papel de mãe em foto de Alberto Henschel (abaixo)
NAS PRATELEIRAS
O Aleijadinho e Sua Oficina,
de 2003 (R$ 175,00, 336 págs.): catálogo completo das esculturas de Antônio Francisco Lisboa (1730- 1814) que causou furor entre os colecionadores
Os Fotógrafos do Império, de 2006 (R$ 125,00, 186 págs.): feito sob encomenda para a Gallimard, na França
Frans Post(1612-1680): Obra Completa, de 2006
(R$ 190,00, 444 págs.): esforço para localizar obras na Europa e no Brasil
Debret e o Brasil, de 2008 (R$ 195,00, 705 págs.): 200 novas imagens do pintor foram descobertas e 87 obras tiveram autoria questionada por um comitê de especialistas
Taunay e o Brasil, de 2008 (R$ 135,00, 272 págs.): catálogo com 29 óleos de Nicole-Antoine e pinturas feitas por seus filhos