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31/10/2007
Perfil

A namoradinha do Rio

Miss Brasil 2007, a mineira Natália Guimarães
pedala na orla, quer virar atriz e procura apartamento em Ipanema

Marina Caruso

Ernani D'Almeida
Natália: por contrato, até abril de 2008, quando passa o título de
miss Brasil para sua sucessora, nada de casamento ou de fotos nua

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Cinco minutos de uma caminhada no calçadão de Copacabana são suficientes para que Natália Guimarães, a miss Brasil que em maio perdeu o título de a mulher mais bonita do universo para a japonesa Riyo Mori, junte a seu redor uma legião de fãs. "Ela é tudo!", grita uma mulher. "Levou Minas para o mundo", emenda outra, emocionada, revelando no sotaque que é conterrânea de Natália. "Tira uma foto comigo?", pede uma terceira, antes de ser praticamente atropelada por duas senhoras que não se cansam de dizer: "Você é linda. Ma-ra-vi-lho-sa!". O cerco aumenta. Cariocas e turistas rodeiam a moça. Pedem autógrafos, fotos, um sorriso. Ela joga os longos cabelos castanhos de um lado para o outro, posa com um fã, sorri para todos.

Desde que se mudou para o Rio, a rotina da mineira de 22 anos, nascida em Juiz de Fora e criada em Belo Horizonte, é assim. Basta pôr os pés fora do hotel onde mora – enquanto não encontra o apartamento dos sonhos, em Ipanema ou na Barra – e a cena se repete. Só consegue um pouco de sossego quando sai cedinho para pedalar de Copacabana ao Leblon, ida e volta, num trajeto de cerca de 12 quilômetros que a ajuda a conhecer um pouco mais a cidade e a manter a forma. De roupa de ginástica, cabelo preso e óculos escuros, parece mais uma dos milhares de meninas cariocas que todos os dias pedalam na ciclovia.

 

Fotos Arquivo pessoal
Vida de princesa: pouco antes de completar 1 ano (à esq.), Natália trocou Juiz de Fora por Belo Horizonte; filha única, sempre foi paparicada pelos pais com festas, como a de 5 anos (à dir.), e viagens. Só para a Disney, foi mais de dez vezes

A vida de Natália tem sido uma correria só. Faz campanhas publicitárias e desfiles, aparece em festas por todo o Brasil. No quarto de hotel onde vive desde agosto, há sempre uma mala pronta. Dentro dela, a faixa e a coroa de miss Brasil. "Em todo lugar aonde eu vou, as pessoas pedem para ver", explica. "Tem sido assim desde o Miss Universo", conta. "O segundo lugar valeu como um título", diz Boanerges Gaeta Júnior, diretor executivo do concurso Miss Brasil. "A injustiça da derrota a tornou inesquecível." Injustiça ou não, Natália já foi coroada. Desde 1954, quando a baiana Martha Rocha perdeu, por 2 polegadas, o título de miss Universo para a americana Miriam Stevenson, não se falava tanto de uma miss no Brasil (veja quadro). "Recebo dezenas de telefonemas de empresas querendo associar a imagem de Natália a seus produtos", diz Márcia Marbá, agente da miss. "É o rosto que todo mundo quer", completa.

O rosto e o corpo, como bem percebeu o presidente executivo da Escola de Samba Unidos de Vila Isabel, Wilson Moisés. Rápido no gatilho, ele convidou Natália para ocupar o posto de madrinha de bateria da escola e encantou-se com a moça. "Estou cansado de ver celebridade exigindo carro blindado, segurança e caviar para desfilar", diz. "Ela é exatamente o oposto, não pede nada." Para ocupar o lugar nobre no desfile das escolas de samba – disputado por nove entre dez jovens atrizes aspirantes ao estrelato –, Natália já começou a suar a camisa. Desde o início do mês vem fazendo aulas para aprender a sambar de salto alto, pouca roupa e sorriso nos lábios. "Ela tem postura e presença, mas precisa soltar o rebolado", avalia a passista da escola Dandara Machado, que tem se valido de um bambolê para ensinar os segredos do gingado a Natália.

 

Fotos Arquivo pessoal
Rebeldias de adolescente: aos 15 anos, decidiu pintar o cabelo de louro
(à esq.) para ficar igual à mãe. Não gostou do
resultado e voltou ao
tom castanho natural que exibiu nos desfiles.
"Nunca mais faço aquilo", garante

A miss é assombrosamente cativante. Tem 1,75 de altura, 57 quilos, 90 centímetros de busto, 60 de cintura e 93 de quadris. Fala baixo e possui um belíssimo sorriso. Fez clareamento nos dentes e jura que não precisou de outros artifícios de beleza para aprimorar a estampa – Botox e silicone, ela garante, passaram longe daquele corpo. "Natália sempre foi muito bonita e chamava a atenção dos rapazes", revela Roberta de Oliveira, prima e a amiga mais próxima. "Mas ela nunca foi de dar muita bola para eles." O jeitinho de boa moça é capaz de seduzir do governador de Minas Gerais, Aécio Neves, ao mais simples e pacato dos homens. O affair com o político mineiro levou o casal para todas as colunas sociais e sites de notícias sobre celebridades. Um jantar no início do mês no restaurante Miam Miam, em Botafogo – eleito pelo júri de Veja Rio o melhor lugar da cidade para ir a dois –, teria terminado em beijos e abraços. "Foi só um jantar entre amigos. Nada mais", afirma a chefe da assessoria de imprensa de Aécio, Heloísa Neves. Dias depois, nova nota nas colunas sociais: os dois teriam sido vistos tomando água-de-coco num quiosque da orla de Ipanema, em plena segunda-feira. Natália, que há três meses terminou um namoro de quatro anos com o empresário mineiro Christian Wagner, desmente o passeio. O assunto é uma das poucas coisas capazes de alterar suas feições. "Tudo o que tenho a dizer é que ele é um exemplo de governante e um excelente governador para Minas", diz. Em e-mail para Veja Rio, Aécio afirma que "Natália foi uma representante à altura de Minas Gerais e do Brasil, não apenas por sua beleza, mas pela simpatia e simplicidade características dos mineiros."

 

Andrew Winning/Reuters
Darren Decker/AFP
Curvas derrotadas: "O corpo dela é muito reto perto do meu", diz Natália, que desconhece as medidas da adversária, Riyo Mori, informação não revelada pelos organizadores do concurso Miss Universo

Na dura vida de uma celebridade instantânea, o passo seguinte à fama é buscar a carreira de atriz/ator. A miss não foge à regra. Já fez algumas participações em programas da Globo – esteve no quadro Dança do Gelo, no Domingão do Faustão, e no programa Zorra Total – mas, por causa de contrato com o Miss Brasil, está presa à Band, que detém os direitos do concurso. "Até abril de 2008, quando entrega a faixa, ela só pode pegar trabalhos sob nossa supervisão", diz Boanerges Gaeta Júnior, diretor do concurso. O contrato estabelece também que, enquanto mantiver o título, ela não pode se casar nem posar nua. Há duas semanas, a miss gravou uma participação em Dance, Dance, Dance, novela da Band. Fez o papel de si mesma: uma miss Brasil que visita a escola de atrizes da trama para falar sobre seu sucesso. "O clima entre as misses é melhor, tem menos competição que entre as atrizes e as modelos", compara.

"Ela tem talento", elogia Elisabetta Zenatti, diretora de programação da Band. "Se fizer cursos de interpretação, poderá ser uma grande atriz." É esse exatamente o plano de Natália. "Quero ir mais ao teatro, estudar muito", afirma. "E encontrar meu apartamento." Quando achar o lugar dos seus sonhos, o pai, o empresário Gilberto Guimarães, virá de Nova York para ajudar a filha a fechar o negócio. "Vou passar dois meses com ela", comemora Guimarães, há oito anos radicado nos Estados Unidos, onde tem uma firma que importa jeans brasileiros.

 

Fernando Lemos
Arquivo pessoal
Menina carioca: na rotina de moradora do Rio, já incorporou pedaladas na orla para manter a forma e o treinamento para ser madrinha de bateria

Dois anos mais velho que Aécio Neves – tem 49 anos e Aécio, 47 –, Guimarães largou tudo em Nova York e correu ao encontro da filha quando começaram a pipocar as notícias sobre o romance com o governador. "Passei uma semana no Rio por causa desse auê", diz o pai. "Queria saber dela, olho no olho, o que era fato e o que era invenção." A resposta da filha? "Ela me disse que é amiga dele e que o admira como político." Como bom pai coruja, tira suas conclusões do que aconteceu: "Ele conseguiu ganhar mais alguns votos com essa história". Filha única de pais que se divorciaram há dez anos, Natália passou a infância e a juventude numa casa de cinco quartos e piscina em Santo Antônio, bairro de classe média em Belo Horizonte. "Ela tinha dois quartos na casa", conta a mãe, a comerciante Eliane Moreira, que escolheu o nome da filha ao saber que ela nasceria "no dia do menino Jesus": Natália nasceu no Natal de 1984, em Juiz de Fora.

Imprensa Oficial do Estado de Minas

Com Aécio, após ser eleita miss Minas Gerais: "Ele ganhou mais uns votos", queixa-se o pai


Eliane conta que a filha sempre foi muito paparicada. Só para a Disney, viajou mais de dez vezes – a primeira, aos 9 anos. "Tínhamos mais dinheiro do que tempo para acompanhá-la, então todas as férias nós a mandávamos para a Disney com a tia", explica. Estudou arquitetura na PUC mineira – fez até o 6º período – e, no fim de 2005, resolveu passar uma temporada com o pai em Nova York, para aprimorar o inglês. Foi descoberta pela dona de uma agência de modelos e ficou dez meses desfilando para pequenas grifes. De volta a Belo Horizonte, esbarrou com outro dono de agência. Dessa vez, o convite foi para participar do concurso Miss Minas Gerais. Ganhou. No início, cansou de ouvir críticas por sua opção. "As pessoas diziam que ser miss é brega." Tanto ouviu isso que ela e a mãe criaram um código próprio. "Sempre que chegamos a algum lugar maravilhoso, uma olha para a outra e diz: 'Isso é brega, não é?'". Da mãe, além da cumplicidade, Natália diz ter herdado a devoção ao catolicismo. "Rezo para tudo", confessa. "Antes de dormir, antes dos concursos de beleza e até mesmo antes de dar entrevistas." Às vezes, a reza falha. Há poucas semanas, ela caiu da bicicleta ao evitar atropelar uma criança na ciclovia de Copacabana. "Apertei o freio com pressa e voei por cima da bicicleta", conta, aos risos. "Foi ridículo." O resultado: hematomas espalhados pelo corpo. "Estou horrível", queixa-se. Impossível, Natália.


PRODUÇÃO: MELISSA JANNUZZI/ AGRADECIMENTOS: TIDSY, ANI ANIK E OTHON PALACE

 

 

Misses que fizeram história

 

Divulgação
Martha Rocha (de preto, à esq.), em 1954

Criado para promover uma marca de maiô, em 1952, em Long Beach, na Califórnia, o concurso Miss Universo ficou conhecido no Brasil em 1954, quando a baiana Martha Rocha perdeu o título de a mulher mais bonita do mundo para a americana Miriam Stevenson. "Na época, falou-se muito das 2 polegadas a mais que a desclassificaram", conta o diretor executivo do concurso Miss Brasil, Boanerges Gaeta Júnior. "Mas isso nunca foi comprovado." A história teria surgido a partir do comentário de um dos jurados da competição, ouvido por um jornalista brasileiro que acompanhava a disputa. De lá para cá, embora boa parte dos brasileiros só se lembre de Martha Rocha e de suas fatídicas 2 polegadas a mais, as brasileiras ganharam a disputa duas vezes e ficaram em segundo lugar em outras três ocasiões. Em 1963, a gaúcha Ieda Vargas, atualmente empresária no Rio Grande do Sul, trouxe o título. Cinco anos depois a vencedora foi a baiana Martha Vasconcelos, que mora nos Estados Unidos desde 2000. Como Natália Guimarães, ficaram na vice-liderança a amazonense Terezinha Morango (1957), a carioca Adalgisa Colombo (1958) e a gaúcha Rejane da Costa (1972).


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