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10 de Setembro de 2008Ensino
Adeus, normalistas
A Uerj passa a administrar curso de formação
de professores e põe fim a 128 anos de história
do Instituto de EducaçãoAlessandra Medina
O Instituto de Educação e sua fachada imponente: fundado em 1880 por dom Pedro II Uma longa história pode estar acabando. Até o fim do mês, a Secretaria Estadual de Ciência e Tecnologia decide se transfere o curso normal do Instituto de Educação do Rio de Janeiro para a alçada da Uerj. Se confirmada a mudança, o Instituto de Educação deixará para trás uma tradição de 128 anos na formação de professores com o curso que ganhou notoriedade não só por suas qualidades, mas por ser o berço da mítica figura da normalista nos anos 50: blusa branca, saia azul com pregas e meias três-quartos. "O colégio está defasado. Com a ajuda da Uerj vamos modernizá-lo e o ensino voltará a ser bom", diz o secretário Alexandre Cardoso. "Duzentos alunos estão matriculados no curso superior. É um desperdício." Apenas a administração trocaria de mãos. Todos os estudantes permaneceriam no prédio da Rua Mariz e Barros, na Tijuca. "Queremos recuperar a importância que essa escola teve um dia para o Rio e para o Brasil", diz o reitor da Uerj, Ricardo Vieiralves. Seus planos são ambiciosos. A idéia é repetir o modelo de sucesso do Colégio de Aplicação.
Para assumir a escola, a Uerj impõe condições, como a contratação de professores e a reforma do imóvel, tombado pelo Instituto do Patrimônio Cultural. É visível seu abandono. Há janelas quebradas, infiltrações pelas paredes e banheiros mal-conservados. Também há falhas na parte elétrica. "A rede nunca foi modernizada", afirma uma funcionária. "Colocamos uma lâmpada e na semana seguinte temos de trocá-la de novamente." Sem pagar a conta de água há quinze anos, o Instituto de Educação acumula uma dívida na faixa de 1 milhão de reais. "Já reservamos 700 000 reais para a reforma", afirma o secretário Cardoso. "As obras começam em outubro." Os problemas não são só de ordem física. Na quarta passada, professores que haviam sido afastados quebraram a janela do gabinete da diretoria e o caso foi parar na delegacia.
A atriz Malu Mader: normalista em Anos Dourados Fundado em 1880 por dom Pedro II, o Instituto de Educação acolheu durante décadas a escola normal mais famosa do país. Com bom nível de ensino, ganhou sede própria em 1932. Em estilo neocolonial, ela ocupa um terreno de 18 000 metros quadrados e é equipada com ginásio poliesportivo e piscina semi-olímpica. Tem 150 salas, pelas quais passaram personalidades como as atrizes Tônia Carrero e Marieta Severo, o dramaturgo Gilberto Braga, que se inspirou em sua própria experiência por lá para escrever a minissérie Anos Dourados, levada ao ar em 1986, e Magali Cabral, mãe do governador do Rio. Hoje, atende 4 200 alunos, da educação infantil aos ensinos fundamental e médio. A escola normal funcionou até dezembro de 2000, quando foi transformada em curso superior para se adequar à Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. "Dá até depressão ver a que ponto o descaso chegou", lamenta a professora Regina Missen, 68 anos. Formada em 1969, ela testemunhou os áureos tempos. "Ser normalista significava status e emprego garantido", recorda. "Éramos disputadas pelos rapazes."
A professora Angélica com as filhas Millena e Jéssica: a paixão atravessa gerações As meninas de uniforme viraram personagens da cidade, povoaram o sonho dos rapazes e inspiraram escritores e músicos. Nelson Gonçalves homenageou-as na canção Normalista: "Minha linda normalista rapidamente conquista meu coração sem amor", diz a letra. "Cresci sonhando em estudar aqui", conta a professora Angélica Corrêa, 30 anos, que herdou a paixão de uma tia e repassou-a às filhas, Jéssica, 14 anos, e Millena, 10, ambas alunas do Instituto de Educação. Se conseguirem terminar o curso no estabelecimento, a tradição familiar estará garantida.