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27 de Agosto de 2008Cidade
Charme irresistível
A piscina negra, a quadra de tênis, o hóspede pianista, a relações-públicas que preparou muffins para Mick Jagger e outras histórias do Copacabana Palace, o hotel-símbolo da cidade
Sofia Cerqueira
Fotos Ernani d’Almeida
Pequena jóia: a piscina de pastilhas negras exclusiva para os hóspedes do 6º andar, onde ficam suítes que já hospedaram Charles e Diana, Mick Jagger e Mandela
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A Copacabana semideserta, um imenso areal ocupado aqui e ali por casas de veraneio, deixou de existir há muito tempo. Mas ao atravessar a porta giratória de freijó e vidros curvos do número 1702 da Avenida Atlântica encontra-se, intacto, um pedaço da história do Rio. Aos 85 anos, completados neste mês, o Copacabana Palace conseguiu sobreviver à deterioração do entorno, à despersonalização do turismo de massa e ao desprezo nacional por edificações que têm a charmosa pátina do tempo. Não existe mais o glamour da era em que Ava Gardner, Marlene Dietrich e Rita Hayworth circulavam por seus salões, mas o velho Copa continua lá, como um enclave de resistência à feiúra e à mesmice. O hall de entrada recende a um delicioso aroma de capim-limão – fragrância feita exclusivamente para o hotel. Enquanto se registram, os hóspedes recebem uma toalhinha quente e umedecida para as mãos. Em seguida, oferecida numa bandeja de prata, vem a água aromatizada por rodelas de laranja-lima. Ninguém mais fuma nos ambientes fechados, mas o emblema da casa continua a ser rigorosamente impresso no pó de mármore dos cinzeiros de pés de ferro. Pequenos requintes desse símbolo da hotelaria carioca, erguido pela família Guinle em 1923 e comprado pela companhia Orient-Express em 1989 por 23 milhões de dólares. Desde então, a empresa já investiu quatro vezes mais em melhorias. Neste ano, vai gastar 12 milhões de dólares para criar 22 novos quartos no anexo e um elegante bar à beira da piscina. Destino de chefes de governo, reis, rainhas, estrelas de cinema e astros da música por sucessivas décadas, ele se mantém na rota das celebridades. Madonna ficará lá em dezembro. O presidente francês, Nicolas Sarkozy, e a deslumbrante Carla Bruni reservaram um lugarzinho para passar o Natal no 6º andar, o mais exclusivo, com atrações desconhecidas até por freqüentadores habituais, como a piscina de pastilhas negras. Bill Clinton quer fechar o hotel para uma conferência em 2009.
O pianista: Francisco, 13 anos, passa as férias no hotel
e pratica suas lições de piano em um Steinway de 1923Como a história de certos países, o Copa teve de mudar para continuar o mesmo. Desde a venda, os 222 apartamentos do hotel, condensados num terreno relativamente pequeno, de 10 000 metros quadrados, foram reformados, numa daquelas obras que parecem eternas. As camas, no modelo boxe, feitas sob medida por uma firma americana, são tão confortáveis que Keith Richards, guitarrista dos Rolling Stones, convenceu a gerência a lhe vender uma, em 2006. Hospedado ali para o histórico show da Praia de Copacabana e insone crônico, dormiu feito anjo. "Quando assumimos, o hotel estava decadente", lembra o inglês Philip Carruthers, diretor-superintendente do Copa. O principal problema, maior ainda que o das paredes mal pintadas e dos estofados desbotados, era o turismo sexual. Algumas profissionais tinham agendas tão intensas que praticamente emendavam semanas hospedadas lá. Só mudavam os acompanhantes. Uma das primeiras medidas dos administradores da Orient-Express foi mudar o, digamos, tom. Acompanhantes, só os registrados no ato de reserva. No início, muita gente resistia, reclamava, pedia... A crônica do hotel registra o caso de um russo que ofereceu 5 000 dólares para entrar com uma "amiga". Não entrou. Atualmente, os problemas são poucos. "Quando o gringo diz que está no Copa, as moças já sabem que não vão conseguir entrar e sugerem outro lugar", explica o diretor-superintendente, com sotaque carregado.
A florista Suzana Milman:
160 arranjos de flores a
cada semanaEm 1994 o hotel ganhou uma quadra de tênis, instalada atrás do prédio principal num lugar tão discreto que poucos cariocas sabem de sua existência. No ano passado, foi aberto um spa. Os salões dos fundos, onde até 1946 tilintavam roletas de jogo, foram restaurados, mas conservam o ar de ambientes deliciosamente usados. Por ano, o hotel – cujos apartamentos com vista para o mar têm diárias a partir de 1 470 reais, segundo a tabela cheia – recebe 86 000 hóspedes. A presença de celebridades faz parte da rotina de seus 471 funcionários – 2,1 empregados para cada hóspede, o dobro da média dos cinco-estrelas. Um requinte que valeu a melhor qualificação de serviço das Américas e do Caribe, segundo o ranking da revista Condé Nast Traveller de 2007. Famoso que é famoso fica no 6º andar, com sete suítes excelentes, mas sem o luxo mirabolante, quando não de mau gosto, normalmente associado a hotéis estrelados. Com 100 metros quadrados, elas têm sala, lavabo, bar e closet. No chão, mármore de Carrara e tapetes orientais. As cortinas são francesas; os lençóis de algodão, 600 fios. Alguns móveis vieram de antiquários. Da banheira se tem uma vista estonteante do mar. Com diária de 4 200 reais, as suítes não são as maiores do Rio, mas têm uma mítica. Já se hospedaram nelas o príncipe Charles e a princesa Diana, o rei Juan Carlos e a rainha Sofia, Winnie e Nelson Mandela, Bill Clinton e Hillary, Rolling Stones, U2. "É um paraíso", diz a cliente assídua Hebe Camargo. A apresentadora tem até copinhos especiais reservados ali. "Não dá para comer caviar sem vodca e não dá para beber vodca em copo grande", explica.
Jorge Freitas, o empregado mais antigo: turistas pedem para fazer fotos ao lado do capitão-porteiro Receber os hóspedes do 6º andar é a função da inglesa Anne Philips, exímia nos protocolos da realeza e em atender a excentricidades dos vips. "Discrição e pontualidade britânica", diz sobre sua tarefa. E um bocado de paciência, acrescente-se. Antes da visita de Mick Jagger, há dois anos, passou uma semana testando uma receita de muffins, exigência do cantor. "Ele só comeu um", conta. Na passagem da banda U2, em 2002, foi recebida pelo guitarrista The Edge pelado, ao chegar para servir o café na suíte. Nada comparável à lua-de-mel de um príncipe de Dubai, quando levou quatro horas desfazendo cinqüenta malas, com a ajuda de um mordomo. É no 6º andar que fica a piscina exclusiva, revestida de pastilhas negras, que reverbera como uma pequena jóia à luz do sol. É lá que Gisele Bündchen tomava sol antes de ser flagrada por um fotógrafo que se aboletou numa janela do vizinho edifício Chopin. "É sempre bom estar no Copa", diz a modelo. "O hotel traduz um pouco da história da cidade." O jornalista Roberto D’Ávila, hóspede-morador há um ano e sete meses, vai além: "Ele não é só guardião da memória do Rio, mas do passado político e cultural do país". A ministra e ex-presidente do Supremo Tribunal Federal, Ellen Gracie, namorada do jornalista, está se tornando presença constante no Copa.
Segredo bem guardado: desde 1994, o hotel tem quadra
de tênis para uso dos hóspedesUm hotel de estirpe é como uma mulher bonita já na fase pós-quarenta: exige manutenção constante. No Copa, existe uma funcionária só para tirar as marcas de dedo dos corrimãos de latão dourado. Outro tem como missão afugentar os pombos que tentam pousar junto à piscina semi-olímpica – aquecida a 30 graus no inverno, se é que se pode usar esta palavra para o Rio. "Vivi aqui um ano e me apaixonei", diz o empresário Mário Cohen. "Tem uma elegância discreta." Atualmente vizinho do Copa, Cohen integra o seleto grupo de 55 pessoas com cartão-piscina. Gente que paga entre 7 500 e 10 000 reais por ano para nadar lá. No verão, esses freqüentadores são brindados, de hora em hora, com fatias de frutas e toalhinhas geladas para o rosto. "Criamos novidades o tempo todo", explica a gerente-geral Andrea Natal. "O hóspede tem de sair encantado." Isso vale para um rei árabe, um roqueiro ou um menino de férias. "Aqui eu me sinto em casa", conta Francisco Kilgore, de 13 anos. Filho de uma brasileira e de um empresário americano, ele mora na Califórnia e costuma passar os meses de julho e agosto no Copa, período em que se transforma quase em personagem de ficção ao dedilhar as lições de piano num Steinway & Sons, de 1923. "Só pediram para não tocar muito cedo."
Anne Philips: discrição, pontualidade britânica e muita paciência para cuidar de celebridades A atenção aos detalhes faz a diferença. Filmes vencedores do Oscar são entregues nos quartos acompanhados por um balde de pipoca quentinha. Todos os hóspedes são presenteados com sandálias Havaianas, chocolates e flores. Estas praticamente exigem uma colorida linha de montagem: são 160 arranjos de orquídeas, antúrios, gérberas, entre vinte espécies. O maior, o do lobby, é rearrumado diariamente e trocado duas vezes na semana. "O ambiente é inspirador", diz a florista Suzana Milman, de 32 anos, discípula da inglesa Paula Prike. "Para trabalhar aqui tem de estampar o sorriso no rosto", ensina o capitão-porteiro Jorge Freitas. Aos 57 anos, 37 no hotel, é o funcionário mais antigo e provavelmente o mais paparicado — muitos visitantes pedem para tirar fotos ao seu lado.
Aberto em 1923, o hotel foi inspirado no Negresco e no Carlton, concorrentes da Riviera Francesa. "Mais do que retorno financeiro, meu pai queria tudo perfeito", diz Luiz Eduardo Guinle sobre o fundador, Octávio Guinle. O hotel inaugurou a Copacabana chique, assistiu à sua decadência e sobreviveu com honra, cheio de histórias. O livro de ouro registra nomes como Santos Dumont, Walt Disney, Elizabeth II, Diana. Foi nos salões – e quartos – do Copa que Jorginho Guinle, sobrinho de Octávio, viveu aventuras que criaram sua fama de playboy. Pouco antes de morrer, em 2004, fez seu último pedido. "Quero ir para o céu", disse. Foi atendido e no Copa passou sua última noite.
O livro de ouro: assinaturas de Charles e Diana, Winnie
e Nelson Mandela, e de Lula
Oito décadas e meia de tradição
De pequenos – mas significativos – detalhes é feita a história do Copa
A coleção de chaveiros: guardada ao longo dos anos, registra a história do Copacabana Palace e, em ocasiões especiais, como o aniversário, é exposta para os funcionários
O baú Louis Vuitton de Octávio Guinle: peça ainda conserva as iniciais do dono e uma etiqueta do Hotel Carlton, em Cannes, que serviu de inspiração para o concorrente carioca
As taças do Bife de Ouro: impressa no cristal, a logomarca do restaurante que, em 1994, deu lugar ao Cipriani
Mimos para todos os hóspedes: caixinha feita de chocolate guarda bombons decorados com motivos da cidade
Peças de museu: em uma sala, fechada à visitação, são guardados objetos que contam a história do hotel, como as roletas e fichas do cassino que funcionou até 1946
Detalhes: mesmo sem utilidade, com a proibição do fumo em lugares fechados, os cinzeiros continuam a ostentar o emblema do hotel impresso no pó de mármore
Produção:Helen Pomposelli / Maquiagem: Marcos Ribeiro / Assistente:Denise Prates