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20/08/2008
Exposição

Um sopro de vida

Sucesso em São Paulo, chega ao Rio
mostra que parece trazer de volta
a excepcional Clarice Lispector

Carlos Henrique Braz

Pedro Henrique
Ismar Ingber
Original: Clarice Lispector é celebrada em instalações inusitadas, como a inspirada em A Paixão Segundo G.H. (à dir.)


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Cronologia Clarice Lispector

Clarice Lispector (1920-1977) gostava de escrever na sala de estar de sua casa, com a máquina de datilografar sobre as pernas. Fazia isso para ficar mais perto dos filhos, Pedro e Paulo Gurgel Valente, hoje com 60 e 55 anos de idade, respectivamente. Um ambiente parecido com esse, mobiliado com sofás e equipado com vitrola, está entre as oito salas temáticas da exposição do Centro Cultural Banco do Brasil sobre a escritora, que veio na primeira infância da Ucrânia e produziu uma obra de originalidade e fôlego incomparáveis. No Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, Clarice Lispector – A Hora da Estrela foi visitada por mais de 290 000 pessoas. Um dos momentos de maior impacto da exposição ocorre numa sala estilizada. Na parede de fundo são projetadas as únicas imagens em movimento da autora de 26 livros, com trechos de uma entrevista concedida em fevereiro de 1977 para o programa Panorama Especial, da TV Cultura. Clarice gravou as cenas sob a condição de que fossem veiculadas apenas após sua morte, que sobreveio em dezembro daquele ano. Como se surgisse do outro lado do não-ser, em toda a sua beleza exótica, o olhar expressivo e o inseparável cigarro, Clarice parece falar aos visitantes.

A edição carioca da mostra, que ocupa 600 metros quadrados do CCBB, terá um ambiente a mais do que a versão paulistana. A dupla Daniela Thomas e Felipe Tassara, responsáveis pela cenografia, criou uma instalação com dez aparelhos de TV dos anos 60 nos quais serão exibidas gravações de pessoas comuns recitando trechos do livro A Hora da Estrela, feitas na Praça da Luz, em frente do Museu da Língua Portuguesa. "Em São Paulo, os vídeos eram passados em monitores de LCD, mas, como aqui temos mais espaço, resolvemos criar uma obra específica", conta Daniela. As videoinstalações, entretanto, são detalhes. Na ambientação, a palavra escrita é a grande privilegiada. "A idéia é mostrar flashes da obra de Clarice", define a curadora Júlia Peregrino. Logo na primeira sala, imensas fotografias da escritora, que lançou seu primeiro livro aos 23 anos – Perto do Coração Selvagem –, foram impressas em telas semitransparentes, que permitem ler, ao fundo, frases de sua obra, como "ver é a pura loucura do corpo", do romance Água Viva. Com visual semelhante, o segundo salão traz mais fotografias e trechos de obras como O Lustre, A Descoberta do Mundo e No Sopro da Vida.

Fernando Moraes
A sala dos segredos: em gavetas que formam uma espécie de cômoda gigante, livros e documentos

Mais adiante, a atmosfera doméstica ganha forma com um quarto inspirado no romance A Paixão Segundo G.H. Na trama, uma mulher bem-sucedida revê sua vida e busca a própria identidade durante as intermináveis horas em que fica presa num quarto, encurralada por uma barata. Os visitantes – e principalmente as visitantes – não têm com o que se preocupar: o cômodo cenográfico é impecável, todo branco, com paredes repletas de frases vazadas e uma cama no meio. Sem insetos. Outro ponto forte é a sala com 2 000 gavetas que cobrem suas quatro paredes, apelidada por Júlia Peregrino de "Os Segredos de Clarice". Nessa espécie de cômoda gigante, 65 gavetas podem ser abertas. Nelas estão reproduções de documentos e exemplares de primeiras edições, como a de Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres, de 1969.


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