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04 de Julho de 2008Esporte
Eles vão atrás do ouro
A vida espartana dos atletas das seleções masculina e feminina de vôlei que se prepararam em Saquarema para lutar por medalhas em Pequim
Sérgio Garcia
Fotos Fernano Lemos
Os atletas da seleção na praia em frente ao centro de treinamento: bate-papo, pipa e mergulho numa rara tarde de folga 1. Murilo, meio-de-rede, 27 anos; 2. Nalbert, ponta, 34 anos; 3. Lucas, meio-de-rede, 22 anos; 4. Serginho, líbero, 32 anos; 5. Marcelinho, levantador, 33 anos; 6. Giba, ponta, 31 anos; 7. Samuel, ponta, 24 anos; 8. Sidão, meio-de-rede, 26 anos; 9. Alan, líbero, 28 anos; 10. Bruno, levantador, 22 anos
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É um hotel cheio de estrelas: Giba, Paula Pequeno, André Nascimento, Mari, Gustavo, Bernardinho... Às vésperas da Olimpíada, o Centro de Desenvolvimento de Voleibol vive dias agitados. Situado numa estreita faixa de terra espremida entre a Praia de Jaconé e a Lagoa de Saquarema, a 125 quilômetros do Rio, ali se concentram as seleções masculina e feminina antes de grandes competições. Durante quatro semanas, entre maio e junho, o lugar serviu de plataforma de lançamento para a corrida pelo ouro em Pequim, com treinos em tempo integral, numa dura rotina amenizada pela geografia, entre mar, lagos e montanhas. "É o spa do vôlei", diz a líbero Fabi. "A rotina aqui é espartana, um troço de samurai, justamente para chegar a esse nível que atingimos", conta Paulo Marcio Costa, gerente de seleções da Confederação Brasileira de Vôlei. "Mas é um lugar para que eles se sintam bem e não fiquem aborrecidos por estar fora de casa."
Nalbert na academia: aparelhos adaptados para pernas compridas
O técnico Bernardinho bate bola com Bruno: pai e filho Nem campo de concentração nem espaço para relaxamento. Com um quê de hotel-fazenda e pousada de balneário, o centro de treinamento espraia-se por uma área de 108 000 metros quadrados (veja quadro). Tem quatro ginásios com piso emborrachado, alojamentos para 170 pessoas, duas quadras de areia, duas de tênis, um campo de futebol soçaite, piscina, restaurante, heliponto e um aprazível lago de 400 000 litros, por onde passeiam tartarugas e tainhas. "Em 1979, nossos técnicos foram ao Japão e voltaram maravilhados", diz o presidente da confederação, Ary Graça. "Hoje nosso centro é o sonho dos japoneses." A idéia de construir um local com esse formato vem desde 1997. A partir de então, começou a busca por um terreno amplo e bem localizado até a CBV se decidir pela área onde funcionava a colônia de férias da Braslight, o fundo de pensão da Light. Depois de três anos de obras, ao custo de 5,5 milhões de reais, para erguer as quatro quadras cobertas e reformar os módulos, principalmente os alojamentos, o centro foi inaugurado em agosto de 2003.
Tudo está adaptado para gente grande. E põe grande nisso – a média de altura da seleção de novos é de 2,02 metros. Os chuveiros foram instalados a 2,5 metros do chão – quando o normal é ficar a 2,1 metros. As camas medem 2,2 metros – 30 centímetros a mais que o convencional. Mas é na academia de ginástica que fica mais evidente a discrepância dessa terra de gigantes. "Construímos tudo aqui, pois tivemos de modificar o tamanho dos aparelhos e das baterias de peso, que normalmente são feitos para fitness", explica o preparador físico José Inácio Salles, chefe da delegação masculina e uma espécie de Professor Pardal do vôlei. Os equipamentos são uma história à parte e justificam o pomposo nome: Centro de Desenvolvimento de Voleibol. Para o treinamento de quadra, Salles bolou, com a ajuda da Coordenação dos Programas de Pós-Graduação de Engenharia da UFRJ (Coppe), as mãozinhas metálicas que funcionam como bloqueio. Seu xodó é o canhão de saque, outra traquitana com tecnologia made in Saquarema. Há inventos ainda mais esmerados, como o aparelho digital eletromiográfico, capaz de medir a reação muscular a um estímulo, desenvolvido em parceria com a Universidade de Illinois, nos Estados Unidos.
Lado a lado: em ginásios vizinhos, as equipes masculina (à esq.) e feminina dão duro na quadra
Gustavo em um dos aparelhos: rotina de malhação pesada O dia-a-dia dos atletas é semelhante ao de soldado no batalhão. Acordam em torno de 7 horas, tomam café-da-manhã, treinam, almoçam, treinam, lancham, treinam novamente e jantam. Há dois intervalos de descanso: antes do almoço e à noite. Recém-chegado de Moscou, onde joga, o ponta Giba matou a saudade da praia logo no primeiro dia. "Lembro disso aqui no começo, quando a água quente e a TV a cabo falhavam", recorda. A turma da praia é a que tem mais adeptos, como mostra a foto de abertura desta reportagem, feita numa rara tarde de folga. Dos homens, só o meio-de-rede Gustavo e o oposto Anderson não costumam pisar na areia. Já o ponta Nalbert é um entusiasta. "A primeira coisa que faço aqui ao acordar é olhar para o céu", diz ele, que se orgulha de pertencer à primeira geração que ali treinou, em 2003.
Não há uma cartilha de comportamento. As delegações que chegam, estelares ou não, são recebidas com uma palestra no anfiteatro – além das equipes principais, quatro seleções de base costumam utilizar o centro. Não pega bem falar ao celular durante as refeições. A preferência é por usar sempre o uniforme, exceto nas folgas. Uma vez por semana, cada grupo no seu dia, eles e elas organizam um churrasco. Com certas restrições no cardápio. Nada de batata frita nem de maionese, e a lingüiça é de frango. A farra carnívora dos homens é marcada estrategicamente para a noitinha de quarta-feira, pois assim emenda com o futebol na TV. O controle alimentar é austero, mas nada a ver com tempero insosso ou a inapetente comida de hospital. "Me vê um cheeseburger com bastante ketchup e maionese", brinca o levantador Marcelinho ao ver a nutricionista Cristina Caldas, concessionária do restaurante, que funciona em sistema de bufê. Em toda refeição há de seis a oito tipos de salada, arroz integral e branco, uma massa, duas opções de carne, legumes e feijão. Sem falar de uma geladeira com picolés.
Nas refeições, jogadores das duas seleções, como Jaqueline e Anderson, dividem a mesa: nada de manteiga, fritura nem maionese O cardápio foi montado com certa flexibilidade para pedidos pessoais. Afinal, vários atletas atuam no exterior e chegam ao Brasil famintos pela comida da casa de vó. Giba pede sempre bolo. Para ele, que tem tendência a perder peso, a guloseima está liberada. André Nascimento desembarca da Itália querendo carne moída, feijão, purê e ovos estrelados. Dante era um problema: não comia salada. "No início, ouvi muita reclamação", lembra Isabella Toledo, nutricionista da CBV responsável por todas as seleções. Ao começar as pré-temporadas, ela faz uma avaliação nutricional e antropométrica e, com base nas informações, prescreve uma dieta para cada jogador. No restaurante, as equipes se misturam. "Almoçamos e jantamos juntas, e cada uma já sabe seu lugar certo na mesa", diz a meio-de-rede Walewska. "Depois, é a hora da fofoca."
Dois momentos da concentração: Lucas, Anderson e Giba carregam a cesta de roupa suja, enquanto Dante e Rodrigão pescam O momento de lazer geral é após o jantar. Eles se dividem em mesas de carteado para jogar pôquer (Rodrigão, Nalbert, Bruno, Lucas, Éder, Dante) ou truco (Marcelinho, Anderson e Gustavo). Elas pegam o violão e fazem uma roda, com Sassá ao instrumento e a contribuição vocal de Mari, Paula Pequeno, Fabi e quem mais chegar. "Sou eclética. Vou desde jazz e bossa nova até pagode", afirma Paula. Nada que afete o sossego monástico do local. Uma vez, Fabi e outras atletas se esconderam atrás de uma árvore e assustaram as colegas. Foi a primeira e última vez. "Prometemos não brincar mais disso", jura a líbero. "Aqui é muito escuro. Dá medo, e as meninas são escandalosas." É depois do jantar que sobra um tempo para os noivos Murilo e Jaqueline se encontrarem. "Pelo menos conseguimos nos ver", diz ela, que jogou a última temporada na Espanha, enquanto o ponta Murilo mora em Modena, na Itália. "Mesmo aqui, a gente às vezes se fala por telefone", ele conta. Curioso, pois eles ficam no mesmo módulo de alojamento.
Os noivos Murilo e Jaqueline na varanda, Marcelinho ao lado da piscina: pausa para relaxar
Walewska, Fabiana e Fofão: navegando na internet As moças da seleção principal se hospedam nas quinze suítes triplas voltadas para o lado da praia – por ser um terreno rebaixado, não há vista para o mar. Os quartos dos homens ficam na parte de trás do imóvel. No alojamento principal, as escadas funcionam como pontos de encontro, seja para cantar, papear ou navegar pela internet com seus laptops – passatempo preferido das duas turmas. O ponta Dante e o meio-de-rede Rodrigão gostam de pescar no laguinho. Fazem questão de dizer que se trata de uma atividade ecologicamente correta. "A gente sempre devolve os peixes para a água", explica Rodrigão. Apesar de parecer um hotel-fazenda, não há muita bajulação aos hóspedes. Cada jogador ganha um cesto para pôr a roupa suja, que eles mesmos levam à lavanderia. A regra vale para todos. Os próprios treinadores dividem quarto com seus auxiliares.
"Quando se fala em performance de alto nível, aqui há muita agilidade", afirma José Roberto Guimarães, técnico da seleção feminina. Ou seja: se é preciso realizar um treinamento de madrugada para adaptação ao fuso horário, sem problema. Ah, sim. A relação de José Roberto com o técnico da seleção masculina, Bernardinho Resende, é mesmo fria. Vira e mexe um se interpõe no caminho do outro e trocam apenas cumprimentos protocolares. Como seus jogadores e jogadoras, eles só pensam naquilo – a medalha em Pequim. De ouro, claro.
Paula Pequeno com a filha Mel: clima de casa
A dona das estatísticas
Ela não entra em quadra, mas sai extenuada das competições. A paulista Roberta Giglio, 36 anos, é a estatística da seleção masculina. Sua tarefa: esmiuçar os adversários do Brasil. Ela usa quatro laptops e um software específico para analisar qual a jogada provável quando o time ocupa determinada posição em quadra. A cada ponto, paralisa a imagem. Depois, faz um relatório para o técnico Bernardinho. Durante os jogos da seleção, a cada lance ela canta a pedra para o treinador. Desde que começou a fazer isso, em 2001, Roberta já decupou mais de 850 partidas.
"Na Olimpíada de Atenas, em 2004, eu chegava ao ginásio às 8 da manhã e só saía de madrugada. Não tinha como dormir."
Pancadas certeiras
Eles são chamados de braços-de-ferro ou canhões. A função de Jorge Édson Brito e Marcos Silva, o Marcão, ambos de 41 anos, é dar cortadas para treinar a defesa. Há oito auxiliares como eles para as duas seleções, e cada um chega a dar 1 000 ataques por dia de treino. "Sempre pedem para esquentar, e nunca aliviar", diz Jorge Édson, que integrou a equipe brasileira medalha de ouro na Olimpíada de Barcelona, em 1992, e hoje trabalha também como treinador. Marcão é outro ex-jogador, com passagens por Bradesco e Botafogo. "Temos braço com mira a laser. Sem modéstia, erramos muito pouco", diz ele. "Pena que quando atuávamos não tínhamos pancadas tão certeiras."