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21 de Maio de 2008Crônica
Fragmentos de domingo
Manoel Carlos
Leo Martins
Nove horas da manhã. Domingo. Andar no calçadão. Tomar uma água-de-coco, o céu azul, o mar calmo. O aviãozinho passa baixo, a faixa de pano tremulando e anunciando o show do Caetano. Um menino aparece e coloca, diante dos meus olhos, um punhado de amendoim. Lembro que foi nesse mesmo quiosque que, num domingo assim, um rapaz passou correndo e me levou o celular que estava em cima da mesa.
– Quanto tempo faz que me levaram o celular?
– Uns três anos – responde minha mulher.
No quiosque, a mocinha de uns 18 anos, na mesa ao lado da nossa, conta uma história a um quarentão que, pelo olhar guloso, demonstra interessar-se por ela.
– ...eu aceito muito bem ser filha adotiva. Não vejo problema nisso. Mas ainda quero conhecer meus pais de verdade porque... Não sei se você me entende, mas é neles que eu vou descobrir por que sou assim, por que não sou. Por que tenho medo disso, por que me emociono com aquilo. Essas respostas estão fatalmente neles. Eles é que nos fizeram! Então, uma pessoa que não tem pai nem mãe, que não os conheceu ou que não se lembra deles... como é que faz? Como conferir, como encontrar-se? É como uma garrafa de bebida sem rótulo. Por mais que digam que é uma bebida boa, legítima... você não acredita muito e bebe desconfiado.
– Eu vou te ajudar a encontrar os seus pais.
– Ah, que bom. Promete? Jura?
– O que eu não faria para te agradar?
A mocinha riu, um pouquinho nervosa. Os dois se levantaram e foram andando pelo calçadão. O quarentão, agora, com o braço sobre o ombro da mocinha.
Onze horas da manhã. Do calçadão passamos na Envidia, uma chocolateria charmosa da Dias Ferreira que tem os mais saborosos sanduíches em pão orgânico. Um casalzinho, entre 20 e 22 anos, toma um suco de abacaxi com hortelã.
– Você me falou que morava nesta rua.
– E moro. É só atravessar a rua. Morava com uma amiga, Marly, mas ela se mudou no mês passado para a casa do namorado. Nem sei direito como é que eu vou enfrentar, sozinha, as contas do apartamento. Só o IPTU é uma nota!
Fizeram silêncio por alguns segundos. Ela se incomodou, não queria deixar a conversa morrer. Afinal, ele era um rapaz bonito, dourado de sol, e ela... bem, ela não era bonita. E magrinha, magrinha.
– Comprei esta camiseta ontem – diz ela, esticando os peitinhos já maduros.
– Bonita.
– Olha, Francisco, a gente só se conhece há uma semana.
– Desde domingo passado – corta ele.
– Pois é. Pouco tempo. Ninguém conhece ninguém em uma semana. Então espero que você goste do que eu fiz para o almoço. Também, se não gostar, vai ter de me desculpar, porque é a minha especialidade.
– Viradinho?
– Não. Por quê? Você não gosta de viradinho?
– Não é isso, até gosto, mas tive uma namorada cuja especialidade era viradinho com carne-seca e abóbora.
Ela fez uma pausa, devorando com os olhos o moço bonito.
– Você deve ter mil namoradas.
– Eu? Pobre de mim. Nem tenho tempo para isso. Trabalho de segunda a sábado no restaurante que o meu pai tem em Jacarepaguá. Fico no caixa, ajudo a servir, até faxina já fiz.
– Ah, não! Seu pai tem um restaurante e eu me meto a fazer comida para você! Logo eu, que sou ruim de forno e fogão!
– Calma. Não tem ninguém mais simples do que eu para comer.
– Puxa, me bateu um desânimo agora. Desculpe.
– Tenho certeza de que vou adorar o seu almoço.
Ela sorriu, se animou:
– Bem, o almoço é o seguinte. Minha mãe que me ensinou. Minha mãe é baiana, ela mora lá com meu pai. É a coisa que a Marly mais ama, por isso eu fazia quase todos os domingos, entende?
– Olha, Denise, eu como de tudo, não se preocupe. Fui acostumado a comer o que a minha mãe punha na mesa, sem o direito de dizer "não gosto". Desde criança. Só camarão eu não como. Não é que não goste, mas é que sou alérgico. Fico empelotado, assim...
A jovem fechou os olhos, levantando-se na mesma hora.
– Que foi?
– É camarão. Fiz bobó de camarão. Puxa vida, eu sou uma infeliz mesmo!
– Eu é que não devia ter falado nada!
– E ia comer e morrer? Burra, burra, burra!
E a mocinha que não era bonita bateu com a mão na testa várias vezes.
– Eu quis te agradar, torrei uma grana preta em camarão e você é alérgico ao bicho. Quero morrer!
Paguei a conta e saí com minha mulher. Para um único dia, já eram duas boas histórias para contar, faltando apenas imaginar como é que elas acabaram quando terminou o domingo.
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