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14 de Maio de 2008
Esporte

Na Crista da Onda

A nova geração de surfistas cariocas sonha
com grandes aventuras, belas paisagens e
bons contratos profissionais

Livia de Almeida

 

Fernando Lemos
Caio Vaz: aos 14 anos, campeão intercolegial, modelo e ator na próxima novela das 7 da TV Globo

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Onde aprender

Aos 9 anos, Isabella Lima já era perita nas cambalhotas e nos saltos mortais que executava em competições de ginástica artística. Ela integrava a equipe do Flamengo, ao lado de Jade Barbosa, que ganharia medalha de ouro em saltos no Pan de 2007. Mas o ritmo frenético dos treinamentos não lhe agradava. Sentia falta da praia e das atividades ao ar livre. Foi quando o pai sugeriu que experimentasse um esporte bem diferente, que ele próprio praticava. Na Praia da Barra, teve suas primeiras lições de surfe. "Consegui ficar de pé na prancha no primeiro dia", orgulha-se Isabella, hoje com 14 anos e quinta colocada no ranking brasileiro na categoria open, que reúne atletas amadoras bem mais velhas do que ela. Isabellinha, como ficou conhecida, é apontada como um dos nomes mais promissores da novíssima geração do surfe carioca. Nem pestaneja quando indagada sobre o tipo de onda de sua predileção. "Grande", responde. Com 1,53 metro de altura e 43 quilos, enfrentou feliz da vida paredes de água com quase o dobro do seu tamanho. "Ela não tem medo de ondas grandes", diz Abílio Fernandes, técnico da seleção estadual.

Márcio Rodrigues/Fotocom.net
O campeão brasileiro de pranchão, Roger Barros: treinamentos na Austrália

A garota confirma. "Meu sonho é ser big rider como a Maya Gabeira", conta, referindo-se à filha do deputado federal Fernando Gabeira, eleita neste ano pela segunda vez a melhor surfista de ondas grandes do mundo, na categoria feminina. "Agüenta, coração", suspira conformada Lidia, a mãe, que acompanha todos os seus treinos. Desde que começou a competir, em 2003, Isabellinha correu praticamente toda a costa brasileira. No ano passado, viajou para o Havaí com a família e atualmente planeja a próxima escala internacional, na Austrália. "Gosto de competir porque me permite viajar e conhecer outras culturas", diz ela, que é aluna do 9º ano da Escola Parque e pretende estudar administração ou marketing.

Com rotina de treinos bem puxada, preparação física em academia, discussão de táticas e exibição de vídeos de seus treinos para correção de erros, Isabellinha é a típica menina do Rio versão 2008. Está muito longe do estereótipo de surfista dos anos 70, vestido com camisa hang ten, calça de boca fina e que, na cabeça, tinha pouco mais do que parafina para alourar as melenas. Na época, poucas entravam na água e os meninos não faziam exatamente o perfil do genro que se pedia a Deus. "Éramos vistos como marginais", recorda-se o professor Paulo Dolabella, que hoje mantém uma escolinha no Arpoador.

Fernando Lemos
Gabriel Pastori (na foto menor, à esq., com o irmão André): no início do mês, prêmio de 3 000 reais, o primeiro retorno financeiro em onze anos de carreira

Os tempos mudaram. "Na minha casa, todo mundo surfa", afirma Michelle Desbuillons, 18 anos, líder do ranking brasileiro amador. "Meu pai, meus irmãos e até minha mãe." Em matéria de ondas, Michelle gosta mesmo é das manobras radicais e de competir. "Meu sonho é dropar (descer, em surfistês) uma onda bem grande como as que Maya Gabeira surfou em Teahupoo ou Waimea." Malvistos no passado, os antigos surfistas se tornaram respeitáveis membros da sociedade, casaram, tiveram filhos... Seus herdeiros começaram a dar as primeiras remadas aos 3 ou 4 anos de idade, ao longo dos 40 quilômetros de praia da cidade, do Leme a Grumari. Essa legião de novos praticantes do esporte incentivou o surgimento de uma infinidade de associações esportivas – no Rio, são dezesseis –, que garantem um calendário movimentado de competições amadoras e profissionais. "Tivemos de criar mais duas categorias no campeonato estadual para atender a criançada: pré-petit, para quem tem até 8 anos, e petit, até 10 anos", explica Pedro Falcão, presidente da Federação de Surfe do Estado do Rio de Janeiro. Luara Thompson, de 8 anos, irmã de Mainá Thompson, tricampeã brasileira de longboard (o pranchão), é vice-campeã carioca de pré-petits. "É uma conquista para ela, que entra na água desde os 3 anos", festeja Mainá. "Ainda mais porque, como pré-petit, ela compete com meninos."

Fotos Fernando Lemos e Rick Werneck
Da ginástica artística para as ondas: Isabella Lima quer ser big rider, como Maya Gabeira

Outra pequena fera é Wendy Guimarães, de 11 anos, nascida e criada em Saquarema. Campeã do circuito Petrobras de surfe feminino em 2007, está disposta a repetir a dose neste ano. Venceu com facilidade a primeira etapa do circuito 2008, disputada no Rio Grande do Norte. "Ela nasceu para surfar", diz Abílio Fernandes. "É como se fosse um Ronaldinho Gaúcho das ondas." Filha de pai surfista e com dois irmãos mais velhos em competições – Ian, 17, foi cinco vezes ao Havaí e neste ano faz a transição para o surfe profissional –, Wendy passou grande parte da vida dentro do mar agitado de Saquarema. "A gente está acostumado com ondas grandes", afirma Ian. "Quando vamos para um lugar diferente, mesmo que as condições sejam pesadas, nós nos sentimos mais seguros do que a média."

Fotos Márcio Rodrigues/Fotocom.net e Fernando Lemos
Tricampeã brasileira de longboard, Mainá Thompson deu as primeiras lições à irmã Luara: unidas até debaixo d’água

Quem não tem um pai fera ou um irmão como Ian não precisa ficar na areia. Há catorze anos começaram a aparecer em toda a orla escolinhas que ensinam os rudimentos do esporte. "Elas contribuíram para atrair as meninas para a modalidade", analisa Abílio Fernandes. "Uma boa escolinha ajuda o garoto a conhecer o mar, as correntezas", diz Rico de Souza, pioneiro no ensino do esporte. Foi com ele que Phil Razjman, atual campeão mundial de longboard e filho do ex-jogador de vôlei Bernard, arriscou suas primeiras remadas. "Hoje em dia, os pais dão a maior força para os filhos surfarem", constata Paulo Dolabella. "Isso mantém a turma longe do computador, dos videogames e até da night."

Caio Vaz, de 14 anos, egresso da escolinha de Rico, costuma pegar sua bicicleta e sair de casa, na Lagoa, às 5 da manhã para treinar no Arpoador. Está na equipe estadual e no ano passado foi campeão intercolegial em duas categorias. Como se não bastasse, aos 11 anos iniciou a carreira de modelo sob a supervisão de Sérgio Mattos, da agência 40 Graus. Sua estréia foi na Vogue francesa, clicado pelo badalado fotógrafo peruano Mario Testino. "Eu tinha acabado de voltar da minha primeira viagem ao Peru e ele ficou impressionado por eu já ter surfado por lá", lembra Caio, que já foi duas vezes ao Havaí, uma delas sozinho. Para completar a agenda, faz aula de teatro no Tablado e acaba de ser escalado para o elenco da próxima novela das 7 da TV Globo, Três Irmãs, de Antonio Calmon, que terá um núcleo de surfistas e cenas gravadas em Bali. Rico de Souza está fazendo a supervisão técnica e deu aula aos atores Carolina Dieckmann e Rodrigo Hilbert. "A garotada começa com uma postura profissional, quer saber como aparecer nas fotos e como falar com a imprensa", observa Rico.

Fotos Fernando Lemos e Rick Werneck
Michelle Desbuillons, a primeira do ranking amador em 2008: pai, mãe e irmãos também são surfistas

Profissionalização, aliás, é uma palavra que está na ponta da língua da novíssima geração. Gabriel Pastori, 19 anos, trancou a faculdade de comunicação social na PUC para dedicar-se integralmente às pranchas. Chegou em terceiro lugar no Rio Pro Surf, competição realizada em Grumari, no início do mês, e foi o carioca mais bem colocado. Recebeu 3 000 reais. "É o primeiro retorno financeiro que temos depois de onze anos de investimentos no surfe", diz o executivo Márcio Pastori, pai e ex-surfista. "Em termos de experiência de vida, não tem preço", acredita Gabriel. Neste ano, ele surfou na mítica Praia de Pipeline, no Havaí, e conseguiu pegar uma daquelas ondas perfeitas que fazem a festa dos fotógrafos especialistas. "A primeira coisa que a gente aprende por lá é que é importante, até dentro da água, saber quem é quem e qual a hora de entrar em ação", conta.

Fotos Fernando Lemos e Fábio Minduim/Black Water
Wendy Guimarães (à esq., com os irmãos Derek e Ian): talento cultivado no mar pesado de Saquarema

Para os jovens, as viagens são, sem dúvida, mais um dos atrativos do esporte. "Além de conhecer lugares lindos no Brasil, estive na Austrália, na Costa Rica, no Japão e na França. Mas sei que ainda é muito difícil viver só do surfe", diz Roger Barros, de 19 anos, campeão brasileiro de longboard, que está na Austrália se preparando para duas etapas do qualifying do circuito mundial profissional. O ano é particularmente promissor para aqueles que desejam ingressar no circuito profissional. Nesta temporada, o Rio voltou a ser incluído no calendário de competições internacionais, com quatro provas masculinas e femininas, em julho e outubro, que contam pontos para o acesso à divisão principal do circuito mundial. Os meninos – e meninas – do Rio prometem emoções fortes.

Fernando Lemos
Paulo Dolabella comanda uma escolinha no Arpoador: opção de atividade ao ar livre e longe do computador

 

Para entender o surfistês

Os surfistas cariocas perderam a aura quase marginal que os acompanhava nas décadas de 70 e 80, mas continuam a usar um dialeto próprio, às vezes incompreensível para quem, da areia, aprecia suas manobras radicais. Veja alguns exemplos.

Aéreos: manobras nas quais o surfista sobe acima da crista da onda e aterrissa

Aliviar: ceder a onda a um amigo

Air man: especialista nas manobras aéreas

Big rider: especialista em ondas gigantes

Clássico: quando usado para classificar o mar, significa que ali há altas ondas

Free surfer: surfista que não compete

Picos: lugar com boas ondas, mas também pode ser usado para designar um lugar, um bar ou uma boate muito disputados

Rabeirar: entrar na onda de outro surfista

Swell: ondulação

Tow in: surfe praticado em ondas gigantes, às quais o surfista chega rebocado por um jet-ski


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