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14 de Maio de 2008Comportamento
Só, mas por um fio
Disque-solidão recebe mais de 500 ligações
em um mês de funcionamentoAlessandra Medina
Longe do filho, que se mudou para a Espanha no início de 2007, a telefonista Elza Souza, de 50 anos, viúva, passava um tempo enorme diante da TV, chorando de saudade. Até que viu o cartaz do projeto Eu Preciso de Você, um disque-solidão criado pela prefeitura que funciona 24 horas. "Sentia falta de alguém para conversar", conta Elza. Desde seu lançamento, no dia 9 de abril, o serviço já recebeu mais de 500 ligações de pessoas como ela. A maioria é de mulheres de classe média, solteiras ou separadas, na faixa de 40 a 55 anos, moradoras principalmente da Tijuca, de Vila Isabel e de bairros da Zona Sul. "Nosso objetivo não é o aconselhamento", explica o secretário municipal de Assistência Social, Marcelo Garcia. "Queremos organizar programas em grupo e possibilitar que sejam feitas novas amizades." Há duas semanas, dez participantes fizeram o primeiro passeio promovido pelo grupo: uma visita ao Centro Cultural Banco do Brasil. "Tem gente que telefona pensando que se trata de uma agência matrimonial", diz a coordenadora Ana Claudia Sampaio. "Não é nossa proposta, mas nada impede que eles conheçam alguém interessante nos encontros." Nesse programa de socialização, o plano é organizar um grande baile por mês. O primeiro será no próximo dia 30, no Grajaú Country Club. "O problema dos que procuram o serviço não é falta de dinheiro para ir ao teatro, por exemplo", afirma Garcia. "É a ausência de companhia mesmo."
A idéia, da qual o secretário se considera o mentor, foi inspirada no filme Chega de Saudade e na peça No Natal a Gente Vem Te Buscar, que abordam o isolamento nas grandes cidades. "Solidão é um mal urbano e de responsabilidade do governo, sim", acredita. "Ao combatermos o isolamento, as pessoas adoecem menos e os problemas diminuem." Durante o dia, o disque-solidão (
2503-2372, 2503-2376, 3292-7438 ou 9923-0944) tem o atendimento a cargo de dois agentes comunitários e uma pedagoga, que dividem uma sala apertada no Centro Administrativo São Sebastião, na Cidade Nova. À noite, as ligações são encaminhadas para o Centro de Referência Especializado da Assistência Social de Santa Cruz, onde fica um plantonista. Até o fim do mês, serão contratados quatro funcionários: dois para reforçar o serviço no horário diurno e dois para atuar à noite. A identidade do usuário é mantida em sigilo, mas, se ele quiser, um psicólogo ou uma assistente social poderá visitá-lo em casa. "A maioria das chamadas é de quem quer apenas conversar", diz Ana Claudia. "Mas, se sentirmos que o caso é de depressão, podemos encaminhá-lo para tratamento na rede pública." O sistema será modernizado para que os usuários possam deixar recado quando a linha estiver ocupada. Com diálogo, tudo se resolve.