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09 de Abril de 2008Memória
O Rio de Bandeira
Livro reúne 113 crônicas inéditas do poeta pernambucano, escritas nos anos 20
Livia de Almeida
Condomínio dos proprietários dos direitos de imagem de Manuel Bandeira
Manuel Bandeira: observador perspicaz das cenas do cotidiano carioca
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Consagrado como um dos maiores poetas brasileiros, o pernambucano Manuel Bandeira (1886-1968) foi também, desde a década de 20 até o fim de sua vida, cronista de jornais e revistas brasileiros. Grande parte desses textos era praticamente desconhecida até mesmo pelos maiores fãs do autor de Vou-me Embora pra Pasárgada. Já não é. Acaba de chegar às livrarias um volume precioso e revelador, Crônicas Inéditas I (Cosac Naify; 440 páginas; 65 reais), organizado pelo pesquisador Julio Castañon Guimarães com 113 inéditos em livro que ele publicou entre 1920 e 1931 em periódicos como Idéia Illustrada, A Província e Diário Nacional."Não deixamos nada de fora", afirma o editor da obra, Paulo Werneck. Para o próximo ano, já está previsto um segundo volume cobrindo a década de 30.
O Bandeira cronista passeia pelas ruas do Centro da cidade, admirando-se do esplendor da Avenida Rio Branco, freqüenta salas de concerto e eventos mundanos como um concurso de miss, assiste à exibição do primeiro filme falado no Rio e discorre deliciosamente sobre pessoas que conheceu e admirou, como o escritor Machado de Assis. "Todas as noites quando eu ganhava a rua depois do jantar via passar um casal agarradinho: o mestre com Carolina", escreveu, referindo-se à mulher do criador de Capitu. Com grande perspicácia descreve a volta do compositor Heitor Villa-Lobos para o país, depois de um ano na Europa. "Villa-Lobos acaba de chegar de Paris. Quem chega de Paris espera-se que venha cheio de Paris. Entretanto Villa-Lobos chegou de lá cheio de Villa-Lobos." E ainda encontra tempo para proclamar: "Não pode haver dúvida: Carlos Drummond de Andrade é um dos grandes poetas do Brasil". Isso em 1930, logo após o lançamento de Alguma Poesia, primeiro livro do mestre de Itabira. É um prazer ler as crônicas de um autor tão habilidoso com as palavras quanto visionário.
Guerra ao Mosquito
Acervo Museu das Telecomunicações
Telefonistas nos anos 20: contra a febre amarela "A companhia que explora o serviço telefônico no Rio, não sei se de moto-próprio ou por sugestão do Rotary Club ou da Grande Comissão de Fuss Anti-Amarílico, resolveu complicar a situação dos seus assinantes fazendo as telefonistas dizerem ‘Guerra ao mosquito!’ antes do clássico ‘Número, faz favor?’.
De sorte que agora travam-se os seguintes diálogos:
– Guerra ao mosquito! Número, faz favor?
– Guerra ao mosquito, Central sim, dois, um, nove.
– Guerra ao mosquito...
– Já matei dois!
– Número, faz favor?
O pior é quando no meio da conversa comum cortam a ligação, e o assinante pára de falar, grita alô, bate no gancho, espera, desespera e no fim de cinco minutos e de três estouros, a vozinha inalterável, polida, angélica da telefonista enfim acode:
– Guerra ao mosquito, número faz favor?
E o assinante:
– Guerra a coisa nenhuma! Guerra a você, à Light e aos imbecis que pensam acabar com a febre amarela amolando a paciência dos outros!"
(9 de junho de 1929)
Festa na Avenida
Acervo MIS RJ/Reprodução Iconographia
A Rio Branco em 1925: "encantos diferentes" "A avenida estava linda como sempre. Ela não precisa de decorações suplementares para tomar aspecto festivo. Na realidade de todos os dias já é uma festa perpétua para os olhos: alegria dos cariocas e dos provincianos em trânsito. Apesar da sua detestável arquitetura... A vida, o movimento, o luxo das instalações comerciais e ultimamente a nitidez fulgurante dos anúncios luminosos de gás neon fazem esquecer que não há nos quatro quilômetros das suas duas linhas de edificação nenhuma fachada verdadeiramente bela. Não importa. A Avenida é linda, a Avenida é bem brasileira e tem todo o encanto de coisa brasileira. [...] Quem vaticinou que ‘a rua do Ouvidor seria sempre a rua do Ouvidor’ perdeu na aposta. A supremacia mundana deslocou-se para a Avenida. Os velhos afirmam que na ruazinha apertada havia um encanto mais íntimo. Havia. Mas é inútil lastimar o encanto que passou. A Avenida tem outros encantos diferentes, como são diferentes as graças das mulheres novas que lhe dão vida e sabor."
(22 de março de 1929)
Mudança na Paisagem
Augusto Malta/Acervo Arquivo Geral
Em obras: nosso primeiro arranha-céu sobe na Praça Mauá "A questão do arranha-céu no Rio me pareceu sempre uma discussão ociosa. Ali, feio ou bonito, próprio ou impróprio, o arranha-céu é uma fatalidade econômica decorrente da carestia do terreno. Em zonas onde o metro de frente custa uma fortuna o arranha-céu tem que subir. Urbanistas e arquitetos que se arranjem para condicionar artisticamente a matéria nova. O arranha-céu é um fato, não uma criação artística. [...] Quem manda levantar arranha-céus está se minando para as artes, modernistas ou não. Quer é dinheiro."
(23 de novembro de 1928)
Concurso de Miss
Acervo Biblioteca Nacional
Candidatas de 1929: "arzinho bom" "Uma cousa confortável em tudo isso é o arzinho bom, simpático, bem brasileiro de todas essas moças. As tolices que aparecem nas entrevistas devem ser com certeza dos entrevistadores. Eles vão perguntar a meninas de dezesseis anos opiniões sobre o amor e sobre a literatura nacional. É natural que uma diga que ‘os seus escritores prediletos são Coelho Neto e Machado de Assis’... E outra que ‘o amor é vida e sem o seu concurso não é possível viver’. Não faz mal: no poleiro do Diário da Manhã eu tenho lido muito pensamento assim com um nome ilustre por baixo..."
(30 de abril de 1929)
No coração da cidade
Augusto Malta/CBCA/IMS
Centro: ruas tristes e apertadas "Não podemos passar nas estreitíssimas ruas do Centro do Rio de Janeiro sem tristeza. Além de serem insuficientes para o trânsito e causarem a cada instante atrasos e confusões desagradáveis, as nossas ruas coloniais estão atualmente se enriquecendo com prédios magníficos, ricos e custosos, que ficam perdidos para nós."
(15 de agosto de 1924)