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13 de Fevereiro de 2008Gastronomia
O coração gourmet
Foi no Centro que a boa mesa carioca deu os primeiros passos, nos tempos em que a corte circulava por suas ruas. Daquela época sobreviveram casas que hoje fazem parte da história, como o português Rio Minho e a confeitaria Cavé. Mas a região não vive do passado: ao lado da Barra, é o bairro onde mais se abrem restaurantes e bares no Rio de Janeiro. São 752, o equivalente aos de Copacabana, Botafogo e Tijuca somados. Com endereços requintados, como o Laguiole, chefs criativos, como Nao Hara, e cardápios fartos, como os do Mosteiro, o Centro, sem dúvida, é a vitrine gourmet da cidade
Livia de Almeida
Fotos Fernando Lemos
Dos tempos do barão
Desde 1884, o sobrado da esquina das ruas do Ouvidor e Alfredo Agache é ocupado pelo restaurante Rio Minho, especializado em comida portuguesa e frutos do mar. Foi ali que surgiu a receita da sopa leão veloso, um caldo com toda espécie de criatura marinha. "Reza a lenda que Pedro Leão Veloso, diplomata e jornalista, queria um prato que lembrasse a bouillabaisse dos tempos em que serviu na França", diz o atual dono da casa, Ramon Isaac Tielas Dominguez. O prato leva muitos condimentos, entre eles urucum e pimenta-doce, além de cabeça de peixe e de camarão. "Sem isso não dá para fazer a sopa", explica. No salão austero e confortável, ela é servida em meia porção (R$ 38,00) ou inteira (R$ 58,00) para uma clientela de magistrados, políticos e executivos que trabalham nas redondezas. A relação do Rio Minho com o poder vem de longe. Um de seus mais assíduos clientes foi o patrono da diplomacia brasileira, José Maria da Silva Paranhos Júnior, o barão do Rio Branco, que chegava às 11 horas, pedia a comida depressa e ficava na mesa lendo jornal durante três horas. No salão, há uma foto do histórico freqüentador.
Rio Minho, Rua do Ouvidor, 10, Centro,
2509-2338 (108 lugares). 11h/16h (fecha sáb. e dom.). Cc.: todos. Cd.: todos. Cr.: todos. T.: T. Aberto em 1884. Em férias coletivas, reabre em 3 de março.
A lagosta popular
O entorno do restaurante Sentaí não é nada convidativo. Fica atrás da Central do Brasil, em uma rua cheia de sobrados centenários em péssimo estado de conservação. Seu salão, no entanto, desfaz a impressão inicial. É o local apropriado para saborear uma lagosta deliciosa a preços acessíveis. O ambiente de tradicional boteco português, com balcão que exibe chouriço, postas de bacalhau e salgadinhos, atrai uma clientela fiel. Em janeiro, o colecionador de arte Gilberto Chateaubriand, como de hábito, fechou a casa para um almoço festivo. Aos domingos, quando não se vê vivalma pela redondeza, ainda assim o ponto costuma encher. A lagosta, que chega diariamente do Espírito Santo e do Rio Grande do Norte, pode ser servida grelhada com arroz de brócolis (R$ 65,00, para dois) ou como moqueca à baiana ou capixaba (R$ 57,00, para dois), entre outras receitas. "O segredo é o tempo de preparo. A carne de lagosta é muito delicada", diz o proprietário, José Rodrigues. São apenas cinco minutos de cozimento. Para os fãs do Sentaí, a boa notícia é que neste ano deverá ser aberta uma filial na Lapa, numa área bem mais movimentada da região central, em parceria com o bar Sacrilégio.
Sentaí – o Rei da Lagosta, Rua Barão de São Felix, 75, Centro,
2233-8358 (180 lugares). 11h/17h (fecha seg.). Cc.: todos. Cd.: todos. Cr.: todos. T.: todos. Manobr. Aberto em 1958.
Do Líbano com carinho
Jawad Salim Ghazi, libanês de nascimento, enche a boca para dizer que seu restaurante, o Sírio e Libanês, é o único da região conhecida como Saara a servir culinária árabe feita por árabe. "É a comida caseira legítima, do jeito que eu via minha mãe fazer quando era criança", garante Ghazi. Ele comanda a casa há 44 anos, desde os tempos em que o menu era bilíngüe, português e árabe. Atualmente o comércio local está na mão de imigrantes de outras origens, especialmente os orientais, mas a popularidade do Sírio e Libanês se mantém. O quibe (R$ 1,50) é um de seus carros-chefe, vendido tanto nas mesas quanto em um balcão na entrada. São 500 unidades por dia, preparadas com base em uma receita de família que leva pimenta árabe, entre outros condimentos. Para que seja possível experimentar um pouco de tudo, o menu oferece combinados como o supermix (R$ 48,90), o mais vendido, que vem com cafta na brasa, arroz de lentilhas, pasta de grão-de-bico, pão árabe, rolinhos de folha de parreira, rolinho de repolho e tabule em quantidade suficiente para alimentar até três pessoas.
Sírio e Libanês, Rua Senhor dos Passos, 217, Centro,
2224-5676 (100 lugares). 11h/18h (sáb. até 16h; fecha dom.). Cc.: todos. Cd.: M, R e V. Cr.: todos. T.: todos. Aberto em 1965.
Doces relíquias
Os bondes deram vez ao metrô. No lugar do Palácio Monroe, antiga sede do Senado Federal, na Cinelândia, existe hoje um estacionamento rotativo. Não se usam mais chapéus nem luvas. Mas nem tudo se perdeu. Um dos prazeres de visitar a Casa Cavé, na Rua Sete de Setembro, é constatar que a mudança de endereço, ocorrida há sete anos, não mexeu com a qualidade de seus docinhos e salgados, carregados do sabor de memórias afetivas para cariocas de muitas gerações. Com 148 anos de funcionamento, a Cavé é a confeitaria mais antiga da cidade. Perde para a Colombo no quesito ambiente, pois a concorrente, fundada em 1894, conserva a suntuosa decoração art nouveau e mantém uma lista de irresistíveis delícias com sabor lusitano. A estrela é o pastel de natas (R$ 3,00 a unidade), cujo recheio cremoso não peca pelo excesso de açúcar. Quem não tem medo de calorias encontra um sonho com creme (R$ 3,00) como não existe mais por aí, com massa bem leve. A sommelière Deise Novakoski, do Eça, chama atenção para a qualidade dos salgados: "Na Cavé ainda se prepara uma coxinha de galinha tradicional, feita sem queijo tipo catupiry". Vale visitar ao lado a loja original da Cavé, hoje ocupada por outra confeitaria d’antanho, a Manon.
Casa Cavé, Rua Sete de Setembro, 137, Centro,
2221-0533 (120 lugares). 8h/19h (seg. a sex.; sáb. até 13h). Cd.: M e V. Cr.: todos. Aberto em 1860
O japonês contemporâneo
Os corredores do Edifício Avenida Central são tomados por quiosques e lojas de informática, com intenso vaivém. Nada que tenha algum charme. A exceção é um ponto no 3º andar onde fica o restaurante Shin Miura. Pertence ao cultuado chef Nao Hara, uma referência na cozinha oriental contemporânea. O ambiente é acanhado, com mesas de tampo de plástico. Quem sabe das coisas vai atrás do esqueminha, menu degustação montado com uma série de pequenos pratos que variam de acordo com a criatividade do mestre-cuca. É possível experimentar apenas uma receita (R$ 20,00) ou encarar uma refeição completa com seis pratos (R$ 98,00). "Ultimamente, tenho feito muitas experiências com raízes e tubérculos", conta Nao, que usa sagu de mandioca como acompanhamento de um requintado atum semicru com brûlé de maracujá. Ele se prepara agora para inaugurar, até abril, o primeiro restaurante que leva seu nome. Será no São Conrado Fashion Mall, ao lado de grifes como a Enoteca Fasano, já em funcionamento, e o Café Armani, que também vai desembarcar no shopping.
Shin Miura, Avenida Rio Branco, 156, loja 324, Centro,
2262-3043 (89 lugares). 11h/15h (fecha sáb. e dom.). Cc.: todos. Cd.: todos. Cr.: todos. T.: T. Aberto em 1987.
A empada do Temporão
Segredo é sagrado. José Temporão, 85 anos, dono do restaurante Mosteiro e pai do ministro da Saúde, não revela por nada neste mundo a fórmula para tornar perfeita a massa de sua famosa empada: delicada no ponto certo para derreter na boca, mas firme o suficiente para não se esfarinhar na primeira garfada. No recheio, a diferença para outras empadinhas de camarão é muito evidente. Em vez de um creme com pedaços do crustáceo, ali o que se vê são camarões médios inteiros, tenros e saborosos. "Onde mais você encontra uma coisa dessas?", desafia. Por dia, sai mais de uma centena desses deliciosos salgadinhos, execrados pelos gurus das dietas de emagrecimento. Nesta casa tão portuguesa quanto seu dono, oriundo de Viana do Castelo, o menu traz vinte receitas de bacalhau. A que recebeu o nome do restaurante consiste em uma posta grelhada, com cebola sautée, muito azeite, batatas cozidas e brócolis (R$ 98,00). Desde 1964, quando abriram as portas, os salões do Mosteiro, decorados pelo próprio Temporão pai, recebem figuras da política e do empresariado nacional, de Delfim Netto ao atual ministro da Fazenda, Guido Mantega, que esteve lá em almoço com José Temporão, o filho.
Mosteiro, Rua São Bento, 13, Centro,
2233-6478 (250 lugares). 11h/16h (fecha sáb. e dom.). Cc.: todos. Cd.: todos. Estac. c/manobr. Aberto em 1964.
O retorno do chef
Em 2003, o chef José Hugo Celidônio decidiu fechar as portas do seu Clube Gourmet, restaurante que havia funcionado durante 23 anos primeiro em Botafogo e depois em Ipanema. "Foram anos trabalhando até a madrugada e acordando cedo para negociar com fornecedores. Acabei perdendo o gás", explicou na ocasião. Felizmente, ele o recuperou em 2006, pelo menos em meio período, ao reeditar no Centro o famoso almoço do Gourmet. Sai a R$ 54,60 por cabeça, incluindo sopa, salada da semana feita na hora, entradas, quiches e um prato quente. A picanha fatiada com batata assada nunca deixa a lista de opções. É sucesso desde Botafogo. Mas todos os dias aparecem pratos diferentes, como o cozido das quartas-feiras e a bacalhoada das sextas. Tudo isso em ambiente ao mesmo tempo confortável e informal, com um toque de requinte e a simpática presença no salão de Celidônio, firme e forte aos 75 anos. Na carta de sobremesas, há delícias que foram consagradas na casa, como a goiabada quente servida com sorvete de queijo (R$ 14,70), uma versão sofisticada do tradicional romeu-e-julieta.
Clube Gourmet, Rua Sete de Setembro, 63, Centro,
2509-2636 (70 lugares). 12h30/16h30 (fecha sáb. e dom.). Cc.: todos. Cd.: M, R e V. Aberto em 1980.
A maior adega da cidade
Baco, o deus do vinho, mora no Museu de Arte Moderna. No interior do restaurante Laguiole, que funciona no prédio do MAM, encontra-se a maior adega da cidade, premiada pela revista especializada Wine Spectator. Lá ficam guardadas cerca de 5 500 garrafas com 600 rótulos, do brasileiro Rio Sol, produzido no Vale do São Francisco (R$ 29,60), ao francês Château Petrus safra 1989 (R$ 6 269,00). Toda envidraçada, a adega exibe nas vitrines outras preciosidades de Bordeaux, como o Cheval Blanc 1962 e o Château Latour 1975, ambos tintos, e o branco de sobremesa Château d’Yquem 1989. "Quando abrimos o Laguiole, há dez anos, resolvemos que seu diferencial seria uma adega como nenhuma outra no Rio", afirma o restaurateur Marcelo Torres. A casa oferece também cerca de sessenta opções de vinho em taça, entre elas cinco tipos de champanhe e espumante que passeiam pelo salão em um carrinho. No deque, pode-se degustar uma taça observando a paisagem do Centro. Sua boa cozinha é comandada pelo jovem e promissor chef Pedro de Artagão.
Laguiole, Avenida Infante Dom Henrique, 85 (Museu de Arte Moderna),
2517-3129 (100 lugares). 12h/17h (fecha sáb. e dom.). Cc.: todos. Cd.: V. Estac. Aberto em 1997.
Pão com toque gourmet
Com fachada azulejada, o sobrado da Rua do Rosário foi construído no fim do século XVIII. Abrigou um cabeleireiro na época da chegada da corte portuguesa e um depósito de ouro da coroa. Há quase três anos, o tesouro da casa é diferente. A Brasserie Rosário produz quarenta tipos de pão artesanal, com fermentação natural, como uma baguete (R$ 1,60 a unidade) de casquinha perfeitamente crocante, resultado de oito horas de fermentação e 21 minutos de forno. Outros destaques são o pão de centeio com nozes (R$ 9,80) e o pão à l’ancienne (R$ 28,00 o quilo), rústico, feito com farinha francesa. O pulo-do-gato, segundo o sócio Luís Antonio Rodrigues, é justamente a farinha desenvolvida especialmente por um moinho mineiro com base nas especificações do chef francês Fréderic Monnier. Nas vitrines e nas prateleiras, não faltam delícias para experimentar: doces, tortas, biscoitos e todo tipo de brioche. O sobrado lindamente reformado abriga ainda um restaurante, que serve refeições e sanduíches preparados com o pão da casa. É um dos poucos da área a abrir aos sábados.
Brasserie Rosário, Rua do Rosário, 34, Centro,
2518-3533 (96 lugares). 11h/22h (sáb. até 17h; fecha dom.). Cc.: todos. Cd.: todos. Cr.: T e V. Aberto em 2005.
Jóias de chocolate
No subsolo da joalheria H. Stern funciona o restaurante Eça. Que a casa oferece uma ótima cozinha contemporânea, todo mundo sabe. Menos conhecida é a expertise do chef belga Frédéric De Maeyer com chocolates. No fim de 2003, ele resolveu presentear os clientes com trufas. O mimo fez tanto sucesso que desde então os pralinés fourrés foram incorporados ao cardápio. Feitos com chocolate belga Callebaut, podem vir nos sabores café, crocante e meio amargo. É possível comprar embalagens para levar. A caixinha com cinco unidades custa R$ 15,00 e a lata com 28, R$ 68,00. A última novidade do chef são os bombons multiculturais, feitos sob encomenda com 48 horas de antecedência, que podem ser entregues em endereços do Centro. Há cinco sabores homenageando países diferentes. O da França é o macarron; o da Inglaterra, o chocolate ao leite com chá; o da Índia leva laranja com especiarias; o da Grécia, morango com água-de-rosas; e o do Egito, caramelo, gergelim e pistache. A lata com dezesseis unidades sai por R$ 68,00.
Eça, Avenida Rio Branco, 128, Centro,
2524- 2401/2399 (85 lugares). 12h/16h (fecha sáb. e dom.). Cc.: todos. Cd.: todos. Aberto em 2002.