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19 de Dezembro de 2007Ambiente
O nobre quintal carioca
Livro inicia comemorações do bicentenário
do Jardim BotânicoCarol Zappa
Fotos Alexandre Sant'Anna
O Jardim Japonês e seu lago com carpas: sossego no horto criado por dom João VI
Quando estava grávida, em 1976, a jornalista Rosa Nepomuceno passava tardes inteiras sob um centenário jequitibá-rosa no Jardim Botânico. Anos mais tarde, ela descobriu que seu recanto favorito teve um fã ilustre: em visita ao Brasil, em 1925, o cientista Albert Einstein ajoelhou-se aos pés da árvore e beijou suas raízes. Ela está entre as 25 plantas emblemáticas do parque destacadas pela autora em O Jardim de D. João. Editado pela Casa da Palavra, o livro pega carona nos festejos dos 200 anos do Jardim Botânico, criado após a chegada da família real portuguesa ao Rio, em 1808. Em 176 páginas fartamente ilustradas com plantas, portais, aléias, lagos e fontes, Rosa recorre a sua memória afetiva e reúne histórias da instituição. A obra ressalta as palmeiras imperiais, cuja primeira muda veio do Caribe e foi plantada, supostamente, pelo próprio dom João. "A Palma Mater foi fulminada por um raio em 1972", ela conta. "Suas sementes deram origem às outras palmeiras do Brasil."
Fonte de bronze inglesa: do século XIX Antes da vinda da corte, a área foi engenho de açúcar e fábrica de pólvora. "A política de Portugal era estimular a criação de hortos nas colônias para aclimatação de plantas asiáticas que rendessem especiarias, frutas, madeira e resina para remédios e perfumes", explica. Para Rosa, a sobrevivência do local como o único horto remanescente do século XIX deve-se à mística em torno da nobreza e dos grandes cientistas que o visitaram. O livro recorda a abertura do Real Horto ao público, a partir de 1819, o que resultou na criação de linhas de bonde, restaurantes e pousadas nos arredores. Lembra, também, o período de decadência, quando foi anexado ao Imperial Instituto Fluminense de Agricultura, em 1861, com as pesquisas abandonadas e várias espécies desaparecidas. "O Jardim Botânico hoje é muito mais complexo, com cerca de 2 000 espécies e mais de 9 000 exemplares", celebra o presidente do parque, Liszt Vieira. "Vou lá quase diariamente. Conheço os funcionários e acompanho as florações", diz Rosa, paulista de Botucatu, que destaca a beleza do Jardim Japonês, um dos trechos do parque. "Apesar da intimidade, jamais me referi a ele como o quintal da minha casa, tamanho meu respeito e cerimônia."