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02/12/2009Consumo
Sem xepa, com estilo
Em tempos natalinos, são esperados 40 000
visitantes na tradicional Feira do Lavradio.
Para dar conta da procura, haverá
uma edição extra em dezembroLetícia Pimenta
Selmy Yassuda
Barraca de Rosário de Fátima, uma das mais antigas do local: de quinquilharias a peças de arte contemporânea A cena virou tradição no primeiro sábado de cada mês, quando o boêmio bairro da Lapa acorda cedo para receber a Feira do Rio Antigo, na Rua do Lavradio, no centro da cidade. Ao raiar do dia, enquanto expositores armam sua barraca, outra dezena de candidatos cadastrados, mas sem vaga fixa, torce para que os colegas se ausentem. Confirmadas as baixas, eles podem ocupar, provisoriamente, os pontos de venda. Tal esforço é resultado da enorme procura. Conquistar um espaço no concorrido mercadinho pode levar até um ano e depende da desistência definitiva de outro expositor. Atualmente, há uma fila de 200 postulantes esperando a vez de passar pelo crivo dos organizadores. A principal exigência é a fabricação própria das peças - já houve quem tentasse se cadastrar apresentando como seus objetos comprados no Saara. São vetados na hora. A obstinação dos candidatos se explica pelos números. A cada edição, o lugar recebe entre 15 000 e 17 000 visitantes. Em período de compras natalinas, esse número sobe para 20 000. Para dar conta de tanta procura, haverá uma edição a mais em dezembro. O evento acontece normalmente no próximo sábado (5) e, excepcionalmente, terá uma reprise no dia 19.
Aberta nos idos de 1770, a rua experimentou o apogeu e a decadência. No século XVIII, chegou a ser endereço das famílias abastadas do Rio. A partir dos anos 60, com a mudança da capital para Brasília, veio o abandono. Há treze anos, por iniciativa dos comerciantes da área, especialmente antiquários, a situação começou a mudar. Para atraírem a clientela, cerca de 100 vendedores de móveis e antiguidades das redondezas resolveram expor suas peças na calçada uma vez por mês, em um encontro que, invariavelmente, terminava em rodas de samba. O empenho do grupo deu início ao processo de revitalização. Com o aumento na afluência de pessoas, o poder público passou a valorizar a região, ampliando as calçadas, construindo praças e instalando uma nova iluminação. E, aos poucos, o evento mensal de relíquias e raridades abriu espaço para objetos de arte contemporânea, decoração e vestuário, atraindo um consumidor mais sofisticado - e em quantidades cada vez maiores.
Selmy Yassuda
Cristine Nunes: espera de nove meses para ocupar um ponto de venda
Para dar conta da demanda, existem hoje 430 barraqueiros espalhados pelos 700 metros de extensão da Rua do Lavradio. Gente como a designer Cristine Nunes, que enxergou na feira a oportunidade de divulgar seu trabalho de toy art, movimento nascido em Tóquio nos anos 90 e ainda pouco conhecido no Brasil. Determinada, Cristine passou nove meses chegando cedo ao local, na via-crúcis dos novatos em busca de um ponto. Conseguiu finalmente, e agora seus bonecos de pano em forma de monstrinhos, exportados para França e Estados Unidos, são vizinhos da tradicional Rosário de Fátima, uma das pioneiras do lugar. Muito procurada por produtores de teatro, televisão e cinema em busca de peças de época, Rosário oferece de quinquilharias como minipotinhos de porcelana a 3 reais à réplica de uma bomba de gasolina dos anos 50, a favorita dos visitantes para fotos, à venda por 5 000 reais.Além dos produtos, e da bela arquitetura colonial dos casarões e sobrados, a receita de sucesso do Lavradio tem alguns temperos extras. Estão à disposição da clientela bares e restaurantes de boa qualidade e uma cuidadosa programação de shows de samba, choro e MPB. Tudo concentrado em uma única rua. Assim como acontece com os expositores, há cerca de quarenta bandas em fila de espera para se apresentar em um dos três palcos montados. A atmosfera agradável, sem histórico de violência, é mantida por seis homens da Guarda Municipal, seis policiais militares e oito seguranças particulares. Joana Mangifeste, organizadora da feira, tem um deles à disposição o tempo inteiro. Não para sua proteção. O recurso é necessário para espantar alguns gaiatos, que volta e meia se apossam das barracas sem permissão.
O sucesso em números
15 000
pessoas visitam cada edição da Feira do Rio Antigo, realizada desde outubro de 1996 sempre no primeiro sábado do mês
430
barracas têm lugar cativo. Além de antiquários, há artesãos e artistas plásticos
200
candidatos aguardam vaga para vender seus produtos na feira
1 ano
em média é o tempo de espera por uma barraca
40
grupos musicais (samba, choro e MPB) estão na fila de espera para se apresentar em um dos três palcos do evento