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Home » Revista » Edição nº 1566 » Os 300 de Beltrame
25/11/2009Segurança
Os 300 de Beltrame
Sofia Cerqueira
Fotos Fernando LemosCom boa formação e treinamento adequado, os novos PMs são a grande aposta da Secretaria de Segurança para mudar a história da corporação
O soldado Eisenstein, em primeiro plano (à dir.), na marcha com a tropa: treinamento com exercícios militares e aulas diárias de educação física
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Eles têm a energia típica dos iniciantes, boa formação escolar e vontade de mudar tudo isso que esta aí. Muitos falam outros idiomas, moram na Zona Sul da cidade e já tiveram, em maior ou menor grau, experiência internacional. George Eisenstein, 25 anos e nome de cineasta russo, estudou comércio exterior no Canadá. Carla Batista, 27 anos, formou-se em turismo, fala inglês e um pouco de alemão. Bruno Drummond Andrade, 24 anos, cursa o 8º período de pedagogia na Uerj, é fluente em espanhol e se orgulha de ser parente distante do poeta Carlos Drummond de Andrade. Com tais credenciais, essa turma poderia arriscar uma gama variada de carreiras profissionais. Para surpresa de parentes e amigos, no entanto, o trio contrariou todas as expectativas e escolheu ser... policial militar. Isso mesmo. Desde junho, George, Carla, Bruno e outros 300 recrutas estão enfurnados em Sulacap, longínquo subúrbio do Rio, onde enfrentam um treinamento rigoroso para sair dali soldados da PM. O novo pelotão, com formatura marcada para o dia 16 de dezembro, carrega uma enorme responsabilidade: eles são a grande aposta do secretário estadual de Segurança Pública do Rio, José Mariano Beltrame, para promover uma metamorfose vital na atuação e na imagem da corporação fluminense. Em alguns círculos, já são chamados de "os 300 de Beltrame", uma referência ao filme 300, cujo enredo conta a luta dos guerreiros de Esparta contra o poderoso exército do rei persa Xerxes (interpretado na obra pelo ator carioca Rodrigo Santoro).
A recruta Carla Batista: "Meu grande sonho é ser policial"A preparação desses recrutas não se equipara à de um cidadão de Esparta, mas é espinhosa o suficiente para os padrões atuais. De segunda a sexta, eles se submetem a nove horas diárias de aulas. O conteúdo e a parte prática foram totalmente alterados em relação aos anos anteriores. O ensino do direito, com noções sobre a Constituição e a legislação penal militar, foi revigorado. Na comparação com outras edições, a rotina também ficou mais intensa. Eles agora aprendem trinta matérias, entre português, psicologia, direitos humanos e cidadania. Mas as maiores alterações aconteceram na parte prática. Neste ano, os alunos têm aula de defesa pessoal, educação física e combate. Cada aprendiz, que antes dava 120 tiros, hoje faz 300 disparos de revólver, pistola e fuzil. Pela primeira vez, todo o período preparatório é voltado para reproduzir a realidade das ruas. Um dos exercícios mais extenuantes, por exemplo, simula a invasão de uma favela, com becos, vielas e barracos cenográficos formando um labirinto de 1 800 metros quadrados, onde mocinhos e dublês de bandidos trocam tiros com balas de tinta. No aspecto pedagógico, outra mudança significativa foi a manutenção de todos em sala de aula até o quarto mês. Antes, os aspirantes podiam ser escalados para o trabalho nas ruas após sessenta dias do ínicio da preparação. "No centro de aperfeiçoamento, os praças ganham noções de autodefesa e aprendem como abordar veículos e pessoas", explica o comandante-geral da Polícia Militar, coronel Mário Sérgio de Brito Duarte. "Em vez da imagem autoritária, a ideia foi incutir a figura do servidor."
Bruno Andrade, um dos mais novos da turma: primo distante do poeta Carlos Drummond de AndradeEm teoria, os novos soldados terão passado pelo mais exaustivo e completo treinamento na história da PM. Mas como mudar toda a cultura da corporação, fazendo com que estes sejam o modelo para o restante da tropa, e não o contrário? Com salário médio de 1 300 reais, 38 000 homens e mulheres enfrentam hoje nas ruas da cidade uma guerra sangrenta contra o tráfico de drogas, um inimigo munido de armamento pesado, presente na metade das 1 020 favelas e capaz de abater até helicópteros. Sob qualquer parâmetro, a situação é dramática. No ano passado, 112 PMs foram mortos em serviço ou em emboscadas. Quando a estatística retrocede mais quatro anos, esse número sobe para quase 700 baixas (o dobro dos que entram agora). Em outra frente, a corrupção é um problema palpável – e de grandes dimensões. Nos últimos cinco anos nada menos que 900 soldados foram expulsos da corporação e outros 1 300 estão sendo investigados por conduta imprópria. Evidentemente, existem bons exemplos na força policial. Alguns deles dão demonstrações diárias de heroísmo e coragem. Mas não é segredo para o alto-comando da organização que um contingente considerável desses profissionais acha normal filar refeições em bares e restaurantes ou receber propina de um motorista infrator. Isso quando eles não saem às ruas, fardados ou não, para cometer crimes e atrocidades ainda maiores. "O recruta chega sem vícios", atesta Beltrame. "Mas temos de nos manter sempre vigilantes."
Fernando Peixoto, formado em educação física e morador de Botafogo: "Busquei o desafio"Na tentativa de blindar a nova turma contra as tentações de cada dia, alguns cuidados foram tomados. Primeiro na seleção dos aprovados. Todos os 30 000 candidatos tiveram a vida esquadrinhada. Os entrevistadores foram às moradias e falaram com amigos e parentes para traçar o perfil dos postulantes. Além disso, foram feitos exames toxicológicos nos alunos, capazes de detectar o consumo de drogas em um período de até seis meses. Em paralelo, as provas ficaram mais difíceis como uma forma de arrebanhar pessoas com formação escolar mais sólida. Cerca de 40% dos entrevistados ficaram para trás no exame escrito e, como resultado, 17% dos soldados têm nível superior – um recorde na história do curso. Daqui por diante, os cuidados não terminam. Ao contrário. Antes de reforçarem o efetivo de combate urbano, os formandos vão assumir uma posição estratégica e "segura". Eles serão destacados para as Unidades de Polícia Pacificadora (UPP), programa-símbolo da política de segurança do estado e presente hoje em cinco favelas da cidade. Até o réveillon, a novidade chegará a outras cinco localidades, e em 2016 estará em 126 morros do Rio. No plano das autoridades do estado, as UPPs são o melhor lugar para o início da carreira de jovens e idealistas aspirantes. "Quando você tem um investimento maior num processo seletivo, as oportunidades de corrupção são menores", ressalta Paulo Storani, antropólogo e professor da Candido Mendes.
Primeiro dia: os novatos passam por uma seleção rigorosa que inclui até exame toxicológicoMissão das mais difíceis, a mudança de mentalidade de uma corporação policial não só é possível como já foi realizada antes. Na década de 90, Nova York deixou de ser uma das cidades mais violentas do mundo para ostentar índices invejáveis de criminalidade, graças aos esforços do prefeito Rudolph Giuliani, que implementou o programa Tolerância Zero. Baseado no extremo rigor, o sistema instituiu penas mais pesadas para todos os delitos, reforçou o trabalho das corregedorias e simplesmente expurgou a banda podre da polícia. Ao fim da empreitada, quase 20% dos agentes haviam sido demitidos da corporação. Processo parecido aconteceu em Chicago nas décadas de 20 e 30, durante a vigência da Lei Seca. Dominada pelos contrabandistas de bebida, a cidade vivia em torno do crime organizado, com boa parte da lei na folha de pagamento dos bandidos (e qualquer semelhança não é mera coincidência). A solução passou também pela renovação. O agente Eliot Ness reuniu cinquenta homens de reputação inquestionável para enfrentar a Máfia liderada pelo gângster Al Capone. Alguns deles saíram direto da academia para fazer parte do grupo imortalizado como Os Intocáveis. Foi tão espetacular que, não por caso, a história virou filme.
Aulas no tatame: técnicas de defesa pessoal e imobilizaçãoToda grande mudança tem um começo. Mesmo quando ninguém acredita, quando a situação parece fora de controle, um grupo de pessoas resolutas pode fazer a diferença. Na turma de novos recrutas, vontade e determinação parecem não faltar. "Busquei o desafio", conta Fernando Henrique Peixoto Alves, 25 anos, morador de Botafogo, ao explicar sua opção. Formado em educação física, ele foi professor em colégios da Zona Sul, como o Sion e o Imaculada Conceição, e poderia ter seguido normalmente sua carreira, mas quis alterar o destino dramaticamente. O mesmo sentido de missão permeia boa parte dos formandos. "Não posso ficar só esperando a Segurança Pública fazer algo por mim. Eu vou fazer a minha parte", diz George Eisenstein, um dos alunos do início desta reportagem. "Estou realizando meu grande sonho", vibra Carla Batista, solteira, porque o namorado não aceitava sua escolha. Obcecados em fazer história, "os 300 de Beltrame" começaram a sacrificar a vida pessoal em busca de um ideal. Mas daqui por diante tudo ficará mais difícil e as cobranças vão aumentar. Afinal, esses novatos carregarão um fardo e tanto: ser o embrião de uma Polícia Militar honrada, que inspire e orgulhe o cidadão carioca. Vão conseguir? Quantos ficarão pelo caminho? O Rio, de dedos cruzados, torce por eles.
Mira certeira: os novos PMs dão 300 tiros com fuzis
e pistolas durante o curso de formação
Em busca do soldado perfeito
As principais mudanças no processo de seleção e formação dos PMs
ÊNFASE NO TIRO AO ALVO
Os recrutas faziam apenas 120 disparos durante o curso. Às vezes, menos. Agora dão em média 300 tiros com pistolas, espingardas e fuzis.
EXAMES RIGOROSOS
Os aprovados nos concursos para a PM são obrigados agora a fazer um exame toxicológico. Ele detecta o consumo de drogas nos últimos seis meses.
PREPARAÇÃO FÍSICA INTENSA
Houve um reforço nas aulas de educação física. Passaram de três para cinco vezes por semana.
REFORÇO TEÓRICO
Foram incluídas no currículo disciplinas como direito constitucional, direito administrativo e legislação penal militar.
MAIS AULAS
Para garantir maior carga horária em sala de aula, os novos PMs só vão para as ruas a partir do quarto mês de curso. Antes isso acontecia no segundo mês.
Fontes: Centro de Formação e Aperfeiçoamento de Praças (CFAP) e Centro de Recrutamento e Seleção de Praças (CRSP)