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11/11/2009
Comportamento

Viciados em endorfina

Sabrina Wurm

Para esses atletas amadores, desgastante mesmo é ficar um dia sem correr. Fanáticos, abrem mão de prazeres e compromissos, mas chegam a dar a volta ao mundo disputando maratonas

Ismar Ingber
Ana, Michele e Leila: brinde depois de quatro dias de competição entre São Paulo e Rio

A história da comerciária Cláudia Marchetti é emblemática de uma legião que cresce velozmente na cidade. Quando ela começou a correr, há seis anos, era fumante, sedentária e estava 15 quilos acima do peso ideal. O esforço enorme que fazia para dar uma simples volta no quarteirão quase a levou a desistir do esporte. Hoje, ela é grata à persistência, que possibilitou uma metamorfose radical em sua vida. Emagreceu, largou o cigarro e com quatro meses de treinamento já se arriscava em provas curtas. Pouco depois, passou a encarar longas distâncias e não parou mais. Aos 49 anos, conta cheia de orgulho ter completado as duas maratonas que disputou ao lado do marido, o professor de educação física Marcius Duarte. Com 5 000 inscritos, a 1ª Maratona Pão de Açúcar de Revezamento Rio de Janeiro, no próximo dia 15, dá bem uma ideia de como essa turma de fôlego ganha adeptos dia a dia. "Nossa expectativa é termos mais de 4 000 pessoas no ano que vem", aposta João Traven, diretor da Maratona da Cidade do Rio de Janeiro, que reuniu em junho 3 000 participantes em sua distância maior, além de 6 000 pessoas na disputa dos 21 quilômetros. Estima-se que existam na cidade 3 000 atletas acostumados a encarar os 42 quilômetros de asfalto. Para eles, distância não é obstáculo ao desafio, que muitas vezes tem um toque de compulsão. Mais de vinte atletas amadores embarcaram no Aeroporto Antonio Carlos Jobim para participar da Maratona de Nova York, no domingo passado (1º).

A trajetória desses diletantes das pistas costuma ser parecida. Eles começam a correr motivados pelo parceiro, por um amigo ou por indicação médica e sofrem um bocado no começo até se certificar de que o monstro não é tão apavorante assim. Cada vez mais facilmente, vão superando as barreiras: 2 quilômetros, depois 5, 10, 20, 25... Muitas vezes, vão do sedentarismo ao extremo oposto e passam a sofrer da síndrome de abstinência quando se veem obrigados a ficar um dia sem correr. Periga, também, reduzirem os compromissos sociais a fim de não comprometer o treinamento na manhã seguinte. A contadora Leila Bittencourt, 35 anos, é alvo de brincadeiras porque em festas só bebe água e vai embora sempre antes da meia-noite. "É uma mania, uma paixão. Vale a pena deixar a cerveja para depois de cruzar a linha de chegada", diz. Cerveja? Em um gesto raro, ela brindou com as parceiras – a analista de sistemas Michele Torres e a psicanalista Ana Augusta Brito – ao completar o Desafio 600K. Realizada há duas semanas, a prova de revezamento teve início no Parque do Ibirapuera, em São Paulo, e chegada, quatro dias depois, na Praia de Ipanema. "Difícil mesmo é abrir mão de boates na minha idade", constata o estudante de educação física Guilherme Andrade, 20 anos. É comum encontrar amigos voltando da balada ao chegar pontualmente às 7 horas à ciclovia da Lagoa para treinar.

Fernanda Paradizo

A turma de cariocas que disputou no domingo passado
(1º) a Maratona de Nova York: roteiro internacional

Se a badalação noturna inevitavelmente sofre algum tipo de prejuízo, a compensação vem dos novos relacionamentos que a pessoa passa a ter graças às pistas. Com suas paisagens e litoral deslumbrantes, o Rio incentiva qualquer um a pôr calção e tênis e sair em carreira pelas ruas. As academias de ginástica, com suas aulas a céu aberto, e as chamadas equipes de assessoria esportiva espalharam pela orla tendas de apoio aos atletas. Grupos como o Runners Club, o Speed e o Filhos do Vento concentram mais de 1 000 alunos, que pagam mensalidade de 100 a 150 reais. Em troca, recebem orientação no treinamento, ajuda nos exercícios de alongamento e têm à disposição durante as provas uma infraestrutura básica de auxílio. As grandes empresas também descobriram os benefícios da modalidade e incentivam seus funcionários a suar a camisa. Shell e Microsoft montaram equipes de corrida e, para motivar os empregados, pagam sua taxa de inscrição. "É uma forma de incentivar hábitos saudáveis e integrar os funcionários", afirma o engenheiro Robson Lagrotta, 50 anos, que organizou uma equipe de seu escritório para a Maratona Pão de Açúcar.

Profissional liberal, homem, entre 35 e 45 anos e com um passado de exageros à mesa. Esse é o perfil clássico do maratonista amador. A presença feminina, contudo, cresce rapidamente. Na primeira disputa do gênero ocorrida no Rio, em 1979, elas eram menos de 10% dos participantes. Três décadas depois, representam um terço dos inscritos nas provas longas. A dentista Vânia Wong e seu marido, o advogado Paulo Mendonça, começaram juntos e hoje não tomam decisões na carreira sem antes consultar o calendário de provas de rua. Programam viagens de acordo com as competições e já participaram de quatro maratonas internacionais das mais atraentes do mundo: Londres, Nova York, Chicago e Berlim, que foi a mais recente viagem feita pelo casal, em setembro. No começo do ano que vem, eles levarão a filha Juliana à Disney. Vão deixar o cronômetro no Brasil? Nada disso. Eles se inscreveram no Desafio do Pateta, que envolve uma meia e uma maratona completa disputadas no parque durante um fim de semana. "Deu para notar que somos viciados", confessa Vânia, com bom humor. A afirmação tem fundamento científico. Durante atividades físicas de longa duração, o organismo libera endorfina (veja quadro na pág. 29), substância que provoca a sensação de bem-estar. Porém, é bom não abusar e dedicar pelo menos um dia da semana ao descanso. Ultrapassar os limites pode causar fadiga muscular e aumentar o risco de lesões. Daí, os "pangarés", como são chamados os noviços no jargão da turma, jamais chegarão a "papa-léguas".

Ismar Ingber

O casal Cláudia e Marcius (em primeiro plano):
a corrida mudou a vida dela


Como reage o organismo

0 a 10 quilômetros – Nessa fase, o atleta aproveita para impor o ritmo planejado nos treinos. A cada 3 quilômetros, num ritual que deve se repetir até a linha de chegada, ele precisa beber três goles de água, para evitar a desidratação.

11 a 28 quilômetros – Com mais de uma hora de atividade física, produz-se em grande quantidade o hormônio betaendorfina, que adapta o corpo ao esforço, chega a eliminar dores e provoca a sensação de bem-estar. O corredor sente-se poderoso e capaz de superar os limites.

29 a 32 quilômetros – É a barreira crítica, pois o organismo já usou quase todos os estoques de energia. O fígado começa a produzir em menor quantidade uma substância chamada glicogênio, a principal reserva energética nas células. A glicose no sangue, proveniente da digestão dos alimentos, fica escassa.

33 a 42 quilômetros – Como dizem os maratonistas, os últimos 10 quilômetros separam os homens dos garotos. Cerca de 20% desistem por exaustão. Aumentam os riscos de lesões, cãibras e náuseas. É o período em que as condições climáticas mais influem.

 


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