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Home » Revista » Edição nº 1517 » O caminho para a vitória
04/11/2009Educação
O caminho para a vitória
Lívia de Almeida
Como estudantes de 4 a 15 anos – e seus
pais – enfrentam o desafio de ingressar
nas escolas mais concorridas do Rio
Ex-alunos do Colégio Martins: doze aprovados para as concorridas trinta vagas do CAp-Uerj
Eles têm 4, 6, 10 anos de idade e estão envolvidos numa competição bem mais tensa que o pique-pega no playground ou uma disputa de videogame. Só neste ano, milhares de estudantes mirins e adolescentes participam dos testes de seleção para ingressar em escolas de prestígio da cidade – um período de provas iniciado em outubro, que atinge o grau de ebulição em novembro. Não é exagero dizer que nenhum outro lugar do Brasil vive a situação de forma tão intensa quanto o Rio de Janeiro. Apesar de as instituições renegarem o termo "vestibulinho", os números são impressionantes. No Colégio de Aplicação da Uerj, 71 candidatos vão se enfrentar no próximo sábado (7) por uma vaga no 6º ano do ensino fundamental (veja quadro). Trata-se de uma disputa mais encarniçada que a do último vestibular de medicina da UFRJ, com 27 candidatos para cada aprovado. Como em toda competição, há vencidos e vencedores – o lado cruel da história. Existe uma possibilidade matemática, concreta, de que seu filho, sobrinho, neto ou afilhado fique de fora. Se isso acontecer, claro, não será o fim do mundo. Não faltam bons colégios nos quais as vagas estão disponíveis para qualquer interessado. Mas, se a ideia é conseguir a matrícula em um estabelecimento específico, seja por causa das boas avaliações no Exame Nacional de Ensino Médio (Enem), seja pela gratuidade da mensalidade – ou as duas coisas juntas –, existem alguns cuidados e preparação para essa jornada.
As lições de quem passou
A decisão de mudar de escola deve ser amadurecida com antecedência, para permitir que a criança ou o adolescente tenham tempo de se preparar para o processo. E, fundamental, tem de contar com o endosso deles.
É indicado examinar o programa e estudar pela bibliografia fornecida. As escolas costumam apresentar variações nos conteúdos, e é possível que determinadas matérias não tenham sido dadas na escola de origem.
Participar de um concorrido processo de seleção é uma decisão que envolve a família inteira. Pode ser necessário reforçar os estudos com aulas particulares, o que acarreta outras despesas, e em alguns casos ter de abrir mão de viagens de fim de semana ou férias.
É importante não transmitir nervosismo para o jovem postulante. Cobranças excessivas podem ser improdutivas.
Cursinhos e professores particulares ajudam o candidato não só a melhorar o conhecimento como a se habituar ao ritmo das provas.
Lembre-se: apesar de se tratar de concursos mais disputados até que o vestibular, seu filho continua sendo uma criança com necessidade de tempo para brincar ou participar de atividades com os amigos.
Veja também
Turma de vencedores
Selmy Yassuda
Breno com a mãe, Cláudia: cursinho para entrar
no Santo AgostinhoO primeiro, e o mais importante de todos, é separar algum tempo para acompanhar de perto a criança durante todo o processo. Atravessar um funil tão estreito exige sacrifício não só do estudante como de toda a família. Sem a participação, a mobilização e o apoio dos pais, dificilmente o candidato obtém sucesso. História lapidar é a da funcionária pública Cláudia Barbosa de Moura, que decidiu preparar seu filho Breno Calderoni, hoje com 12 anos, para o Santo Agostinho. Determinada, Cláudia se envolveu totalmente no desafio no ano passado. Pesquisou, comparou currículos e compareceu às provas. Não delegou nada a ninguém. Graças a seu empenho, ela descobriu, por exemplo, diferenças gritantes entre o programa da escola em que o menino cursava o 5º ano e o do colégio almejado. Naquele momento, decidiu lançar mão de um recurso que se provou importante: inscreveu Breno num curso preparatório, com quatro horas de português e matemática, três vezes por semana. No dia do exame, Cláudia ainda se recorda do frio na barriga ao ver tamanha aglomeração de concorrentes. Para ela, a história teve final feliz. Seu filho foi um dos quinze aprovados entre os quase noventa candidatos.
Selmy Yassuda
Dinâmica de grupo no Andrews com candidatos
ao 2º ano do ensino fundamental: coordenação motora
e percepção visual são habilidades necessárias
Ismar Ingber
Sulamy acompanha de perto o estudo
de Sofia e Eduardo: de olho no vestibulinho
Como a escola desejada costuma mesmo ser mais puxada – do contrário, a troca ficaria sem sentido –, largam em vantagem os candidatos que fazem uma preparação à parte. Pode parecer chocante, mas é uma realidade. A procura pelo aprimoramento fez florescer uma indústria de cursos e aulas particulares. Desde 2001, a educadora Cláudia Horta apronta meninos e meninas para os testes. Especialista em alunos de 5 a 7 anos, ela cobra 80 reais por sessão e já treinou cerca de 120 candidatos. "Os menores nem deveriam passar por isso, mas a disputa é mesmo complicada", reconhece. Em grande parte, o treinamento consiste em aguçar a percepção visual e desenvolver a coordenação motora dos pequenos. Por meio de atividades rotineiras, como jogar bola, Cláudia procura transmitir alguns conceitos exigidos nas avaliações. A partir do 1º ano, começa o reforço de conteúdo, que varia muito dependendo da prova. No 2º ano, na maioria dos estabelecimentos, é necessário conhecer os números até 99. No Santo Agostinho, deve-se saber lidar com a contagem até 999. "Um menino que se apronta para o 2º ano do Santo Agostinho poderia perfeitamente passar para o 3º de qualquer outro lugar", afirma a professora. Não é fácil. Muitas vezes, viagens de fim de semana ou férias precisam ser postergadas em nome de um objetivo maior. Foi o caso da funcionária pública aposentada Sulamy Andrade, mãe de Eduardo, 11 anos, e Sofia, 12, candidatos a ingressar no São Bento e no Santo Inácio. Para ajudar a filha, ela desembolsou 550 reais mensais em aulas de matemática e redação. "Vai valer a pena", diz.
Fernando Lemos
Marta e o filho Leonardo: susto na hora
da avaliação
Exigências para a matrícula em escolas renomadas, de ordem financeira ou em relação à capacidade intelectual da criança, sempre existiram. Mas todos os especialistas concordam que a disputa começou a se acirrar mesmo na última década. O fator determinante foi o advento do Enem, em 1998. Historicamente, alguns dos melhores colégios do país se encontram na cidade. Não havia, porém, um ranking de comparação. A percepção de que uns são, de fato, melhores que os outros estimulou, por exemplo, a procura na chamada "santíssima trindade": gigantes como São Bento, Santo Agostinho e Santo Inácio, normalmente bem avaliados no exame. Com a divulgação dos resultados, os pais começaram a buscar nessas escolas a melhor educação possível para seus filhos. "Precisava preparar meus filhos para a realidade", diz Sueli Voltarelli, mãe de Maria Vittoria, 12 anos, e Leonardo, 11, ambos calouros do Santo Agostinho. "A realidade é que eles daqui a alguns anos terão de prestar vestibular." Para ingressar no 1º ano do ensino fundamental do Santo Inácio, nesta temporada foram onze postulantes por vaga. No total, 1 200 inscrições. Leonardo Rezende Folleto, 5 anos, passou na peneira. "Só na hora eu me dei conta de quanta gente queria a mesma coisa", conta a mãe do garoto, Marta Rezende. "Disse a ele que estava lá para brincar, e não para ser testado."
Fernando Lemos
Sueli (centro), com Maria
Vittoria e Leonardo, calouros
do Santo Agostinho: choque
de realidade
Dado o grau de dificuldade de alguns vestibulinhos, recomenda-se uma preparação antecipada, ainda no princípio do ano, correndo em paralelo com as atividades escolares convencionais. Há estabelecimentos de ensino que crescem porque oferecem as duas coisas. Com uma unidade em Vila Isabel e uma no Méier, o Colégio Martins tornou-se porta de entrada para os resistentes bastiões do ensino público: o Colégio de Aplicação da Uerj e o da UFRJ, ambos gratuitos. No Martins, a vida não é fácil. Os alunos se submetem regularmente a simulados e estudam horas a fio. Apesar de massacrante, o sistema parece funcionar. Em 2008, seus representantes ficaram com quase a metade das trinta vagas do CAp-Uerj. No exame marcado para o próximo sábado (7), eles estarão entre os 2 137 candidatos. Passar em um funil tão concorrido demanda nota superior a 84,75 (em 100 pontos possíveis) e conhecimentos como a interpretação da prosa de Guimarães Rosa. "É um concurso que não admite erros", enfatiza André Pereira, coordenador das turmas do Curso Radical, em Botafogo.
Fernando Lemos
Curso Radical, em Botafogo: reforço para quem vai
passar pelo processo de seleção
Fernando Lemos
Sílvia: apoio e dedicação
para enfrentar as provas
Não existem facilidades em processos de admissão tão duros – mas há, sim, algumas janelas. Em geral, os três momentos mais propícios para o ingresso de novos alunos são o 1º ano (antigo CA), o 6º do ensino fundamental e o 1º do ensino médio, equivalente ao começo do antigo 2º grau. Quase todas as escolas oferecem mais vagas a estudantes nessas fases. Fora essas séries específicas, a oferta costuma ser escassa. Com tão poucas oportunidades, a decisão de competir nos testes do gênero deve ser tomada sem perder de vista as características da criança. Não é qualquer uma que está pronta para suportar tantas atribuições e uma jornada tão exaustiva. "Se ela já tem dificuldades para dar conta dos deveres convencionais, não é realista submetê-la subitamente a um elevado padrão de exigência", analisa a psicóloga Suely Duèk, especialista em atendimento infanto-juvenil. Há também a ansiedade natural dos pais, e é fundamental mantê-la sob controle. "Os pais não querem passar nervosismo, mas ninguém é perfeito", admite Gisele Pimentel de Souza, consultora de comércio exterior e mãe de Sílvia Arpon de Seixas, 12 anos, que ingressou no ano passado no Santo Inácio. Mas, sejam aprovadas ou não, o fundamental é dar colo, independentemente do resultado. Afinal, são apenas meninos e meninas.
To be or not to be?
Com o avanço da globalização, os colégios bilíngues se tornaram uma opção ainda mais interessante – mas não para todas as crianças
Selmy Yassuda
Alunos da Escola Americana: inglês impecável, mas desempenho fraco no Enem
Criadas originalmente para abrigar os filhos de estrangeiros, as escolas bilíngues se transformaram em objeto de desejo das famílias cariocas que podem pagar por elas. Não é difícil entender as razões de tal fascínio. Estudar numa instituição desse tipo traz, de fato, vantagens evidentes para a criança. Entre elas, fluência em dois ou três idiomas, currículo adequado para ingressar em universidades do exterior e uma rede de amigos espalhada pelo mundo. Para quem busca uma educação globalizada, dificilmente há alternativa melhor. Estima-se que metade dos alunos formados nesses colégios deixe o Rio de Janeiro em busca de um diploma lá fora. Nem sempre, porém, é o melhor caminho. Tudo vai depender de algumas escolhas que serão feitas mais adiante, como a carreira e a decisão de sair ou não do país. Se a ideia dos pais é simplesmente proporcionar o domínio de uma língua estrangeira, existem maneiras mais baratas e com menos, digamos, efeitos colaterais. "Nosso objetivo não é o vestibular ou o Enem, e sim o Bac, o exame de ingresso nas universidades francesas", esclarece Jean Stephan, diretor do Liceu Molière. "Aqui vamos prepará-los de acordo com nossa cultura."
Veja também
A busca por uma
educação globalizada
Celebrado como trunfo no mundo de hoje, o ensino predominante em língua estrangeira traz, por exemplo, algumas dificuldades para os alunos que desejam cursar uma faculdade no Brasil. No Exame Nacional de Ensino Médio (Enem), apenas a Escola Alemã Corcovado e a Suíço-Brasileira costumam aparecer entre as vinte melhores da cidade. As outras se saem pior. No último teste realizado, a Escola Americana cravou apenas a 115ª posição entre os colégios cariocas. Tal desempenho provoca uma situação inusitada. Muitas vezes, o estudante é obrigado a fazer aulas de reforço para passar no vestibular. Isso se deve em grande parte à proposta das escolas. Desde o jardim de infância, as aulas em português são poucas, geralmente limitadas a matérias como geografia e história do Brasil. Em alguns estabelecimentos, nem elas são ministradas em português. Na Escola Britânica, todo o conteúdo é oferecido em inglês. "Estudos comprovam: aprender dois idiomas ao mesmo tempo ajuda a desenvolver o cérebro", defende o diretor brasileiro da Corcovado, Valdir Rasche.
Selmy Yassuda
Em dúvida: Luciana e Fabiano discutem
a melhor escolha para as filhas
Com duas meninas prestes a entrar em idade escolar, o empresário Fabiano Niederauer e a estilista Luciana Saiter vivem um dilema. "O contato com a cultura europeia, a disciplina rígida e os bons relacionamentos nos atraem", afirma Niederauer. "No entanto, é preciso levar em consideração o custo alto e a preparação para os vestibulares, não tão forte quanto poderia ser." O dinheiro é uma questão importante na equação. Matricular a criança em uma escola bilíngue exige um bom investimento. As mensalidades vão de 1 200 a 4 800 reais (veja o quadro) Além disso, a maioria cobra o pagamento de uma taxa de admissão, camuflada sob o título de "despesas" ou "ingresso na associação de pais". O montante pode variar de 6 500 a 17 688 reais – o francês Liceu Molière, em Laranjeiras, é o único que não a cobra. "Nossa mão de obra é extremamente especializada", afirma Everardo Candido da Silva, diretor administrativo-financeiro da Escola Suíço-Brasileira. "Um terço de nossos professores vem da Suíça. Tem gente com salário de 10 000 reais."Apesar das dúvidas, as escolas crescem de forma consistente. Hoje, o universo de matriculados já chega a 5 000 – e quase dois terços desse total são brasileiros. A expansão tem acontecido rapidamente. Na última década, a Escola Britânica somou à tradicional sede de Botafogo as filiais na Urca e na Barra da Tijuca. É a maior de todas, com 1 770 alunos. A Suíço-Brasileira também ganhou novo fôlego ao trocar, em 2005, uma inóspita construção em Santa Teresa, cercada de favelas, por um prédio novo na Barra: passou de 140 para 420 estudantes. Pelo lado dos estudantes do exterior, o crescimento econômico do país deu uma forcinha. Para atender à demanda dos empregados da indústria petrolífera no norte do estado, a Escola Americana abriu, no ano passado, uma filial em Macaé. Quarenta alunos já estão matriculados, somando-se aos 830 da sede, na Gávea. "A Copa do Mundo e a Olimpíada vão atrair mais estrangeiros para cá e aumentar a procura por nossas escolas", acredita a diretora de admissão da Escola Americana, Caren Addis. Para quem vem de fora, faz todo o sentido. Os pais brasileiros, porém, precisam pensar bem antes de fazer a escolha.