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21/11/2007
Crônica

E se o Brasil fosse o Flamengo?!

As coisas boas também acontecem", ponderou dia desses Elio Gaspari, uma espécie de deus do jornalismo brasileiro, em artigo ganchado na desconfiança instantânea que o anúncio das descobertas de petróleo na Bacia de Santos despertou em muita gente leiga no assunto. Motivações políticas à parte, a verdade é que o brasileiro não acredita mais em boas notícias de uma forma geral, venham elas de Brasília ou da padaria da esquina. Esse negócio de pesar o pãozinho francês, por exemplo, não sei não, o consumidor desconfia que algo possa ser feito em seu benefício. Alguém por acaso comemorou na semana passada a queda na tarifa de energia elétrica no Rio de Janeiro? Nenhuma notícia é suficientemente boa diante da sensação de que, no fim, vai dar tudo errado à nossa volta. É o complexo de vira-lata de que falava Nelson Rodrigues, sentimento que, acrescenta Elio Gaspari, "tira às pessoas o prazer do êxito".

O brasileiro tomou gosto pela epopéia da derrota. Perdeu, playboy, perdeu! Conta até com certo entusiasmo como foi que perdemos dinheiro, crédito, oportunidades, emprego, lugar na fila, a compostura e a namorada. Já era a dignidade, o Rolex, a carteira, a correntinha de pescoço, a bolsa ou a vida. Chove no feriadão, há balas perdidas por toda parte, vai faltar gás para automóveis, no leite não dá mais para confiar, duvida-se até de prova do vestibular. Eu, você, Henry Sobel, Júlio Lancelotti, Rebeca Gusmão e o Nasi do Ira! somos todos uma fraude. O filho do vizinho de hoje será o traficante de amanhã. Tem mais: a inflação voltará, vem aí o terceiro mandato, cairão os aviões, subirão os oceanos, a Justiça mandará soltar, sua empresa vai quebrar, enfim, só falta o pneu furar, o plano de saúde não te reembolsar, a malha-fina te pegar e o mosquito da dengue te picar.

Calcula-se que, somados aos que não acreditam em nada os que acreditam em qualquer coisa, especialmente as ruins, dois terços da população brasileira estejam contaminados por esse estado de espírito derrotista endêmico. A rigor, só escapam da estatística em questão os torcedores do Flamengo, responsáveis pelas raras manifestações coletivas de alegria contagiante a que assistimos em 2007, algumas delas com o time jogando abaixo da crítica na zona de rebaixamento do Brasileirão. "Que torcida é essa?!" – canta para si mesmo. Sabe, modéstia à parte, que levou o time nas costas tabela acima. Transformou Obina de piada em um jogador que não tem o direito de decepcionar as multidões que o comparam aos maiores craques do mundo. O que restou da chamada consciência de massa no Brasil veste vermelho e preto e opera milagres.

Deus é justo! Se não deu ao time do São Paulo uma torcida como a do Flamengo, também não deu ao Flamengo um time como o do São Paulo. Quando tricolores paulistas e rubro-negros cariocas pararem com essa discussão ridícula sobre quem foi penta primeiro, vão ver que só têm motivos para festa em 2007. O São Paulo, pelo que mostrou em campo; o Flamengo, pelo que mostrou na arquibancada.

É a força da vontade popular! No país da descrença, a nação rubro-negra fez renascer o exercício da fé. A fé que um dia moveu montanhas pode agora levar aquele timinho sem-vergonha à Libertadores da América de 2008. Imagina se tal energia transformadora vigorasse no relacionamento do carioca com sua cidade, do fluminense com seu estado, do brasileiro com seu país! Imagina só se os governantes municipais, estaduais e federais dessem ouvidos às arquibancadas que cercam o poder. Quem dera!

Com bronca dos políticos, neguinho acaba quase sempre torcendo contra sua própria bandeira, como no futebol em geral também fazem as torcidas quando seus times estão abaixo da crítica e da ação nefasta da cartolagem. A regra é clara e a exceção é rubro-negra.

Há quase quinze anos sem conquistar um título nacional verdadeiramente importante, sublimando administrações que viraram caso de polícia, o Flamengo vem multiplicando seu rebanho país afora, ainda que, depois do Zico, nunca mais tenha tido um time como o do São Paulo desses últimos anos. Não importa! Não há cabeça-de-bagre que não se contagie com a crença da "raça" em seu futebol. Os cartolas do clube, num momento de rara lucidez, aposentaram a camisa 12, que é dela, da torcida rubro-negra, a melhor coisa do Brasileirão, eu diria até que mais sensacional do que o time do São Paulo.

Uma pena que o Brasil não seja o Flamengo – e vice-versa. Cá para nós, eu adoraria ver essa torcida maravilhosa na segunda divisão.

e-mail: tuttyvasques@uol.com.br


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