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Home » Revista » Edição nº 1080 » Álbum de aniversário
04/03/2009Rio, 444 anos
Álbum de aniversário
Com seu amplo e bem preservado acervo de fotos,
o Instituto Moreira Salles guarda as imagens que ajudam a contar a história da cidadeLívia de Almeida
PORTA DE ENTRADA
Do alto do Morro da Conceição, Marc Ferrez registrou o movimento
das embarcações que chegavam ao porto do Rio de Janeiro em 1893.
Ao redor, os bairros da Saúde e Prainha
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Galeria de imagens
Era uma vez uma cidade onde uma igrejinha do século XVIII, encarapitada na pedra, saudava Nossa Senhora de Copacabana. Carroças se enfileiravam sem cerimônia em uma praça central como se aguardassem um choque de ordem. Bondes elétricos atravessavam o areal à beira-mar. E sua bela baía vivia tomada por dezenas de veleiros e vapores vindos de todos os cantos do mundo. Tais lembranças pertencem a um passado já distante do Rio de Janeiro, fundado no dia 1º de março de 1565 – 444 anos neste domingo –, mas fartamente documentado em soberbos registros fotográficos realizados a partir da metade do século XIX. "No Brasil, não existe cidade mais retratada que o Rio de Janeiro", afirma Sérgio Burgi, coordenador da área de fotografia do Instituto Moreira Salles. "No mundo, só perde para Paris."
ANTES DO FORTE
Na foto de Marc Ferrez, dois homens contemplam o mar de Copacabana, na área hoje conhecida como Posto 6. Sobre a pedra está a igreja de Nossa Senhora de Copacabana, construída na primeira metade do século XVIII e demolida em 1918, após a inauguração do Forte de CopacabanaNa sede carioca do IMS, erguida nos fundos do terreno de 10 000 metros quadrados da antiga mansão do banqueiro e embaixador Walther Moreira Salles projetada pelo arquiteto Olavo Redig de Campos, na Gávea, foi construída há nove anos uma espécie de bunker de três andares com paredes duplas e 600 metros quadrados de área. Fica ali grande parte do acervo fotográfico do instituto, que é a maior coleção particular da cidade, com 550 000 imagens. Dessas, 150 000 acompanham as transformações da paisagem carioca. No aniversário da capital, Veja Rio publica fotos inéditas dessa coleção, que engloba o trabalho dos mais importantes autores da fotografia brasileira dos séculos XIX e XX e, de quebra, acompanha a evolução urbana dos principais centros do país. Viaja-se, assim, de uma pequena corte de ruas estreitas, escravos e sinhazinhas até uma metrópole que festeja os sinais do progresso com a movimentação de seu aeroporto e as linhas arrojadas daquele que nasceu como o maior estádio de futebol do mundo.
ESTACIONAMENTO DE CHARRETES
Veículos parados no Largo do Paço, atual Praça Quinze, em foto que Marc Ferrez fez por volta de 1890. No fundo, a antiga fachada da Igreja de Nossa Senhora do Carmo da Antiga Sé, cuja torre foi reconstruída com mais altura em 1897. Outro detalhe é o passadiço que servia de ligação entre o Convento do Carmo (à esq.) e a igreja, usado pela família real desde os tempos de dom João. Coleção Giberto FerrezO acervo começou a ser montado em 1995, com 2 250 imagens. Três anos depois, já reunia 40 000, após a aquisição da coleção Gilberto Ferrez, com 15 000 itens, entre eles o arquivo completo do fotógrafo Marc Ferrez, um conjunto de 4 000 negativos em vidro no formato 18 por 24 centímetros e material produzido pelos grandes fotógrafos em atividade no país no século XIX, como Augusto Stahl, Revert Klumb, George Leuzinger e Juan Gutierrez. No bunker da Gávea, os negativos de vidro ficam guardados em salas onde a temperatura jamais ultrapassa os 16 graus centígrados e a umidade é controlada entre 40% e 45%. Os negativos de acetato, mais recentes e extremamente perecíveis, das décadas de 40 a 60, precisam ser mantidos em ambiente com temperatura negativa para frear o processo de deterioração. Lá também estão o acervo pessoal de Marcel Gautherot (1910-1996), francês que viajou pelo país registrando a cultura popular e o trabalho dos arquitetos modernistas; do húngaro Carlos Moskovics (1916-1988), cronista da sociedade e da cultura carioca; e de José Medeiros (1921-1990), um dos nomes do fotojornalismo brasileiro. Boa parte de todo o material vem se tornando acessível ao público. Até junho, estarão na internet (www.ims.com.br) 10 000 imagens. Muitas delas podem ser vistas em exposições e livros. Desde 1999, quando a mansão da Gávea abriu as portas como centro cultural, aconteceram 45 mostras e foram lançadas vinte publicações.
OS MESMOS ARCOS
Eles continuam lá, mas a paisagem da Lapa na virada do século XX, flagrada por Marc Ferrez, pouca semelhança tem com o bairro boêmio de nossos dias. O bonde elétrico que corre sobre os arcos, sinal do progresso, convivia com uma paisagem de casebres e ruas de chão batidoO mais recente reforço ao acervo veio no fim do ano passado, com a coleção de dom João de Orleans e Bragança, composta de 800 fotos da família imperial antes e depois do exílio, mais 200 negativos em vidro. "Trata-se de um material de caráter muito pessoal, trazendo em alguns casos dedicatórias", diz Burgi. No momento a coleção está sendo organizada, inventariada e higienizada. Na fase seguinte, as imagens serão escaneadas em baixa resolução para permitir o acesso e a consulta. Depois, as cópias e os negativos serão restaurados e digitalizados em altíssima resolução, o que permite, por exemplo, que se recuperem informações até de placas de rua quase imperceptíveis. No caso da coleção de dom João, o processo deve ser acelerado, pois o IMS planeja apresentá-la em uma grande exposição no próximo ano.
O BONDE DE COPACABANA
A Rua Barata Ribeiro, uma das principais vias de Copacabana, não passava de uma trilha aberta em meio a um areal, por onde circulavam os bondes em 1906. Esta foto, de autor desconhecido, fazia parte do material publicitário de uma empresa que vendia lotes no bairro no início do século XXNem tudo, é claro, tem origem tão aristocrática. Um conjunto de 150 fotografias do fim do século XIX, doado pela família do engenheiro José Baptista Barreira Viana, conta uma história pitoresca. Fotógrafo amador, morador da Tijuca, ele documentou a construção da casa de veraneio da família no remoto areal de Ipanema, por volta de 1897. Foi uma das primeiras da região. À beira da Praia do Arpoador, a casa seguia os padrões da época. A entrada e as áreas sociais ficavam de costas para o mar. A área de frente para a praia – um dos metros quadrados mais caros do Brasil nos dias de hoje – era reservada para o pomar e o galinheiro.
PAISAGEM BUCÓLICA
A sempre engarrafada Rua das Laranjeiras era um paraíso no início do século XX, como mostra a foto de Marc Ferrez, que mirou sua lente na direção do Cosme Velho. Ao fundo, o Morro Dona Marta e o Corcovado. Da coleção Gilberto Ferrez
FESTA EM SÃO CRISTOVÃO
Em 11 de novembro de 1906, no auge da temporada do bota-abaixo capitaneada pelo prefeito Pereira Passos, é inaugurada a versão reurbanizada do Campo de São Cristóvão, com lagos e jardins adornados por esculturas de ferro fundido e um coreto. Foto de Augusto Malta, coleção Brascan
DE TERNO, GRAVATA E CHAPÉU
O francês Marcel Gautherot fotografou o Rio do fim da década de 30 aos anos 80. Seu acervo pertence ao Instituto Moreira Salles desde 1999 e guarda muitas surpresas. A foto do Maracanã com torcedores de terno, gravata e chapéu, na década de 50, foi ampliada a partir de miniaturas arquivadas pelo próprio fotógrafo
NAS ASAS DA PANAIR
O Aeroporto Santos Dumont foi o primeiro do país dedicado à aviação civil. Nesta foto, de autor desconhecido dos anos 50, uma lembrança dos tempos da Panair, quando ainda se podia assistir à chegada dos voos do saguão principal. Da coleção Brascan
TRAMPOLIM DO DIABO
Avenida Niemeyer: a partir de 1933, ela serviu de cenário para as chamadas corridas de baratinha, como a desta foto da década de 50, do acervo Brascan. Por suas curvas sinuosas, o percurso ficou conhecido como Trampolim do Diabo. A última competição do tipo ocorreu em 1954