SEMANA FARROUPILHA

Ah! Eu sou gaúcho

Dezesseis coisas bem típicas dos pampas que é de cair os butiá do bolso

Por do sol no Guaíba: o mais lindo do mundo segundo os gaúchos (Foto: Bethina Baumgratz)

Por do sol no Guaíba: o mais lindo do mundo segundo os gaúchos (Foto: Bethina Baumgratz)

18.set.2015 14:59:42 | por Bethina Baumgratz, para Veja Porto Alegre

Há quem diga que o Rio Grande do Sul, com tantos costumes próprios, é praticamente um outro país dentro do Brasil. Exagero sim, mas nem tanto: existe todo um jeito gaúcho de viver e de falar, que fica ainda mais exacerbado neste dia 20 de setembro, o Dia do Gaúcho, quando se comemora os ideais da Revolução Farroupilha. Listamos dezesseis coisas bem típicas dos pampas que é de cair os butiá do bolso.

 

1. Lagartear ao sol

 

Largatear ao sol: ritual nos pampas

 

Um dos programas favoritos dos gaúchos no inverno é, sem dúvida, lagartear. Basta o dia estar ensolarado e a temperatura baixa que lá estão eles, estirados ou sentados nos gramados sob o sol, aquecendo o corpo preguiçosamente. Depois do almoço é a hora perfeita para fazer o ritual. Melhor ainda se for comendo “berga” ou tomando chimarrão.

 

2. Comer (e entender sobre) bergamota

 

Não é tangerina, não é mexerica: é bergamota! (Crédito: André Spinola e Castro)

 

A bergamota é um ícone do inverno do Rio Grande do Sul. E os gaúchos, além de gostarem de descascar a fruta para saborear nos dias mais frios do ano, se consideram entendedores do assunto. Cuidado! Eles podem até olhar com desprezo quem denomina a “berga” diferente, como tangerina ou mexerica. A queridinha dos sulistas, em época de safra, também entra em diferentes receitas, como no bolo chamado quadrado de bergamota, do Valkiria Café - boa saída para quem quer sentir o gostinho da fruta sem dar na cara o que comeu – afinal, que cheiro inconfundível, hein!

 

3. Tomar chimarrão

 

Chimarrão: a gurizada começa cedo (Foto: Bethina Baumgratz)

 

Amigos reunidos na praça dividindo uma cuia de chimarrão é cena corriqueira no Rio Grande do Sul. A verdade é que onde tem gaúcho, tem chimas: no parque, em casa, no trabalho, na sala de aula, na praia ou em viagens. O hábito de sorver a bebida, aliás, perdura até nos dias mais quentes do verão! Não é por acaso que espaços públicos e postos de combustíveis estão cada vez mais preocupados em instalar “chimarródromos”, equipamentos que fornecem água quente de graça e fazem a alegria da gauchada.

 

4. Preparar churrasco no domingo

 

Churras: almoço de domingo sem miséria

 

Gaúcho que é gaúcho acorda no domingo pronto para o “churras”: prepara a carne no espeto sobre a brasa, reúne os amigos ou a família e faz do almoço um verdadeiro evento. Acompanhado de cerveja, com música ou um futebolzinho na TV, o churrasco é praticamente um ritual no Rio Grande do Sul. E para deixá-lo ainda mais legítimo, tem que se abrir os trabalhos com salsichão, coração de frango com farinha e pão com alho.

 

5. Comer xis coração

 

Xis coração: bah, como gaúcho ama isso! (Foto: Bethina Baumgratz)

 

Cheeseburger é coisa de americano. Nos pampas, se come xis. Essa delícia é prensada antes de ir à mesa, deixando todos os ingredientes bem misturados, e pode ser encontrado em diferentes versões (o que muda, na verdade, é basicamente só o tipo de carne). A receita mais icônica é a do xis coração, que tem, obviamente, coração de frango e outros recheios, como queijo, maionese, alface, tomate, milho e ervilha.

 

6. Deliciar-se com pão com chimia...

 

Schmier, chimia...: só não pode falar geleia! (Foto: Alex Silva)

 

Que geleia que nada! No Rio Grande do Sul, o doce de frutas que se passa em cima do pão tem nome alemão: schmier, mas que aportuguesado virou chimia. A diferença do produto gaúcho para a geleia é mínima. A chimia só é mais consistente, pois costuma ser preparada com o bagaço ou com as cascas da fruta, além do suco.

 

7. ...e com cuca!

 

Cuca de uva: receita alemã incorporada ao dia a dia dos gaúchos (Foto: André Fortes)

 

Os sulistas também incorporaram à culinária da região a cuca, outra receita tradicional da Alemanha. É uma espécie de pão doce coberto por farofa crocante que pode levar diversos recheios, como doce de leite, coco, chocolate ou frutas. Um verdadeiro desbunde dos pampas!

 

8. Pedir sagu com creme de sobremesa

 

Sagu com vinho: sobremesa do coração (Foto: Bethina Baumgratz)

 

Como assim no resto do Brasil não se come sagu ao vinho com creme de baunilha? Onipresente nos restaurantes gaúchos, a sobremesa costuma conquistar também o coração de quem visita o Estado. A receita lembra o gostinho caseiro de sobremesa da vovó, assim como outros doces queridos pelos sulistas: ambrosia e arroz de leite.

 

9. Visitar os países vizinhos

 

Monumento Los Dedos na Praia Brava, em Punta del Este: o Uruguai é logo ali

 

Atravessar as fronteiras e passar uns dias no “estrangeiro” é sempre uma boa pedida para os gaúchos. Com o Uruguai e a Argentina logo ali do lado, e com cultura e clima semelhantes, é para lá que eles vão para pescar, passar um feriadão ou fazer umas compras.

 

10. Ter orgulho da sua terra

 

Orgulho: sempre com a bandeira e o hino na ponta da língua 

 

Os gaúchos cantam o hino rio-grandense sem gaguejar e levam consigo a bandeira do seu Estado para tudo quanto é canto: em viagens, jogos de futebol, shows e outros eventos. Para eles, o estado é melhor em tudo: orgulham-se por títulos reconhecidos (a praia mais extensa do mundo, Cassino; o maior cânion da América Latina, Itaimbezinho) e até pelos não-reconhecidos (o por do sol mais bonito do Brasil, no Rio Guaíba; as mulheres mais lindas do mundo; e tantos outros).

 

11. Ser bairrista

 

 

Polar: item obrigatório do churras (Foto: Divulgação)

 

Além de orgulhosos, os gaúchos também são bairristas e fazem questão de enaltecer os produtos regionais. Para eles, guaraná é Fruki, cerveja é Polar, salgadinho é Pastelina e doce de leite é Mu-Mu.

 

12. Comemorar intensamente o feriado estadual

 

Acampamento Farroupillha: festa o mês inteiro (Foto: Ricardo Barcellos)

 

Ter apenas um dia do ano para celebrar sua história, cultura e tradição não é o suficiente para o povo gaúcho. A Revolução Farroupilha, lembrada oficialmente no feriado de 20 de setembro, para muitos, é motivo de comemoração o mês inteiro. Nos acampamentos farroupilhas realizados em diferentes cidades do Estado, em que grupos se reúnem para cultivar hábitos tradicionalistas, a movimentação já inicia cedo, no começo de setembro.

 

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13. Falar "tu" ao invés de "você"

O gaúcho se expressa com um linguajar peculiar que facilmente denuncia sua origem. Usar o pronome “tu” ao invés do “você” talvez seja o ponto mais característico. Mas quem disse que a conjugação tem que ser correta e não pode simplesmente seguir a regra do “você”? No dia a dia, o mais comum é ouvir o verbo ser conjugado na terceira pessoa mesmo: “tu gosta”, “tu quer”, “tu faz”.

 

14. Praticar o “gauchês”

 

(Foto: Ricardo Barcellos)

 

Assim como o “tu”, as interjeições “bah” e “tchê” são a marca do povo gaúcho. As duas têm uma infinidade de significados, podendo expressar diferentes sentimentos ou impressões. Quando estão felizes, surpresos, descontentes, espantados, aflitos ou até mesmo quando não sabem o que falar os gaúchos falam “bah”, dando uma ênfase diferente para cada significado. Já “tchê” é mais usado para chamar alguém (“Como vai, tchê?”) ou no início ou final de frases, com o objetivo de enfatizá-las. Pra complicar ainda mais, também se ouve muito no Rio Grande do Sul as expressões “capaz” (que não tem relação com o substantivo capacidade!) e “mazá”. Dentre tantos sentidos que possui, “capaz” muitas vezes quer dizer “ora, deixa disso”; já “mazá” indica admiração, contentamento e surpresa. “Mazá, parabéns pelo noivado, tchê”.

 

15. Usar expressões próprias...

No Rio Grande do Sul, “dar uma banda” significa fazer um passeio; estar “em cima do laço” é o mesmo que estar com pressa ou atrasado; “se fazer (de louco ou de salame)” é se fingir; “largar de mão” quer dizer desistir, parar de insistir; “bunda-mole” é a pessoa covarde, medrosa; e “cair os butiá do bolso” remete a espanto, indignação ou surpresa.

 

16. ...e palavras também!

 

Torrada: gaúchos chamam misto quente de torrada (e não entendem como torrada pode ser um pão sem nada)

 

“Torrada”, nos pampas, é o nome dado ao misto quente, “trovador” é a pessoa mentirosa, exagerada ou que paquera, “atucanado” é alguém preocupado ou atarefado, e “rancho” são as compras feitas no supermercado. Sim, quando vão ao supermercado, eles dizem: “Vou fazer o rancho”! Tem mais: para os gaúchos, “baita” é o mesmo que grande, “bruxo” significa mano, cara ou amigo, “aipim” é mandioca e “pila” refere-se a real. Ah, fraldinha, o corte de carne, é chamado de “vazio”, semáforo também pode ser “sinaleira”, garoto e garota é “guri” e “guria”, algo ruim é “palha”, legal fica “tri”, pão francês chama-se “cacetinho” e brigadeiro, negrinho.

 

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