Sexta-feira, 26 de Setembro de 2008

Poemas visuais

Em cartaz até 23 de novembro, a exposição Alécio de Andrade exibe 265 imagens feitas pelo fotógrafo carioca que viveu em Paris por quase quarenta anos e lá morreu, em 2003. Profissional com passagens pela prestigiada agência Magnum, do mestre Henri Cartier-Bresson, Alécio de Andrade foi um mestre da fotografia ? e também foi, muitas vezes, o homem certo no lugar certo, diante de personalidades como Pelé e o dramaturgo Jean Genet, ou de acontecimentos como o funeral do filósofo Jean-Paul Sartre. De seu talento ,as imagens expostas no Instituto Moreira Salles, na Gávea, dão fortes provas. Para que não restem dúvidas, segue, abaixo, um poema sobre o artista e sua obra escrito por Carlos Drummond de Andrade.

(título)
O que Alécio vê

A voz lhe disse ( uma secreta voz):
- Vai, Alécio, ver.
Vê e reflete o visto, e todos captem
por seu olhar o sentimento das formas
que é o sentimento primeiro - e último - da vida.

E Alécio vai e vê
o natural das coisas e das gentes,
o dia, em sua novidade não sabida,
a inaugurar-se todas as manhãs,
o cão, o parque, o traço da passagem
das pessoas na rua, o idílio
jamais extinto sob as ideologias,
a graça umbilical do nu feminino,
conversas de café, imagens
de que a vida flui como o Sena ou o São Francisco
para depositar-se numa folha
sobre a pedra do cais
ou para sorrir nas telas clássicas de museu
que se sabem contempladas
pela tímida (ou arrogante) desinformação
das visitas,
ou ainda
para dispersar-se e concentrar-se
no jogo eterno das crianças.

Ai, as crianças... Para elas,
há um mirante iluminado no olhar de Alécio
e sua objetiva.
(Mas a melhor objetiva não serão os olhos
líricos de Alécio?)
Tudo se resume numa fonte
e nas três menininhas peladas que a
contemplam,
soberba, risonha, puríssima foto-escultura de
Alécio de Andrade,
hino matinal à criação
e a continuação do mundo em esperança.

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Segunda-feira, 25 de Agosto de 2008

João Gilberto II

Mais sobre o João. Na porta do Municipal, ontem à noite, cambistas fizeram a festa. Cercaram eventuais compradores de um jeito assustador, disputaram a clientela com a grosseria habitual e... faturaram. Pouco antes das 21h, um desses "profissionais informais" comemorava: "vendi três galerias por 900 reais". O preço oficial de um lugar na galeria era 30 reais.

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João Gilberto

Na noite passada, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, os mais de 1 000 convidados e os menos de 1 000 vencedores que compraram seus ingressos a duras penas assistiram a um glorioso, e raro, show de João Gilberto. Entre "Você Já Foi à Bahia?", primeira de um belo tributo a Caymmi, e a divertida "O Pato", a platéia se encantou com a mais famosa batida de violão do país e aquela inconfundível voz sussurrante, de volta a um palco carioca pela primeira vez nos últimos catorze anos. Por incrível que pareça, apesar da fama de músico sensível do astro da noite, ainda teve gente que se aventurou a atender o celular em plena apresentação. Uma moça na platéia, fila M, depois de conversar com o interlocutor, aproveitou as facilidades tecnológicas de seu aparelhinho para dedicar-se a um joguinho eletrônico que consistia em bombardear naves voadoras. Bateu um recorde, sem dúvida.

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Sexta-feira, 1 de Agosto de 2008

Quem dá mais?

Criada em 1970, pelo empresário José Carvalho, a Bolsa de Arte vem, desde então, movimentando o mercado de artes brasileiro através da realização de leilões. O próximo acontece na terça (5), no Copacabana Palace, a partir das 19h. O martelo vai bater para 103 obras, de Duas Mulheres, do consagrado modernista Candido Portinari (valor estimado entre 2,8 e 3,5 milhões de reais), a Salve?, da artista contemporânea Beatriz Milhazes (120.000 a 160.000 reais). Há muito mais, para variados bolsos e gostos, raras paisagens cariocas do século XIX, por exemplo, na coleção que, até a véspera do dia do leilão, ficará exposta na sede da empresa, na Rua Prudente de Morais, 326, em Ipanema, de 10h a 22h. Jones Bergamin (foto), atual diretor da Bolsa de Arte, conta um pouco mais sobre o leilão e este mercado onde preferências estéticas e dinheiro caminham (quase sempre) juntos.

Chama a atenção, na coleção que vai a leilão, a presença de obras acadêmicas, paisagens cariocas de pintores como Batista da Costa (1865-1926), Carlos Balliester (1870-1927) e Fachinetti (1824-1900). O que essas obras de museu fazem à venda?

Este tipo de trabalho está com o mercado aquecido. Paisagens do Rio, antigas e recentes, obras dos viajantes, até arte naïf. Algumas obras são raras, difíceis de achar, e ficaram baratas em relação à arte contemporânea, que está puxando os preços para cima. Hoje, uma gravura contemporânea atinge 100.000 reais, fotografias chegam a 300.000. Artistas contemporâneos estão vendendo caro, e vendendo mesmo. É curioso, porque há uma geração que acha que a arte começou há 15, 20 anos, e está encontrando compradores dispostos a bancar isso. Não sou curador, não cabe a mim dizer quem é bom e quem não é. O curador, no meu meio, é o mercado, não questiono os valores atribuídos às obras. Mas o fato é que o momento é bom para a compra de trabalhos mais antigos.

De que maneira o mercado afeta a produção artística?

O mercado age por si só, sacudido às vezes por modismos. Houve um tempo, nos anos 70 e 80, em que uma nota nas colunas sociais valorizava o artista. Teruz saía no Ibrahim e ficava em alta. O Zózimo publicava uma notícia sobre o Cícero Dias e, no dia seguinte, havia dezenas de compradores interessados na obra dele. Hoje acho que reina o profissionalismo. A arte contemporânea é uma realidade, não é mais uma aposta no futuro. Artistas estão mudando sua forma de atuar. Aqueles que trabalhavam com materiais menos nobres já estão se mexendo. Quando uma obra começa a custar 100 mil dólares, caso dos gêmeos que faziam grafite na rua (a dupla osgemeos, formada pelos irmãos Gustavo e Otavio Pandolfo, hoje representada pela galeria Fortes Vilaça, de São Paulo), o que acontece é que o autor começa a se preocupar em trabalhar com materiais que aumentem a durabilidade da obra. A tinta acrílica mais vagabunda, comprada em lata, dá lugar para a de tubo. A madeira pinho, que racha, é substituída por suportes mais nobres. Está todo mundo caprichando, com foto, pasta com currículo, certificado de proveniência. Está tudo muito mais profissionalizado.

Uma de suas tarefas é atribuir preços às obras que vão a leilão. Como evitar distorções nos valores?

Na galeria vigora a tabela do artista. O mercado secundário, que é onde atuo, é o mercado regulador. É a hora da verdade. Quando a obra vai a leilão, pode render acima ou abaixo da tabela sugerida pelo artista. Nomes que já saíram das galerias há quarenta, cinqüenta anos, e hoje aparecem em coleções e museus, têm uma cotação mais conhecida. O desafio é a arte contemporânea. Há muita informação, feiras de arte, bienais, Veneza, Havana, São Paulo, a Documenta de Kassel, eventos importantes que a toda hora apontam novas tendências. Na Inglaterra a vez é da escatologia, da doença, da perversão. Tem aquele cara que exibiu uma vaca cortada em pedaços (Damien Hirst, famoso por suas criações com animais mortos). Procuro acompanhar esses movimentos, com o cuidado de filtrar a informação e não ficar entupido de besteira.

Quais são os destaques entre as obras do próximo leilão da Bolsa?

A estrela da companhia é Duas Mulheres, do Portinari. É um trabalho do melhor período dele, de 1938, quando ele expôs em Pittsburgh, nos Estados Unidos. Tem a Beatriz Milhazes, claro, que está encantando todo mundo. E, acredito, vai fazer sucesso a Mulata no Sofá Vermelho (1964), de Di Cavalcanti. Ele tinha um sofá vermelho lá no ateliê, botou a moça peladona e pintou-a com evidente prazer.

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Quinta-feira, 15 de Maio de 2008

Será que ele é?




No dia 11 de março, em um aparentemente inocente debate sobre cinema realizado na vetusta e grandiosa sala do Odeon, no Centro, o humorista Marcelo Madureira, do grupo Casseta & Planeta, emitiu sua opinião sobre a mais luminosa estrela do cinema novo: ?Glauber é uma m...?. Pronto, instaurou-se a cizânia. A frase curta inspirou loooongos debates, eventos de desagravo dos dois lados da contenda e até ameaça de processo. E ainda dá o que falar até hoje. Para badalar o lançamento do número de maio da Bravo!, publicada pela Editora Abril, João Gabriel de Lima, editor-chefe da revista, e ele, Marcelo Madureira (na foto abaixo da de Glauber), protagonizam um bate-papo em torno de uma das matérias desta edição, ?Glauber Rocha Sob Fogo Cerrado?. Hoje, na Livraria da Travessa do Leblon, a partir das 20h. Com entrada franca e vagas limitadas.

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Sexta-feira, 25 de Abril de 2008

Passeio com música

O Parque das Ruínas, em Santa Teresa, é daqueles recantos menos óbvios da cidade com vista esplendorosa para parte do Centro, um naco da zona sul, a baía e a enseada de Botafogo. Construído entre as ruínas da antiga residência de Laurinda Santos Lobo, locomotiva da sociedade carioca na primeira metade do século passado, tornou-se um centro cultural com jeito de ponto turístico, um café honesto e, de uns tempos para cá, boa programação cultural. Neste domingo, dia 27, às 18h, por exemplo, tem show gratuito do grupo vocal Arranco de Varsóvia. Vale lembrar que, em uma das espertas soluções arquitetônicas do lugar, uma ponte metálica liga o Parque das Ruínas a outro endereço que merece a visita: a Chácara do Céu, outra antiga residência de um ricaço ligado à cultura, no caso Raymundo Ottoni de Castro Maya. Aproveite. O Centro Cultural Municipal Parque das Ruínas fica na Rua Murtinho Nobre, 169, telefone 2252-1039. Caso chova, o show será transferido para o auditório do espaço, com 120 lugares.

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Sexta-feira, 11 de Abril de 2008

Arte e patrimônio

Por 48 horas, neste sábado, dia 12, e no domingo (13), o Morro da Conceição, pedaço da cidade (ainda mais) cheio de história no Centro, vai abrigar uma baita intervenção artística. Ao lado dos morros do Castelo, de São Bento e de Santo Antônio, o lugar foi um dos quatro vértices da área original a partir do qual desenvolveu-se a cidade do Rio de Janeiro, na segunda metade do século XVI. Com curadoria do escritor e historiador Rafael da Cardoso, que mora no bairro há oito anos, dezoito artistas ocuparão as ruas com obras que prometem dialogar com os trechos de calçamento de pé-de-moleque e outros resquícios urbanísticos e arquitetônicos do Brasil colonial. Em sua maioria, os nomes escalados, Adriana Eu, Bianca Bernardo, Carlos Contente, David Cury, Ducha, Elisa Castro, Gabriela Mureb, Gabriela Noujaim, Guga Ferraz, Heleno Bernardi, João Modé, João Penoni, Lívia Flores, Marcelo Frazão, Marcos Chaves, Renato Santana, Ronald Duarte e Tatiana Grinberg, espalharão seus trabalhos ao ar livre, pelas ruas e praças da região, com concentração em quatro pontos principais: Adro de São Francisco, Pedra do Sal, Praça Major Valô e Observatório do Valongo.
Trata-se, portanto, de uma boa desculpa para se visitar um pedaço da cidade que começou a ser ocupado em 1590 e ainda preserva bastante do visual daquele tempo remoto. Um pequeno exemplo da história que o lugar carrega: a Fortaleza da Conceição, em cujas masmorras foi encarcerado o inconfidente Tomás Antônio Gonzaga, vai estar aberta ao público no fim de semana. O ponto de encontro do evento, onde podem ser conseguidas maiores informações, será a Casa da Cultura do Morro da Conceição, no Adro de São Francisco (subir a escadaria na altura da Rua Sacadura Cabral, 73, na Praça Mauá). Quem vier de carro pode subir pela Rua Major Daemon (segunda transversal à esquerda, na Rua do Acre) ou pela Ladeira do Pedro Antônio (última transversal à esquerda na Rua Senador Pompeu).

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Sexta-feira, 28 de Março de 2008

Tarde de cinema no Centro


Muita gente que anda na casa dos 40 tem lembranças carinhosas das sessões do cineclube Macunaíma, que aconteciam no auditório da Associação Brasileira de Imprensa. Com projeção ocasionalmente titubeante, eram exibidos ali desde os clássicos como o silencioso A Paixão de Joana D'Arc, de Carl Dreyer, a nouvelle vague representada por obras de Godard como Acossado e O demônio das Onze Horas até películas que nunca alcançaram o grande circuito, como o Rei da Vela de José Celso Martinez Corrêa. Eram tempos em que o videocassete estava longe de ser um item comum na maioria dos domicílios. Pois bem, o Sindicato dos Jornalistas do Município do Rio criou uma sessão de cinema que tem tudo para se tornar uma atração imperdível para os cinéfilos, bem no clima do antigo Macunaíma. Amanhã (29), às 17h, acontece a primeira sessão de Sábados Clássicos no auditório João Saldanha (80 lugares), na rua Evaristo da Veiga 16, 17º andar, no Centro. O filme escolhido para inaugurar a série não poderia ser mais apropriado: Cidadão Kane (foto), de Orson Welles. Em tempos de DVD e internet, a idéia é exibir em tela grande, com som poderoso e em sala com poltronas confortáveis, aqueles filmes que muita gente só viu na telinha. Depois da exibição, vai ter bate-papo com o crítico de cinema Marcelo Janot. E a entrada é franca.
Passear no Centro aos sábados é um programão para o dia inteiro. Há exposições imperdíveis como Novas Revelações da Família Ferrez, no Centro Cultural Banco do Brasil e a obra de Debret na Casa França-Brasil. Para repor as energias, não faltam bons restaurantes como o Casual Retrô, do Chef Santos, a Brasserie Rosário, a Casa Cosmopolita (berço do filé à Oswaldo Aranha), a Adega Flor de Coimbra e o Nova Capela (com seu clássico cabrito). E para quem quiser esticar noite adentro, o auditório do Sindicato fica a dois passos da agitação da Lapa. Bom programa.

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Quarta-feira, 26 de Março de 2008

A verdade sobre Zagallo


Essa quem conta é o repórter Rogério Durst: celebridade desde que chegou ao Rio, no dia 17, depois de viajar, por 37 horas, entre os zoológicos de São Paulo e daqui, a girafa Zagallo conquistou os cariocas e a fêmea Beija-Céu sob falsa identidade. O apelido, emprestado do ex-craque e técnico da seleção, foi dado por tratadores em sua estada na capital paulista, onde viveu desde 2003. A girafa, na verdade, se chama Giba, nome de batismo escolhido num concurso entre a população de Brasília quando ele nasceu, em 2001, no zoológico da capital federal. Na foto, o galã Zagallo, ou Giba, aparece ainda na temporada paulista.

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Arte em revista


Uma cerimônia realizada ontem à noite, no Paço Imperial, marcou o lançamento do portal de internet Memória Gráfica Brasileira. Com patrocínio da Petrobras, o desenhista Cássio Loredano e a designer Julieta Sobral levam à rede um rico material sobre a história das artes gráficas no Brasil desde meados do século XIX. Filé do acervo, o hot-site J. Carlos em Revista traz um banco de dados com coleções das revistas O Malho e Para Todos. Será possível folhear, página a página, os números publicados entre 1922 e 1930. Na solenidade também foram lançados os livros O Vidente Míope e O Desenhista Invisível, editados pela Folha Seca, como parte do projeto. No primeiro encontra-se uma crônica visual de J. Carlos (autor de preciosidades como o desenho acima) nos anos 1920, com organização de Loredano, guardião da obra do mestre, e texto do historiador e professor Luiz Antonio Simas. O Desenhista Invisível é uma análise da atuação de J. Carlos como artista gráfico, com texto de Julieta Sobra. Divirta-se aqui.

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