Criada em 1970, pelo empresário José Carvalho, a Bolsa de Arte vem, desde então, movimentando o mercado de artes brasileiro através da realização de leilões. O próximo acontece na terça (5), no Copacabana Palace, a partir das 19h. O martelo vai bater para 103 obras, de Duas Mulheres, do consagrado modernista Candido Portinari (valor estimado entre 2,8 e 3,5 milhões de reais), a Salve?, da artista contemporânea Beatriz Milhazes (120.000 a 160.000 reais). Há muito mais, para variados bolsos e gostos, raras paisagens cariocas do século XIX, por exemplo, na coleção que, até a véspera do dia do leilão, ficará exposta na sede da empresa, na Rua Prudente de Morais, 326, em Ipanema, de 10h a 22h. Jones Bergamin (foto), atual diretor da Bolsa de Arte, conta um pouco mais sobre o leilão e este mercado onde preferências estéticas e dinheiro caminham (quase sempre) juntos.
Chama a atenção, na coleção que vai a leilão, a presença de obras acadêmicas, paisagens cariocas de pintores como Batista da Costa (1865-1926), Carlos Balliester (1870-1927) e Fachinetti (1824-1900). O que essas obras de museu fazem à venda?
Este tipo de trabalho está com o mercado aquecido. Paisagens do Rio, antigas e recentes, obras dos viajantes, até arte naïf. Algumas obras são raras, difíceis de achar, e ficaram baratas em relação à arte contemporânea, que está puxando os preços para cima. Hoje, uma gravura contemporânea atinge 100.000 reais, fotografias chegam a 300.000. Artistas contemporâneos estão vendendo caro, e vendendo mesmo. É curioso, porque há uma geração que acha que a arte começou há 15, 20 anos, e está encontrando compradores dispostos a bancar isso. Não sou curador, não cabe a mim dizer quem é bom e quem não é. O curador, no meu meio, é o mercado, não questiono os valores atribuídos às obras. Mas o fato é que o momento é bom para a compra de trabalhos mais antigos.
De que maneira o mercado afeta a produção artística?O mercado age por si só, sacudido às vezes por modismos. Houve um tempo, nos anos 70 e 80, em que uma nota nas colunas sociais valorizava o artista. Teruz saía no Ibrahim e ficava em alta. O Zózimo publicava uma notícia sobre o Cícero Dias e, no dia seguinte, havia dezenas de compradores interessados na obra dele. Hoje acho que reina o profissionalismo. A arte contemporânea é uma realidade, não é mais uma aposta no futuro. Artistas estão mudando sua forma de atuar. Aqueles que trabalhavam com materiais menos nobres já estão se mexendo. Quando uma obra começa a custar 100 mil dólares, caso dos gêmeos que faziam grafite na rua (a dupla osgemeos, formada pelos irmãos Gustavo e Otavio Pandolfo, hoje representada pela galeria Fortes Vilaça, de São Paulo), o que acontece é que o autor começa a se preocupar em trabalhar com materiais que aumentem a durabilidade da obra. A tinta acrílica mais vagabunda, comprada em lata, dá lugar para a de tubo. A madeira pinho, que racha, é substituída por suportes mais nobres. Está todo mundo caprichando, com foto, pasta com currículo, certificado de proveniência. Está tudo muito mais profissionalizado.
Uma de suas tarefas é atribuir preços às obras que vão a leilão. Como evitar distorções nos valores?
Na galeria vigora a tabela do artista. O mercado secundário, que é onde atuo, é o mercado regulador. É a hora da verdade. Quando a obra vai a leilão, pode render acima ou abaixo da tabela sugerida pelo artista. Nomes que já saíram das galerias há quarenta, cinqüenta anos, e hoje aparecem em coleções e museus, têm uma cotação mais conhecida. O desafio é a arte contemporânea. Há muita informação, feiras de arte, bienais, Veneza, Havana, São Paulo, a Documenta de Kassel, eventos importantes que a toda hora apontam novas tendências. Na Inglaterra a vez é da escatologia, da doença, da perversão. Tem aquele cara que exibiu uma vaca cortada em pedaços (Damien Hirst, famoso por suas criações com animais mortos). Procuro acompanhar esses movimentos, com o cuidado de filtrar a informação e não ficar entupido de besteira.
Quais são os destaques entre as obras do próximo leilão da Bolsa?
A estrela da companhia é Duas Mulheres, do Portinari. É um trabalho do melhor período dele, de 1938, quando ele expôs em Pittsburgh, nos Estados Unidos. Tem a Beatriz Milhazes, claro, que está encantando todo mundo. E, acredito, vai fazer sucesso a Mulata no Sofá Vermelho (1964), de Di Cavalcanti. Ele tinha um sofá vermelho lá no ateliê, botou a moça peladona e pintou-a com evidente prazer.
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