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Minha primeira vez (por Rogério Fasano)

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Rogério Fasano: "Basta inventarem uma nova tendência ou modismo que procuro uma ponte para passar por cima"

Com toda essa exaltação aos chefs espanhóis que aportaram em São Paulo no início do mês, lembrei de um texto que o restaurateur Rogério Fasano escreveu sobre sua primeira experiência com espumas e semelhantes. Lembro de ter adorado quando li e guardei. Depois de revirar diversas pastas e mais pastas de e-mails, aqui está ele. Acho que é um contraponto espirituoso no momento em que espumas, esferificações e outros produtos da cozinha tecnoemocional estão tão em alta. Vejam só:

“Desde criança, sou daqueles conhecidos como ‘do contra’. Basta inventarem uma nova tendência ou modismo que procuro uma ponte para passar por cima. Esse jeito de ser me faz invariavelmente adepto doditado ‘não fui, não vi e não gostei’. Por isso, demorei tanto tempo para tomar conhecimento da chamada ‘atual modernidade gastronômica’. Resolvi começar pelo que os aficionados desse tipo de cozinha consideram o mais ousado do mundo, o Fat Duck, a uma hora de Londres. Para quem não sabe, o chef Heston Blumenthal compete com Ferran Adrià, ano sim, ano não, como o melhor do mundo em várias publicações. Lá estamos, mesa para cinco: eu, minha mulher Ana, Drauzio Varella, sua mulher Regina e um amigo em comum, Isay Weinfeld (com quem já dividi inúmeros giros gastronômicos pela Itália). No caminho, fizemos todos a promessa de que iríamos sem preconceitos, para abrir nossas obtusas cabeças e entrar na experiência inglesa gastromolecular de Mr.Blumenthal. Afinal de contas, a Inglaterra é o berço da modernidade, e não é à toa que lá estão os geniais Paul Smith, Radiohead e Jamie Oliver.

Apesar disso, no caminho sentia um certo frio na barriga. Nem a paz e a beleza do interior da Inglaterra eram capazes de me deixar mais tranqüilo. Tinha medo do que estava por vir. Venho de uma família que tem como filosofia que uma refeição perdida nunca é recuperada, daí sofrermos tanto quando reclamações procedentes nos são feitas. A cidade é Bray; o lugar, um antigo cottage, arquitetonicamente charmoso, mas destruído por cinco quadros supostamente modernos, que fariam Picasso franzir a testa. Vamos ao que interessa:

Antipasto 1: nitro chá verde e mousse de limão.
Uma espuma de limão extraída de um sifão é jogada dentro de um pote com nitrogênio a 150 graus negativos, tornando-se imediatamente sólida, a comida vapt-vupt. O efeito? Quase nulo. Apenas amortece um pouco a língua; se soubesse o que viria pela frente, teria comido estas bolinhas como pipoca, para amortecer de vez o palato.

Antipasto 2: Ostra com molho de maracujá em mousse de gelatina.
Gostaria de deixar aqui uma pergunta: existirá no universo algum tipo de molho que melhore uma ostra? Duvido. O nosso era um desses molhos que a nova cozinha tanto adora. Fico imaginando quem foi o sujeito que inventou que a comida gourmand tem que ser agridoce. Guilhotina nele.

Antipasto 3: Sorvete de mostarda com gaspacho de beterraba.
Desfrutamos o gaspacho de beterraba, com um insípido pãozinho servido frio. Quanto ao sorvete de mostarda, é exatamente o que se pode imaginar de um sorvete de mostarda. Estranhíssimo.

Antipasto 4: Pequenas geléias de sabores variados, que não consigo descrever, e cuja matéria-prima ninguém conseguiu identificar.

Antipasto 5: Pequenas torradas com trufas pretas. Excepcionalmente, são sólidas e normais na aparência. Chegaram a ser negociadas a peso de ouro, mas ninguém vendeu as suas. Mesmo sabendo, nós e o Sr. Blumenthal, que as trufas encontradas nesta época do ano são as piores que existem. Gostaria de fazer aqui um aparte: trufa é algo sublime que costuma mudar para melhor quase tudo aquilo que toca. Não confundir com óleo de trufa, que costuma ter o efeito contrário: destrói tudo e parece feito pela Esso, pois tem gosto de gasolina.

1º prato: Escargots com presunto espanhol e erva doce ‘barbeadas’. Muito saboroso.

2 º prato: A quantidade de açúcar que acompanha o foie gras com cereja e camomila nos trouxe de volta à realidade.

3 º prato: Chamado sound of the sea; um espuma branca de textura estranhíssima, com uma espécie de areia-farofa servida ao lado. E acompanhada de quê? De um iPod. Sério! Todos nós recebemos o aparelho, que fomos obrigados a usar, e que reproduzia barulhos do mar. Detalhe: o meu tinha uma camada extra de cera no fone de ouvido, deixada pelo último comensal. Fingi que não percebi e coloquei o meu, afinal de contas as pessoas vão ao Fat Duck para aplaudir, não para reclamar. Fica aqui uma sugestão, seria muito mais higiênico e faria o mesmo efeito, uma concha marinha.

Após retirarmos o iPod, Regina comentou: ‘Estive mês passado no que é considerado o restaurante mais antigo do mundo, que serve assados em Madri’. A mesa quase veio abaixo. A curiosidade voltou-se toda para o que Regina havia comido. Isay, eu e Ana comentávamos o excepcional jantar que tivemos no Harry’s Bar de Londres, um clube privado, que serve cozinha italiana, na síntese da modernidade: rústica, porém delicadíssima.

4 º prato: Já estava perdendo a paciência com nosso amigo Pato Gordo quando chegou um salmão pochê com aspargos, alcaçuz e grapefruit. Sem exageros, considero o pior salmão que comi na vida.

Último prato: Excepcional costeleta de carneiro, porque estávamos na terra do melhor carneiro do mundo, mas era servida com um molho doce, muito doce. O Fat Duck é quase uma confeitaria, que serve alguns salgados.

Meu jantar aqui chegou ao fim. Pulei os doces, pois já tinha comido açúcar demais. Assim fez também Drauzio, que não come açúcar e já tinha ingerido sua dose pelos próximos 20 anos. A sobremesa mais famosa do lugar é um sorvete assim descrito: ‘nitro-ovos mexidos e sorvete de bacon’. Se o sorvete de mostarda já tinha sido duro, o que fazer então com a versão em bacon?

Os outros à mesa receberam o sorvete, mas apenas o tocaram, o que deixou os maîtres um pouco indignados. Não nos importamos muito, pois sabemos que nesses restaurantes, na grande maioria das vezes, o serviço é insuportável. Desde que alguns chefs foram elevados à categoria de diretores de cinema, seu staff age como coadjuvante de grandes estrelas. Eles se sentem contracenando com Marlon Brando ou como assistentes de câmera de Stanley Kubrick.

Exceção feita a um simpático irlandês, ruivo, que a cada esquisitice servida à mesa, com muita ironia, após dez minutos de explicação de cada prato, nos dizia: enjoy it! Como os recepcionistas da casa dos horrores.

Olhei para Isay - arquiteto moderno, antenado, culto, contemporâneo, enfim, entre os grandes - e entendi o que ele sente quando esta arquitetura feita com formas esdrúxulas é considerada moderna.

The end: a conta, 1.300 libras ou R$ 5.600, incluindo uma minúsculataça dos seguintes vinhos e saquê: Iphofer Kronsberg Silvaner SpatleseTrocken 2005; Vin de Pays des Côtes Catalanes, Le Soula, Roussillon; Vinoptima Gewürztraminer Reserve Gisborne; Rashiku Ginjo-SakeYamatogawa; Quinta da Falorca Reserva Dão; Barolo, Nei Cannubi LuigiEinaudi.

Voltamos ao nosso motorista, mais inglês impossível, e acostumado a levar pessoas ao Fat Duck, que com muito sarcasmo pergunta: ‘Any good?’. Isay de bate pronto: ‘No’. Motorista: ‘Lots of people say that’. Penso: nem tudo está perdido.”

O que é cozinha tecnoemocional?

terça-feira, 11 de novembro de 2008
Ricardo Castilho, Pau Arenós, Alex Atala, Ferran Adrià e Josimar Melo
Ricardo Castilho, Pau Arenós, Alex Atala, Ferran Adrià e Josimar Melo

Semana passada embarquei na ponte-aérea para assistir ao Fórum Internacional de Gastronomia Mesa Tendências, organizado pela revista Prazeres da Mesa, que deu um show de organização em parceria com o Senac-SP. As aulas/palestras que tinham como tema Brasil e Espanha, a Última Fronteira da Gastronomia foram super concorridas e o time carioca estava muito bem representado com a presença em massa dos chefs daqui.

Um dos momentos mais aguardados aconteceu já no primeiro dia, quando subiram ao palco os chefs Ferran Adrià e Alex Atala e os jornalistas especializados Josimar Melo, da Folha de São Paulo, e Pau Arenós, do El Periódico de Catalunya. A idéia inicial era de um debate. Mas de debate mesmo teve muito pouco. Cada um pegou o microfone e fez um pequeno monólogo sobre o tema em voga: a cozinha tecnoemocional.

Arenós, que se diz o criador dessa expressão, explicou que este movimento culinário liderado por Albert e Ferran Adrià tem por objetivo criar emoção ao comensal, através de novas técnicas e tecnologias culinárias, daí o nome: tecno+emocional. Eles não se limitam ao olfato e o paladar. Buscam atingir os cinco sentidos. Aí é praticamente um vale tudo químico. Descobriu-se que o caroço de azeitona é um ótimo carvão, que ao misturar sódio e cálcio é possível criar as tão faladas esferificações, que ao injetar um fio de nitrogênio líquido dentro de um copo de caipirinha a bebida se transforma em sorvete, que o ágar-ágar poderia suportar altas temperaturas e criar a gelatina quente e por aí vai. É um mundo sem fronteiras que ainda promete muitas surpresas e novas descobertas.

Durante sua explanação, Arenós apresentou um gráfico muito bacana em que traça a evolução da gastronomia desde o classicismo de Auguste Escoffier, passando pela Nouvelle Cuisine, ambos de influência francesa, chegando até os dias de hoje, quando vemos dois movimentos de grande importância acontecendo simultaneamente: a cozinha tecnoemocional e a terceira geração da nouvelle cuisine, sob a influência espanhola. Veja aqui: Gráfico Pau Arenós

Ferran Adrià

Debate: Ferran Adrià reconhece a nouvelle cuisine francesa

A primeira fala de Ferran Adrià no evento foi muito aguardada. E ele começou explicando que a cozinha tecnoemocional não tinha nada a ver com a cozinha molecular, o que gerou uma certa confusão na cabeça das pessoas. Fui atrás dele depois do debate para tentar entender melhor e olha o que ele falou: “O termo ‘cozinha molecular’ é precedido por um outro, ‘gastronomia molecular’. Pela década de 1980, uma série de cientistas amadores de gastronomia (Nicholas Kurti, Harold McGee e Hervé Isto, entre outros) começou a ter um interesse nos processos físicos e químicos que ocorrem em uma cozinha. Na verdade, é uma prática que foi muito usada pela indústria alimentícia e, salvo em ocasiões contadísimas, não havia qualquer ligação com os grandes cozinheiros. Nossas criações nasceram de pesquisas puramente culinárias”, disse. Como exemplo, ele citou a descoberta do ágar-ágar, apoiada apenas em observação, sem qualquer base científica.

Confesso que continuei confusa. Quando um cozinheiro começa a estudar um alimento e suas características, seja baseado em observação, ou informações científicas, ele está explorando o potencial que esse ingrediente tem de transformar e ser transformado, o que só acontece através de uma reação molecular, química (um cozimento banal, por exemplo). Ou não? Enfim, fiquei na mesma. Achei mais interessante quando ele fez questão de reconhecer que a base da cozinha tecnoemocional (como queira) foi a revolução promovida pela nouvelle cuisine francesa, quando os pratos começaram a ser levados à mesa em porções individuais valorizando sua estética, os molhos mais leves feitos a partir do suco do próprio alimento ganharam terreno, … e por aí vai.

Depois de slow food, comfort food, raw food, taí mais um termo para nosso vocabulário gourmet.

Olha parte da turma do Rio aí … e ainda tinha Adriana Mattar, Flávia Quaresma, Andrea Tinoco, …

Ana Bueno (Banana da Terra, Paraty) e Mônica Rangel (Gosto com Gosto, Visconde de Mauá)

Ana Bueno (Banana da Terra, Paraty) e Mônica Rangel (Gosto com Gosto, Visconde de Mauá)

Teresa Corção (O Navegador) e Maria Victoria (Montagu)

Teresa Corção (O Navegador) e Maria Victoria (Montagu)

Fred, Ludmilla, Checho Gonzales (Zazá Bistrô) e Roberta Ciasca (Miam Miam)

Frèdèric de Mayer (Eça), Ludmilla Soeiro (Zuka), Checho Gonzales (Zazá Bistrô) e Roberta Ciasca (Miam Miam)

Roberta Sudbrack comandou um dos jantares

Roberta Sudbrack comandou um dos jantares

Claude com Juan Mari Arzka e Martín Berasategui

Claude com Juan Mari Arzak e Martín Berasategui

Claude Troisgros com Ferran Adrià

Claude Troisgros com Ferran Adrià