Sete perguntas para Alain Ducasse
segunda-feira, 26 de outubro de 2009
Da última vez que Alain Ducasse veio ao Rio, em 2007, liguei para seis cozinheiros da cidade e pedi que enviassem três perguntas que gostariam de fazer para o aclamado chef francês. Como o tempo era curto - foram apenas 30 minutos de entrevista concedidas a cada jornalista, algo parecido com o que as estrelas de Hollywood fazem quando lançam seus filmes - fiz apenas uma pergunta de cada chef. Mas VEJA daquela semana dedicou três páginas ao chef, e minha entrevista acabou arquivada. Aproveito para recuperar essa conversa por ocasião do Congresso Internacional de Gastronomia Mesa Tendências, promovido pela revista Prazeres da Mesa, que tem início nesta terça (27), em São Paulo, com abertura de Alain Ducasse.
CLAUDE TROISGROS – Quem foram os chefs que marcaram sua trajetória profissional?
AD – São dois: Alain Chapel e Paul Bocuse. Meu primeiro emprego foi no restaurante de Chapel, em Mionnay. Estava no início da minha carreira, tinha 26 anos, idade em que as experiências vividas e os ensinamentos adquiridos irão influenciar nas suas escolhas. Vi ali todo cuidado que um chef precisava ter na hora de escolher seus ingredientes, o que procuro fazer até hoje em meus restaurantes e transmito sempre à minha equipe. Minha relação com Paul Bocuse é completamente diferente. Ele é um grande cozinheiro, que aproveitou intensamente a vida. Lutou muito pelo reconhecimento dos profissionais da gastronomia na França e fora dela também. É também o responsável por ter aberto o caminho para as gerações futuras, contribuindo de maneira decisiva para a modernização da culinária francesa. Não poderia ter seguido esse caminho sem que Paul Bocuse tivesse vindo antes. Conto, honrado, que o recebi em meu restaurante, o Louis XV, em Mônaco, para comemorar seu aniversário de 81 anos.
ROLAND VILLARD – Assim como na França, o Brasil tem cada vez mais cursos de gastronomia. O que você acha do aparecimento de chefs cada vez mais jovens no mercado?
AD - Muito bom! Fiz parte de uma geração seguinte à da nouvelle cuisine, o que deu trabalho para que os chefs mostrassem resultados. Hoje é diferente. Um jovem chef tem um universo de informações e possibilidades à sua disposição. Naturalmente que a experiência é relevante, mas a audácia da juventude é algo ímpar. O Brasil ainda tem a vantagem de ser um país jovem, o que é vantajoso quando a gente pensa na gama de ingredientes ainda desconhecidos que podem ser explorados por esses novos profissionais. E para encontrar seu caminho é preciso errar. Significa que o profissinal está na busca pelo seu rumo.
ROBERTA SUDBRACK - A cozinha de raiz, ligada à terra e às tradições culturais, ainda tem espaço nos restaurantes modernos?
AD – Acredito que sim. Arriscaria dizer, inclusive, que essa cozinha de raiz fará parte do futuro da gastronomia. Imagino que você consulte as teorias defendidas por Carlo Petrini, o criador da slow food. Eu sou devoto de suas ideias, especialmente aquela que diz que a cozinha é a expressão de uma cultura. Cozinhar é transformar os ingredientes através do contexto social, econômico e tecnológico de cada cultura. Tenho que reforçar também a importância dos agricultores e produtores para os chefs. Os cozinheiros não podem ser passivos neste sistema. Cabe a nós também, através do diálogo e do debate, encorajá-los a produzir cada vez mais e melhor, estimulando a produção de ingredientes de qualidade, reciclando variedades de frutas e legumes raros ou desaparecidos. É assim também que a autêntica cozinha alcançará seu lugar.
FLAVIA QUARESMA - Com a parceria entre o Centro de Formação Alain Ducasse e a uma universidade brasileira, podemos sonhar com um novo empreendimento do grupo aqui no Brasil?
AD – Primeiro gostaria de dizer que fiquei muito feliz com a seleção do nosso pólo de formação para o quadro desta universidade brasileira. A área de ensino é uma das minhas novas paixões. Acho muito importante a transmissão e a divisão do conhecimento. É a maneira que temos de desenvolver nossa profissão e nosso mercado. Se pretendemos expandir nosso negócio, na área do treinamento ou em outro campo? Não vejo por que não se aparecer uma boa oportunidade.
ROBERTA CIASCA - Como o senhor acha que estará a gastronomia daqui a dez, vinte anos?
AD – Plural para os cozinheiros. Não existe mais espaço para um único pensamento. Ninguém tem o monopólio do saber e do talento. Depois de alguns anos neste mercado, acredito na importância da troca do conhecimento, dos produtos, da tecnologia. É preciso que esses itens circulem livremente e beneficiem cozinheiros de diferentes culturas. A profissão de cozinheiro nunca foi tão internacional. Só na minha equipe tenho profissionais de quarenta nacionalidades. Ela será apaixonante para nossos clientes. Na análise final, é o que mais importa. Ir a um bom restaurante virou um passatempo para grande parte da população. Cada vez mais pessoas gastam tempo e dinheiro para consumir cursos, comprar livros, falar sobre cozinha. Talvez os brasileiros não tenham noção da amplitude desse fenômeno. Em todo mundo é um dos setores que mais cresce da economia.
SAMANTHA AQUIM – Por que ser um chef? Em que momentos o senhor reafirma essa escolha?
AD – Confesso que esta não é uma pergunta fácil de responder. Quando lembro da minha infância, numa fazenda do sudoeste da France, me vem à mente os produtos da terra, seus sabores, odores, cores, texturas, que, sem dúvida, me influenciaram nessa escolha. Mas quando lembro dos meus primeiros dias numa cozinha profissional, essa visão romântica da profissão não faz qualquer sentido. Acho que me viciei, e hoje não consigo me imaginar longe. Mas vou te confessar uma coisa: eu tinha outros dois sonhos de infância, viajar muito e ser arquiteto. Sou cozinheiro, mas viajo e, por meio da profissão, recrio os lugares exatamente como os arquitetos.
FERNANDA THEDIM – Quais ingredientes ou produtos não entram em sua cozinha?
AD – Não é para rir, ok? Nunca introduzi pedras em minhas receitas. Digo isso porque alguns chineses costuma agitar pedras pretas em sopas brancas para estimular o yin e o yang. Em nossas culturas, este interesse não existe. Mas a anedota ilustra bem a ideologia do socialista Claude Fischler: os alimentos devem ser bons para a cabeça antes de ser bons de comer. Agora, respondendo sua pergunta, eu não tenho muito apreço por canela. Embora eu não prive meu clientes dela completamente, não é um ingrediente que se encontre frequentemente em minha cozinha.










