O melhor e o pior de comandar a cozinha do Palácio da Alvorada?
O melhor: contribuir para dignificar os ingredientes e a riqueza da culinária brasileira. O pior: a boataria.
O que é mais difícil: servir ao presidente ou administrar o próprio restaurante?
Eu diria que são dificuldades muito diferentes. Ambas com um feixe de complexidade que consome igual quantidade de energia. A comida nos jantares oficiais, longe de ser apenas uma ocasião meramente social, é uma oportunidade de demonstrar a hospitalidade, o que contribui com a diplomacia e os interesses do País. É também um momento de expressão da nossa cultura culinária que nos permite demonstrar a sua grandiosidade, assim como a sua integração com outras culturas do mundo. Isso exige reflexão e energia, exige uma comida com um propósito agregador e que consiga traduzir a linguagem diplomática a favor dos interesses do Brasil. Engana-se quem vê nessas ocasiões meros eventos sociais ou privilégios.
O restaurante é o sonho de todo cozinheiro, e não deve ser diferente, pois o sonho alimenta a nossa energia. Mas logo se percebe que as preocupações não serão apenas com os ingredientes e as receitas. São tantos itens necessários para se chegar à “cena”, como dizem os espanhóis. A maior preocupação que surge é a sobrevivência, especialmente porque o restaurante, a empresa, transcende o seu criador. Ela passa a ter uma responsabilidade social muito grande; com a manutenção do emprego de seus colaboradores – especialmente nessa época de crise – com seus fornecedores, etc. Se não der certo, não será apenas a frustração do sonho do cozinheiro - que de uma maneira ou de outra pode ser reconstruído - mas de um conjunto de pessoas, muitos são os seus efeitos colaterais. Então, penso que em ambas as atividades – onde me realizei e me realizo -, o grau de dificuldade é da mesma grandeza.
Você disse que levou muitos ‘nãos’ de conhecidos chef do circuito Rio-São Paulo ao pedir estágio no início de sua carreira. Algum deles já se lamentou pessoalmente com você?
Não…acho que eles nem sabem! Provavelmente nem lembram e não fico remoendo o passado. Não vejo isso como uma coisa ruim, no meu caso, por exemplo, serviu para atiçar minha perseverança que felizmente é enorme. Hoje o cenário já mudou tanto que se estivesse começando agora acredito que provavelmente teria respostas diferentes. Ou não, também faz parte. Hoje sinto na pele o quanto é difícil atender a todos os pedidos que recebo. Fico triste, mas simplesmente não consigo e certamente já devo ter causado a mesma sensação de frustração em muita gente sem saber.
A cada ano você escolhe um ingrediente para protagonizar suas criações. Em 2009 é a vez do chuchu. O que lhe instigou a fazer esta escolha cheia de personalidade: o desafio de provar que chuchu tem gosto sim?
Não penso exatamente em transformar os ingredientes ditos marginais em gostosos ou interessantes, acredito que isso eles já são. Penso sempre que os ingredientes, todos eles, possuem outras possibilidades que muitas vezes não estão óbvias, então reflito sobre isso para chegar a um resultado que seja interessante, mas acima de tudo não mascare ou transforme-os em outra coisa. Gosto que eles falem por eles mesmos.
O mais importante para mim é buscar novas dimensões desses ingredientes com respeito e reverência. Não estou interessada em começar a trabalhar com um quiabo ou o chuchu e terminar com pó de alguma coisa ou espuma de outra. A minha obsessão é trazer à tona essa personalidade oculta de tantos significados e oferecer a linguagem da alta-gastronomia para que possam se expressar. O chuchu já está na minha cabeça há algum tempo, tanto que tenho uma releitura do camarão com chuchu que já servi ao Rei Juan Carlos da Espanha quando chefiei o Palácio da Alvorada, agora parto em busca de outras dimensões e possibilidades, na certeza de que essa máxima: “chuchu não tem gosto de nada”, pode e deve ser revista!
Porque você renuncia ao título de cozinha contemporânea? Como definiria seu estilo de cozinha?
Não é que eu renuncie ao título, inclusive adoro ganhar o Prêmio da Veja Rio de Melhor Restaurante de cozinha contemporânea, é um verdadeiro orgulho para mim! Compreendo que o senso comum, especialmente na nossa organização culinária recente, aplique a classificação de contemporâneo a tudo que tenha esse sentido de tempo presente. Mas na verdade quando aplicado à culinária, a expressão cozinha contemporânea ganha contornos excessivamente genéricos e conduz a uma idéia de que a comida contemporânea é uma comida que mistura diversos ingredientes, diferentes culturas culinárias e técnicas - em um mesmo prato, ou a simples reprodução presente de uma velha receita. De modo que essa definição infringe uma condição básica da minha cozinha que é avessa aos excessos de misturas e extremamente minimalista.
Prefiro a expressão cozinha moderna brasileira como definição de minha cozinha porque fala mais de um movimento, do que exatamente de um instante de presente ou futuro. Porque fala também de todo um pensamento culinário que vem sendo desenvolvido não só por mim, mas também por mim. A busca para preservar a memória e os sabores típicos de cada ingrediente, a produção artesanal, que permite que cada receita que eu desenvolva seja ao mesmo tempo um campo de conhecimento e um argumento do qual me utilizo para resgatar ingredientes brasileiros pouco valorizados. Procuro a preservação da nossa herança gastronômica – sem regionalismos - por intermédio das influências das técnicas clássicas que não deixam de atualizar o passado, mas que antes de tudo quer sugerir uma vanguarda gastronômica, cheia de conteúdo e sensibilidade que possa ser compreendida sensorial, estética e culturalmente.
Você sente falta de não ter cursado uma grande escola de gastronomia? Quais são suas fontes de consulta?
Acho importante a escola de gastronomia, sem dúvida, mas as ofertas de hoje não existiam no passado. Quem tinha condições foi estudar lá fora e quem não tinha usou as armas de que dispunha. No meu caso força de vontade, persistência e a certeza de que tinha vindo ao mundo para cozinhar. Tenho muito esse sentido empírico do conhecimento, o que me faz utilizar muito a experimentação. Uso muito as viagens, que para mim sempre foram uma grande fonte de aprendizagem, não só os restaurantes dos lugares, famosos ou não, mas os mercados locais, as feiras, os supermercados, as pessoas, os balés, as exposições de arte, a música e acima de tudo os livros.
A tecnologia também possibilitou o acesso infinito às informações, aproximou o conhecimento e criou novas formas para se apreender. Mas podendo freqüentar uma escola ganha-se muito. O mercado oferece muitas opções hoje em dia, nesse particular acho que precisamos de mais ofertas no Rio e seria ótimo que as Universidades Públicas pensassem em incluir cursos de gastronomia em suas graduações. A ressalva que faço é que esses cursos precisam entrar em um novo ciclo que deixe de lado certo excesso de glamorização da profissão. Cozinha é suor e lágrimas todos os dias. É batente pesado e chão para lavar e apreender – e esse instinto esclarecedor pelas coisas nem sempre está presente nas Instituições – não dá para sair da escola num dia e achar que no outro virou chef e vai ficar famoso como Claude Troisgros! Tem que ralar – literalmente - muito.
Acredito que nesse aspecto ainda possamos melhorar muito o nível dessa discussão e aprimorar essas etapas de capacitação que serão importantíssimas para o futuro desses profissionais. Em minha opinião é preciso que os chefs e as faculdades trabalhem muito mais próximos. Não faz sentido que as escolas definam seus currículos como se não se importassem com o que virá quando o aluno deixar aquelas quatro paredes. Não é produtivo não prepará-lo desde o inicio para essa realidade. E isso diz respeito a tudo, desde a postura profissional até a maneira como ele se move na cozinha! Às vezes eu tenho um estagiário de nível superior na minha cozinha, prestes a se formar, que não sabe nem para onde corre na hora do serviço. Justamente por causa disso, desse despreparo, no terceiro dia ele já está se questionando se é aquilo mesmo o que ele quer da vida? Claro, o que venderam para ele foi um conto de fadas e a realidade é bem diferente.
Hoje a bistronomia, a popularização da cozinha de qualidade, é uma tendência no setor de restaurantes. Você acredita que essa moda pega por aqui?
Veja bem, essa idéia de caro e barato deve ser tratada de forma ponderada. Certas percepções vão se criando - muitas vezes temos até uma parcela de culpa – a partir de informações truncadas ou incompletas. Por exemplo, já li muitas vezes que o RS é caro. Não vou discutir se é ou não é. Mas vou discutir o que ofereço no RS, e nesse sentido, tenho certeza que as pessoas verão que o nosso custo benéfico é extremamente justo. Por quê? Porque estamos falando de alta gastronomia, de cozinha puramente artesanal e autoral, então não se pode pensar no RS como uma pizzaria ou um restaurante tradicional. Não vendo apenas comida e bebida, ofereço uma experiência gastronômica diária e isso tem um valor em qualquer grande cidade do mundo.
O Rio é uma Metrópole, um cartão postal do Brasil e precisa ter uma oferta de gastronomia diversificada, uma culinária como as pessoas encontram quando viajam pelo mundo. Isso faz parte do crescimento e do amadurecimento das grandes cidades e influencia o turismo e o interesse externo. A vinda do grupo Fasano, uma referência para todos nós, há alguns anos, é uma prova do potencial dessa cidade, foi de extrema importância para a cidade e para todos nós, inaugurou uma nova era de crescimento. Se olharmos as últimas premiações no setor, o Rio de Janeiro tem tido muito mais destaque que São Paulo, entretanto as pessoas têm a percepção de que os melhores restaurantes estão lá e não se incomodam de pagar “caro”por isso. Conheço muitos cariocas que fazem isso com certa sistemática.
Não estou dizendo que São Paulo não possui bons restaurantes, claro que possui, mas eles estão por aqui também, reconhecidos pelos paulistas. Por isso mesmo, recebo inúmeros paulistas no meu restaurante e não tem um dia na minha vida em que não escute: - você deveria estar em São Paulo! No inicio ficava furiosa, hoje simplesmente respondo com tranqüilidade: “Não, eu deveria estar onde eu estou.” O Rio de Janeiro foi a cidade que escolhi para viver e trabalhar. Uma cidade que tem um imenso potencial para se tornar a vanguarda da gastronomia no Brasil. Mas precisamos, todos nós, profissionais, imprensa e público, ter mais orgulho disso e tocar o bumbo, como fez e faz São Paulo até hoje.
Sobre a bistronomia, acho que ela deve ser entendida não como uma popularização da comida de qualidade, até porque existem muitos restaurantes populares com comida de qualidade. Inclusive, o Rio de Janeiro provavelmente é a cidade brasileira com mais restaurantes populares de qualidade. É preciso enxergar a bistronomia, esse movimento que nasceu e criou alicerces na Europa, pelo sentido do acesso. Não só acesso a linguagem culinária da alta gastronomia, mas a toda uma atmosfera que a envolve, a comida que traz em si significados sensoriais muitos próprios.
A bistronomia é uma espécie de xilogravura da alta-gastronomia, porque como foi para as artes plásticas, ela amplia o acesso a uma narrativa artística, no caso: a arte culinária. É por isso que acredito que a bistronomia é muito mais do que o binômio preço e qualidade. Acho também que tem muitas chances de repercussão por aqui porque o carioca é curioso, exigente e inteligente. O RS inovou trazendo essa experiência na coleção passada, com a terça básica e ampliou esse ano para mais alguns dias da semana, justamente porque tivemos muitas solicitações nesse sentido. O nosso foco é a experiência, mas é bom que as pessoas que vão e vem do teatro, do balé, do conserto, do cinema e queiram ter uma vivência gustativa mais curtinha, também possam usufruir do ambiente e do ritual de uma refeição no RS.
Uma de suas características é estar sempre presente na cozinha, o que não se vê com tanta freqüência em outros restaurantes de cozinha de autor. A presença do chef é fundamental nesse estilo de restaurante?
Só posso responder por mim. Minha equipe é muito bem preparada e é claro que algumas vezes preciso me ausentar, mas a minha prioridade é a minha cozinha. Não aceito compromissos que vão me ausentar dela por muito tempo justamente porque gosto de estar lá partilhando conhecimento, descobertas e vivências. Sou uma cozinheira que precisa desse contato, preciso estar com a mão na frigideira diariamente. Estar na cozinha para mim tem um sentido que vai além de zelar para que a execução dos meus pratos saia exatamente como eu imaginei, até porque tenho uma equipe extremamente comprometida e apaixonada. Estar ali dentro diariamente é a oportunidade de estar aprendendo com o dia a dia, assistindo de perto evolução e a renovação da minha cozinha, da minha equipe e da minha existência. Mas isso não significa que não ser possa diferente. Faço assim porque assim me sinto realizada e porque posso oferecer o que acredito no RS: o artesanato. Talvez em uma proposta diferente a minha presença não seja tão necessária.
O que você mais despreza dentro do universo da gastronomia? E o que mais admira?
Desprezo: os “gastrochatos”. Admiro: o significado oculto de cada ingrediente.
O que você comeu e não gostou?
Miolos!