VEJA Rio


Arquivo da Categoria ‘Pelo Mundo’

Direto de Budapeste

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Escrevo de Budapeste, onde estou desde segunda passada. Os posts de origem carioca voltam a partir de 30 de novembro. Aproveitando a deixa, uma provinha daqui, com a imagem do Vásárcsarnok, mercadão feito de tijolos e aço, e decorado com lindos azulejos. No térreo ficam as barraquinhas de alimentos, onde me abasteci de todo tipo de páprica existente. As comidas típicas e o artesanato local estão no andar de cima. Com certeza, um dos programas imperdíveis na capital. Alguém arriscaria pedir um quilo de maçã em húngaro?

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100 coisas que os garçons nunca deveriam fazer

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Saiu a segunda parte da lista que reúne as 100 coisas que os garçons nunca deveriam fazer, publicada na seção de pequenos negócios do site do The New York Times. “Não encha o copo de água a cada dois minutos” é uma das recomendações. Particulamente, uma das coisas que mais irritantes no serviço dos restaurantes, e que ironicamente acontece com frequência naqueles endereços mais sofisticados - e caros. Nesse tipo de restaurante é muito comum verificamos quantas garrafas foram consumidas só no momento de pagar a conta, porque, muitas vezes, os garçons não perguntam se podem abrir mais uma garrafa. Abrem e servem. Fica minha contribuição para a lista: “Pergunte sempre ao cliente se ele deseja consumir mais uma garrada de água”. Selecionei dez itens da lista e postei abaixo (acesse aqui a versão completa), junto com uma linda imagem feita pelo fotógrafo Fernando Lemos no Escondidinho, restaurante tradicional do Centro do Rio, onde sempre perguntam se podem abrir mais uma garrafa do que quer que seja. Aproveito para deixar uma pergunta no ar. O que pode melhorar no serviço dos restaurantes cariocas?

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1. Não interrompa uma conversa. Espere o momento certo.

2. Não deduza por si só que os clientes querem que seu vinho branco fique num balde de gelo. Pergunte antes.

3. No caso do vinho tinto, pergunte se o cliente deseja se servir ou se prefere que o garçom o faça.

4. Nunca retire um prato cheio de comida sem perguntar o que deu errado. Obviamente, algo deu errado.

5. Nunca diga: “Boa escolha”, sugerindo que outras escolhas são ruins.

6. Não sirva a amuse-bouche sem detalhar os ingredientes. As alergias são um assunto sério, óleo de amendoim pode matar. (Esta também seria uma boa altura para fazer: “alguma alergia?”)

7. Não ignore uma mesa, porque não é sua mesa.

8. Não encha o copo de água a cada dois minutos, ou depois de cada gole.

9. Nunca empilhe os pratos na mesa.

10. Não desapareça.

Exposição gastronômica

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Durante as gravações do Menu Confiança Amazônia, edição especial do programa que vai ao ar no GNT, o diretor Ric Ostrower fotografou os melhores momentos do chef Claude Troisgros e das filmagens pela região. As imagens estão em cartaz no 66 Bistrô (Avenida Alexandre Ferreira, 66, Lagoa, 2266-0838), na exposição que acontece durante o mês de setembro, sempre de terça a domingo. Aqui vai uma provinha.

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Mercado Ver-o-Peso, Belém, Pará

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Comunidade Sahu-apé, Amazonas

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Estação das docas, Rio Guamá, Belém, Pará

Muito além do pretinho básico

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

66-bistro_foto-feijoada-cassoulet-21Chico Buarque foi tradicionalista ao cantar a feijoada com arroz branco, farofa, malagueta, laranja seleta, paio, carne-seca e toucinho. Imbatível em termos de popularidade, o prato faz sucesso o ano todo, seja no verão, quando os turistas abusam dessa delícia, seja no inverno, época em que os cariocas aproveitam as temperaturas mais amenas para degustá-la com mais conforto. Uma crescente legião de devotos aprova não só a receita versada pelo compositor, como suas diferentes formas de preparo. Que tal uma feijoada alemã? Ou vegetariana? Com tempero francês? Veja três endereços para ir além do pretinho básico:

66 Bistrô (Avenida Alexandre Ferreira, 66, Jardim Botânico, 2266-0838)

Popular em sua região de origem, Languedoc, no sudoeste da França, a cassoulet (foto) é um cozido de feijão-branco com carnes como confit de pato e pernil de cordeiro. Prato principal do almoço aos sábados, em cartaz das 12h às 18h.

Adega do Pimenta (Rua Almirante Alexandrino, 296, Santa Teresa, 2224-7554)

No cardápio está escrito: Bayrifcher Bohneneintopf. É a versão alemã da feijoada, servida somente aos sábados, domingos e feriados. O grande cozido é feito com feijão-branco e várias partes do porco, como a costela, a costeleta defumada, o lombo, além das salsichas vermelha e branca. Pedaços de batata e cenoura são cozidos junto, e, na mesa, o prato é servido com arroz branco.

Vegetariano Social Clube (Rua Conde de Bernadote, 26, loja L, Leblon, 2294-5200)

 Quem disse que adeptos da dieta vegetariana não podem saborear uma feijoada? Existe uma versão feita especialmente para aqueles que não comem carne. Faz tanto sucesso que tem muito carnívoro na fila no Vegetariano Social Clube às quartas e aos domingos na hora do almoço, dias em que o prato está no cardápio. É preparada com feijão-preto e tofu (queijo de soja) no lugar das carnes. Acompanham arroz integral, couve, farofa e laranja, além de uma dose de caipirinha de gengibre sem álcool.

Dicas bistronômicas em Paris

segunda-feira, 23 de março de 2009

Na onda da bistronomia, segue uma lista preparada pela chef Roberta Sudbrack, com endereços que seguem essa filosofia em Paris. Quem conhecer algum dos endereços abaixo e quiser dar sua sugestão do que pedir, o que achou, é muito bem-vindo. Quem tiver outras dicas na mesma linha, por favor, habilite-se também.

le-bistro-paul-bertLe Bistro Paul Bert
18 rue Paul Bert,
01 43 72 24 01
M:Faidherbe-Chaligny
Um verdadeiro bistrô parisiense onde o dono está sempre presente. Servem um dos melhores e mais aclamados entrecôtes com sauce bearnaise e as mais crocantes batatas fritas de Paris. Outra especialidade da casa é a sobremesa que atende pelo nome de Paris-brest, uma espécie de éclair grande recheada com um estupendo creme praliné.

Le Baratin
3 rue Jouye-Rouve
01 43 49 30 00
M : Pyrenées
A cozinha é domínio da Chef Raquel que prepara com maestria pratos como o bouillon de legumes e grandes camarões, a galinha d´angola assada com batatas e cogumelos e um delicioso fondant de chocolate. A carta de vinhos é preciosa e toda biológica. O menu muda diariamente.
 
Le Comptoir
5 Carrefour de l’Odéon
01 44 27 07 97       
M: Odéon
É o quartel general do grande Chef Yves Candebord, o precursor do movimento da bistronomie na França. Serve apenas um menu que muda diariamente e onde podem aparecer um maravilhoso bouillon de siri com alcachofra, o pato selvagem com cogumelos ou o carré de cordeiro glaceado. Sem esquecer uma das melhores partes, o maravilhoso prato de queijos. O almoço também é simpático e a salada niçoise é uma das melhores de Paris. 

Chez L´ami Jean
27 rue Malar
01 4705 8689      
M: Invalides 
Bistrô tradicional com assento na cozinha basca. Pratos típicos da cozinha francesa de bistrô, boas saladas, terrines, um maravilhoso côtes de veau e um dos melhores presuntos do mundo, o jambom de bayone, um patrimônio francês.

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Le Chateaubriand
129, av. Parmentier
01 43 57 45 95
M : Goncourt 
Bistro do Chef Inaki Aizpitarte com acento moderno e autoral. No menu podem aparecer desde um delicioso risoto cremoso de lagostins até instigantes sardinhas em tempura e xarope de amêndoas. O cordeiro de leite com tomates confit é delicioso. O menu também muda diariamente.

Entrevista com Jean-Luc Naret, diretor dos guias Michelin

sexta-feira, 6 de março de 2009

guide-france-2009-3dLançado nesta semana, o Guia Michelin França chegou à sua centésima edição. Sessenta endereços ganharam sua primeira estrela e foram incluídos 86 novos Bib Gourmands, restaurantes que oferecem um bom custo-benefício (menus por até 29 euros nas cidades do interior e 35 euros em Paris).

michelin_guide06Em comemoração ao centenário, a Michelin organiza na França o Mês Gourmand, que vai de 9 de março a 5 de abril. Mais de 900 restaurantes vão oferecer cardápios com preços especiais para quem apresentar o vale-brinde que vem no livro. Para acessar a lista: www.guia-michelin-centieme.com.

O Brasil e especificamente o Rio de Janeiro estão na mira dos inspetores. Em maio do ano passado, foi lançado o Guia Voyager Pratique Brésil, com mais de 100 páginas dedicadas ao Rio, ou seja, um quinto do guia. E já está em produção o primeiro guia sobre a cidade. Fará parte da coleção verde, que engloba não só restaurantes como atrações turísticas e opções de hospedagem. A seguir, oito perguntas para Jean-Luc Naret, diretor mundial dos guias Michelin desde 2003.

Alguma previsão para a criação de um guia vermelho sobre uma cidade brasileira ou o Brasil?

Foram necessários 105 anos para que a Michelin publicasse seu primeiro Guia nos Estados Unidos, com o lançamento do Michelin Nova York em 2005. Hoje, nós já temos também o Michelin São Francisco, publicado em 2006, e outros dois novos, o Los Angeles e o Las Vegas. Em novembro 2007, nós publicamos nosso primeiro Guia na Ásia, em Tóquio. Ao mesmo tempo, nos continuamos nos desenvolvendo na Europa. Enfim, estamos expandindo, modernizando e atendendo, sempre com o objetivo de satisfazer da melhor forma nossos leitores, expectativas e necessidades. Sem dúvida, continuaremos a nos desenvolver nos próximos anos e a América Latina faz parte dos nossos planos.

Como é o treinamento de um inspetor do guia?

A cada ano, um inspetor faz cerca de 250 refeições anônimas e passa 150 noites em hotéis. São mais de 800 visitas e 1 100 relatórios redigidos. Esses são alguns dos números de um inspetor. Hoje 86 homens e mulheres fazem esse trabalho: 70 na Europa, 10 nos EUA e 6 na Ásia. Eles passam a vida na estrada, nos restaurantes e hotéis para encontrar os melhores endereços. A maioria é formada em hotelaria. Quando contratados, ele passa por uma formação de 6 meses no qual será formado no critério de atribuição de estrelas, categorias de conforto, etc.. Por mais 6 meses, ele participará, em companhia de um inspetor, das visitas a hotéis e restaurantes. 

Quais são os principais critérios usados para a atribuição das estrelas?

A qualidade dos produtos, a preparação e o sabor dos pratos - a “personalidade” do chef nos pratos preparados -,  o custo-benefício e a consistência e regularidade do cardápio apresentado.  Cada um desses critérios é muito importante e levado em conta pelos inspetores durante os testes, ou seja, durante as refeições (almoço e jantar), de maneira totalmente anônima. Tais critérios garantem a homogeneidade da seleção Michelin, no mundo inteiro.  Dessa maneira, um restaurante três estrelas de Nova York tem o mesmo nível de qualidade que um restaurante três estrelas em Paris e em Londres, assim como um estabelecimento duas estrelas de Milão apresenta o mesmo nível de qualidade de um restaurante duas estrelas em Barcelona.

É claro que o mesmo nível de qualidade não significa o mesmo tipo de culinária.  No Guia Michelin, são selecionados diversos tipos de culinária. Na última edição do Guia Michelin New York City, lançada há duas semanas, são indicados cerca de 50 tipos de culinárias, desde a culinária americana à culinária coreana, passando pela culinária antilhana, japonesa ou francesa.

E como são avaliados outros quesitos importantes como ambiente e serviço?

Não se deve esquecer que as estrelas correspondem ao que é servido no prato, ou seja, elas são dadas apenas pela qualidade da comida servida e nada mais.  A classificação da decoração, do ambiente, da qualidade do serviço e dos equipamentos é feita por meio de um a 5 talheres (figura do garfo e da colher cruzados). Um talher significa “bastante confortável” e 5 talheres significa “grande luxo e tradição”. Os estabelecimentos mais agradáveis recebem um talher de cor vermelha.

As estrelas e os talheres são classificações totalmente independentes.  Em outras palavras, um restaurante pode receber, simultaneamente, 5 talheres vermelhos (que significam alto nível de conforto aliado a um serviço perfeito) e uma estrela. Da mesma maneira, um estabelecimento pode receber 3 estrelas porque “vale a pena ir até lá” e dois talheres pretos, porque a decoração e o serviço são considerados “bastante confortáveis” ou de “bom nível de conforto”. É o caso do restaurante Fat Duck, na Inglaterra.

Quantas vezes um restaurante é avaliado para que seja tomada a decisão de ganhar ou perder uma estrela?

A decisão de atribuir ou de “retirar” uma ou mais estrelas é tomada pelas equipes durante as “sessões estrelas”, que reúnem, duas vezes por ano, o diretor dos guias Michelin, o diretor do guia do país e os inspetores.  Se não houver consenso sobre um restaurante, é realizada uma visita por outro inspetor, para verificar a regularidade da culinária, pois trata-se de um critério de suma importância na atribuição das estrelas. É possível que haja até 12 visitas por 12 inspetores diferentes em diversos momentos do ano para verificar a regularidade da qualidade oferecida, antes de se tomar a decisão de atribuir três estrelas a um restaurante.

O que faz alguns dos melhores restaurantes do mundo perder estrelas?

A decadência desses restaurantes se dá, principalmente, por dois motivos. Primeiro, o fato de os chefs se afastarem da cozinha quando começam a fazer sucesso. Alguns se tornam burocratas, outros viram celebridades – e a comida sempre cai de nível. Um segundo problema são as crises emocionais, tão comuns num ambiente em que os profissionais se sentem sob muita pressão.

Como se explica o fato de Tóquio ter mais restaurantes estrelados do que Paris?

O guia Tóquio 2009 é uma seleção de 173 restaurantes com estrelas, entre eles, 128 com uma estrela, 36 com duas estrelas e 9 com três estrelas, num total de 227 estrelas.  É, sem dúvida, um número muito maior de estrelas do que as cidades de Paris, Nova York, ou Londres. A qualidade da gastronomia de Tóquio é excepcional, os produtos utilizados são formidáveis e as técnicas culinárias são extraordinárias.  Não se deve tampouco esquecer que Tóquio possui mais de 160.000 restaurantes, ou seja, dez vezes mais do que Paris ou Londres.  O guia Michelin Tóquio é o primeiro e único de uma coleção com 26 títulos lançados, que apresenta uma seleção em que todos os restaurantes possuem estrelas. Este guia Michelin Tokyo obteve um imediato sucesso com mais de 120.000 exemplares vendidos em menos de 24 horas e mais de 290.000 exemplares vendidos em 5 semanas!

Como o senhor avalia a atual disputa entre a cozinha francesa e a espanhola?

Não temos a pretensão de indicar quem oferece a melhor culinária ou quem é o melhor chef. O nosso objetivo é o de constatar o que está sendo servido e revelar o talento dos chefs.  O guia Michelin revela talentos e oferece aos seus leitores uma seleção de qualidade homogênea, feita anonimamente por inspetores profissionais, que são funcionários da Michelin. Mais de um milhão e duzentos mil exemplares do guia são vendidos no mundo inteiro. 

Muita gente diz que este é o grande momento da Espanha, mas discordo. Há, evidentemente, chefs espanhóis de talento, mas o único gênio é Ferran Adrià. Por outro lado, nenhum outro país concentra tantos restaurantes estrelados quanto a França – o que é um indicador objetivo da qualidade da comida. Essa história de que a culinária francesa parou no tempo, como afirma muita gente que se pretende especialista, é conversa de quem não entende do assunto.

Paris (por Carla Pernambuco)

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Chef-proprietária do Carlota (SP e RJ), a chef Carla Pernambuco acabou de voltar de Moscou, onde foi participar de um festival de gastronomia que tinha como atração principal a cozinha brasileira. Não resitiu. Na volta, parou por alguns dias em Paris, de onde escreveu passando dicas do melhor que provou e aprovou à beira do Sena. Pitacos sobre esses endereços e outras dicas do que pedir são muito bem-vindas.

Ma BourgogneA especialidade é o tartare de carne, temperado como deve ser: com uma mostarda deliciosa, alcaparras, um pouco de cebola e servido com batatas fritas. Sensacional! Para a sobremesa, uma tartin que vem com um pote de creme fresco batido. E o lugar não é muito caro: uma refeição para três pessoas com uma garrafa de vinho sai por 130 euros, que valem muito a pena.”

Chez JanouÉ um bistrô de bairro muito simpático. Na França, há uma combinação bem típica, que eles gostam muito: crustáceos e abacate. Provei uma salada de camarões com abacate e grapefruit e outra de queijo de cabra com folhas verdes e mel de alecrim, muito gostosas. E para fechar o jantar, uma panacotta de café com molho de chocolate. Para os franceses, tudo o que leva café tem um toque brasileiro, então, estava lá no cardápio: ‘panacotta com o sabor do Brasil’.”

Le Comptoir du Relais  “Sentei na varanda, em uma mesinha de bistrô bem apertadinha, e provei uma comida sensacional, clássica e com uma apresentação diferente. Passaram pela mesa a salada de lagostas com creme de abacate, que é deliciosa, e um porco assado amarrado como um rocambole com lentilhas muito bem temperadas. Para a sobremesa, uma espécie de pudim de chocolate feito em potinhos de cerâmica que vão ao forno, espécie de primo do creme brûlée.  Imperdível!”

Murciano ”É um lugar muito especial, que tem como especialidade os strudel de cereja, maçã e papoula. Também tem croissants sensacionais, pain au chocolat e todas as guloseimas que você pode imaginar. Fica no número 14 da Rue de Rosiers, que não fecha aos domingos, como muitos lugares em Paris.”

BarthélemyA especialidade deste pequena loja de queijos de Nicole Barthélemy, no 51 da Rue de Grenelle, é o camembert, mas eu amo o brie com crosta de pimenta do reino, desmancha e pica na boca.”

 

Chocolates Michel Cluizel “A laranja e o limão siciliano cobertos de chocolate são de capotar.”

Minha primeira vez (por Rogério Fasano)

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Rogério Fasano: "Basta inventarem uma nova tendência ou modismo que procuro uma ponte para passar por cima"

Com toda essa exaltação aos chefs espanhóis que aportaram em São Paulo no início do mês, lembrei de um texto que o restaurateur Rogério Fasano escreveu sobre sua primeira experiência com espumas e semelhantes. Lembro de ter adorado quando li e guardei. Depois de revirar diversas pastas e mais pastas de e-mails, aqui está ele. Acho que é um contraponto espirituoso no momento em que espumas, esferificações e outros produtos da cozinha tecnoemocional estão tão em alta. Vejam só:

“Desde criança, sou daqueles conhecidos como ‘do contra’. Basta inventarem uma nova tendência ou modismo que procuro uma ponte para passar por cima. Esse jeito de ser me faz invariavelmente adepto doditado ‘não fui, não vi e não gostei’. Por isso, demorei tanto tempo para tomar conhecimento da chamada ‘atual modernidade gastronômica’. Resolvi começar pelo que os aficionados desse tipo de cozinha consideram o mais ousado do mundo, o Fat Duck, a uma hora de Londres. Para quem não sabe, o chef Heston Blumenthal compete com Ferran Adrià, ano sim, ano não, como o melhor do mundo em várias publicações. Lá estamos, mesa para cinco: eu, minha mulher Ana, Drauzio Varella, sua mulher Regina e um amigo em comum, Isay Weinfeld (com quem já dividi inúmeros giros gastronômicos pela Itália). No caminho, fizemos todos a promessa de que iríamos sem preconceitos, para abrir nossas obtusas cabeças e entrar na experiência inglesa gastromolecular de Mr.Blumenthal. Afinal de contas, a Inglaterra é o berço da modernidade, e não é à toa que lá estão os geniais Paul Smith, Radiohead e Jamie Oliver.

Apesar disso, no caminho sentia um certo frio na barriga. Nem a paz e a beleza do interior da Inglaterra eram capazes de me deixar mais tranqüilo. Tinha medo do que estava por vir. Venho de uma família que tem como filosofia que uma refeição perdida nunca é recuperada, daí sofrermos tanto quando reclamações procedentes nos são feitas. A cidade é Bray; o lugar, um antigo cottage, arquitetonicamente charmoso, mas destruído por cinco quadros supostamente modernos, que fariam Picasso franzir a testa. Vamos ao que interessa:

Antipasto 1: nitro chá verde e mousse de limão.
Uma espuma de limão extraída de um sifão é jogada dentro de um pote com nitrogênio a 150 graus negativos, tornando-se imediatamente sólida, a comida vapt-vupt. O efeito? Quase nulo. Apenas amortece um pouco a língua; se soubesse o que viria pela frente, teria comido estas bolinhas como pipoca, para amortecer de vez o palato.

Antipasto 2: Ostra com molho de maracujá em mousse de gelatina.
Gostaria de deixar aqui uma pergunta: existirá no universo algum tipo de molho que melhore uma ostra? Duvido. O nosso era um desses molhos que a nova cozinha tanto adora. Fico imaginando quem foi o sujeito que inventou que a comida gourmand tem que ser agridoce. Guilhotina nele.

Antipasto 3: Sorvete de mostarda com gaspacho de beterraba.
Desfrutamos o gaspacho de beterraba, com um insípido pãozinho servido frio. Quanto ao sorvete de mostarda, é exatamente o que se pode imaginar de um sorvete de mostarda. Estranhíssimo.

Antipasto 4: Pequenas geléias de sabores variados, que não consigo descrever, e cuja matéria-prima ninguém conseguiu identificar.

Antipasto 5: Pequenas torradas com trufas pretas. Excepcionalmente, são sólidas e normais na aparência. Chegaram a ser negociadas a peso de ouro, mas ninguém vendeu as suas. Mesmo sabendo, nós e o Sr. Blumenthal, que as trufas encontradas nesta época do ano são as piores que existem. Gostaria de fazer aqui um aparte: trufa é algo sublime que costuma mudar para melhor quase tudo aquilo que toca. Não confundir com óleo de trufa, que costuma ter o efeito contrário: destrói tudo e parece feito pela Esso, pois tem gosto de gasolina.

1º prato: Escargots com presunto espanhol e erva doce ‘barbeadas’. Muito saboroso.

2 º prato: A quantidade de açúcar que acompanha o foie gras com cereja e camomila nos trouxe de volta à realidade.

3 º prato: Chamado sound of the sea; um espuma branca de textura estranhíssima, com uma espécie de areia-farofa servida ao lado. E acompanhada de quê? De um iPod. Sério! Todos nós recebemos o aparelho, que fomos obrigados a usar, e que reproduzia barulhos do mar. Detalhe: o meu tinha uma camada extra de cera no fone de ouvido, deixada pelo último comensal. Fingi que não percebi e coloquei o meu, afinal de contas as pessoas vão ao Fat Duck para aplaudir, não para reclamar. Fica aqui uma sugestão, seria muito mais higiênico e faria o mesmo efeito, uma concha marinha.

Após retirarmos o iPod, Regina comentou: ‘Estive mês passado no que é considerado o restaurante mais antigo do mundo, que serve assados em Madri’. A mesa quase veio abaixo. A curiosidade voltou-se toda para o que Regina havia comido. Isay, eu e Ana comentávamos o excepcional jantar que tivemos no Harry’s Bar de Londres, um clube privado, que serve cozinha italiana, na síntese da modernidade: rústica, porém delicadíssima.

4 º prato: Já estava perdendo a paciência com nosso amigo Pato Gordo quando chegou um salmão pochê com aspargos, alcaçuz e grapefruit. Sem exageros, considero o pior salmão que comi na vida.

Último prato: Excepcional costeleta de carneiro, porque estávamos na terra do melhor carneiro do mundo, mas era servida com um molho doce, muito doce. O Fat Duck é quase uma confeitaria, que serve alguns salgados.

Meu jantar aqui chegou ao fim. Pulei os doces, pois já tinha comido açúcar demais. Assim fez também Drauzio, que não come açúcar e já tinha ingerido sua dose pelos próximos 20 anos. A sobremesa mais famosa do lugar é um sorvete assim descrito: ‘nitro-ovos mexidos e sorvete de bacon’. Se o sorvete de mostarda já tinha sido duro, o que fazer então com a versão em bacon?

Os outros à mesa receberam o sorvete, mas apenas o tocaram, o que deixou os maîtres um pouco indignados. Não nos importamos muito, pois sabemos que nesses restaurantes, na grande maioria das vezes, o serviço é insuportável. Desde que alguns chefs foram elevados à categoria de diretores de cinema, seu staff age como coadjuvante de grandes estrelas. Eles se sentem contracenando com Marlon Brando ou como assistentes de câmera de Stanley Kubrick.

Exceção feita a um simpático irlandês, ruivo, que a cada esquisitice servida à mesa, com muita ironia, após dez minutos de explicação de cada prato, nos dizia: enjoy it! Como os recepcionistas da casa dos horrores.

Olhei para Isay - arquiteto moderno, antenado, culto, contemporâneo, enfim, entre os grandes - e entendi o que ele sente quando esta arquitetura feita com formas esdrúxulas é considerada moderna.

The end: a conta, 1.300 libras ou R$ 5.600, incluindo uma minúsculataça dos seguintes vinhos e saquê: Iphofer Kronsberg Silvaner SpatleseTrocken 2005; Vin de Pays des Côtes Catalanes, Le Soula, Roussillon; Vinoptima Gewürztraminer Reserve Gisborne; Rashiku Ginjo-SakeYamatogawa; Quinta da Falorca Reserva Dão; Barolo, Nei Cannubi LuigiEinaudi.

Voltamos ao nosso motorista, mais inglês impossível, e acostumado a levar pessoas ao Fat Duck, que com muito sarcasmo pergunta: ‘Any good?’. Isay de bate pronto: ‘No’. Motorista: ‘Lots of people say that’. Penso: nem tudo está perdido.”