
John Walter Scott foi um notório traficante de bebidas que, para fugir da fiscalização durante a Lei Seca, escondia uísque em insuspeitos barris de pimenta. Seu cliente mais famoso, o gângster Al Capone, lhe deu o apelido de Johnnie Pepper (pimenta, em inglês). Nessa concisa história, o único fato fiel à realidade é a proibição do comércio de bebidas nos Estados Unidos, entre 1919 e 1933. Todo o restante brotou da imaginação do designer carioca Toni Varella, um profissional que, na falta de denominação mais apropriada, pode ser chamado de personal restaurateur. Sua especialidade consiste em dar identidade própria a bares e restaurantes. O Johnnie Pepper em questão é nome, símbolo e garoto-propaganda de uma steak house inaugurada na Barra em 2007. Uma ilustração inspirada no avô de Varella virou o rosto do personagem, devidamente estampado na parede da casa. “Isso se chama eatertainment (união de comer e entretenimento, em inglês)”, define. Em bom português, trata-se da tematização de estabelecimentos, um conceito, segundo ele, desenvolvido pela Disney. O objetivo é transportar o visitante a um universo paralelo e aguçar todos os seus sentidos, a fim de deixá-lo com vontade de retornar até tornar-se freguês assíduo. Atualmente, o designer está envolvido em quinze projetos do gênero no Rio.
Inquieto e falante, Varella estima ter atendido mais de 150 clientes em quinze anos no ramo. Seu serviço é elástico. Pode ir da reformulação visual da marca ao desenvolvimento completo de um perfil para o estabelecimento. Isso passa pelo mapeamento do setor, definição do tema e treinamento de funcionários, desde o pedreiro envolvido na obra até o chef da cozinha. Fora a delícia de inventar histórias. “O proprietário só precisa chegar para a festa de abertura”, diz ele, com humor, enquanto saboreia um supercalórico brownie com calda de chocolate quente, sorvete de creme, chantilly e lascas de macadâmia, uma de suas sugestões para o cardápio do Joe & Leo’s. A rede de hamburguerias, por sinal, foi um de seus primeiros sucessos. Em 1996, recém-inaugurada no Fashion Mall, ela não dava sinal de um futuro promissor. “Naquela época, hambúrguer era sinônimo de Bob’s e McDonald’s”, lembra. “As pessoas precisavam entender que valia a pena pagar cinco vezes mais por aquilo.” Teve início, então, a metamorfose. O cardápio ganhou novos itens, com apetitosas imagens, e a decoração foi incrementada com peças de antiquários. Em pouco tempo já se formavam filas de espera. “Foram ações fundamentais para a nossa expansão”, afirma o empresário André Cunha Lima, dono da rede que tem cinco lojas no Rio e franquias em São Paulo, Campinas e Porto Alegre.
Seu conhecimento não vem apenas da observação em mesas e balcões. Varella fez um curso na Disney com um dos executivos do parque, é assinante do instituto de pesquisas da Universidade Cornell, nos Estados Unidos, e tem em casa mais de 2 000 livros sobre culinária. Assim adquiriu confiança para aplicar por aqui táticas adotadas por grandes cadeias mundiais. Muitas vezes são medidas simples e eficazes. O símbolo do cifrão, por exemplo, deve ser suprimido do cardápio, o que, segundo ele, minimiza o impacto do preço. Outro ensinamento: no sistema por quilo, as carnes devem ficar ao final do bufê. A ideia é que elas sejam colocadas com parcimônia em um prato já repleto de arroz, feijão, batata e outros itens baratos para o empresário, mas pelos quais o consumidor desembolsa o mesmo valor. “Nada é aleatório”, atesta o designer, que chega a cobrar 120 000 reais por uma consultoria.
Até agora, as receitas de Varella – uma combinação que reúne criatividade e técnicas apuradas de venda – têm dado retorno. No Bob’s da Rua Garcia d’Ávila, ele tornou o menu board, como é chamado o painel de produtos sobre os caixas, mais atrativo e compreensível. Resultado: redução no tempo de atendimento e aumento do gasto por consumidor em 1,50 real. Outra iniciativa bem-sucedida deu-se na cadeia de comida por quilo Frontera. Para diferenciá-la das concorrentes com aspectos de refeitório, ela ganhou ilustrações de vários países, dentro da temática de uma viagem pelo mundo. O sucesso tem sido enorme. A rede atrai cerca de 120 000 pessoas por mês, período em que a recém-inaugurada loja de Copacabana lucrou 220 000 reais. Sua quinta filial será aberta no Leblon, bairro onde o toque do designer pode ser conferido no Lebronx, no Joe & Leo’s, no Oliva, no Andy’s e, em breve, na Casa do Alemão e no Astória. Para o futuro, um desafio. “Adoraria tirar as churrascarias daquele lugar-comum”, sonha.
Disneylândia Gastronômica
Alguns restaurantes que surgiram da criatividade do designer
Frontera
Fevereiro de 2006
Onde: Ipanema, Barra, Copacabana e Jardim Botânico
História: aposta no conceito de uma viagem de volta ao mundo, com referências a pontos turísticos de vários países e uma profusão de mapas, malas e baús espalhados no salão
Johnnie Pepper
Agosto de 2007
Onde: Barra
História: a decoração gira em torno do fictício Johnnie Pepper, um gângster que traficava uísque durante a Lei Seca em barris de pimenta. O retrato do mafioso foi inspirado em uma foto do avô de Varella
Mamma Jamma
Novembro de 2009
Onde: Jardim Botânico
História: nasceu de um sucesso dos anos 80 do cantor Carl Carlton, She’s a Bad Mamma Jamma. Como nos Estados Unidos, aqui se comem pizzas com as mãos
Duke
Janeiro de 2010
Onde: Ipanema
História: o restaurante foi criado em torno da figura de um adolescente que viaja para Londres e Nova York nas férias de 1979. No passeio, ele dá seu primeiro beijo, ganha um cachorro e torna-se fã do seriado The Duke